Retornamos — e dessa vez com o season finale de nossa lista. A última parte compreende mais um TOP 10, lembrando que fizemos um para o primeiro semestre que pode ser acessado lá embaixo no mapa da lista. Se eu não me enganei em algum momento, nem sorrateiramente falei da mesma série em semestre diferentes, completamos cem dicas (ish), recomendações que meus colegas e eu tentamos recomendar com os mais diversos argumentos — ou a série é importante para nós, ou importante para outros, ou importante em seu meio, ou simplesmente divertida.
Defender os dez colocados aqui é sempre uma tarefa difícil, então retorno, novamente, com convidados. Além dos episódios, decidi colocar algumas outras listas para fechar esses três meses de conversa. Com tudo fechado, espero que aqueles que acompanharam todo o projeto possam passar sua avaliação, compartilhar sua lista e nos dar um retorno sobre este novo formato de apresentar os melhores do ano.
Lembrando, pela última vez, que os spoilers não sobreviveram ao corte final da lista, e você pode ler os textos com tranquilidade, estes são os dez melhores episódios do segundo semestre de 2018:
10Sorry For Your Loss, 01×05: “17 Unheard Messages” (25/09/2018) [Facebook Watch]
Escrito por: Jonathan Igla // Dirigido por: James Ponsoldt

Por Vitor Souza
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2020 a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. Hoje, ela já afeta mais de 4% da população mundial. Em um mundo a cada dia mais exigente e competitivo, onde as relações se tornaram líquidas e transparecer feliz virou quase uma obrigação social, manter-se mentalmente saudável é cada vez mais difícil. O pior é que mesmo sendo tão presente na sociedade atual, a depressão ainda é envolta de estigmas e equívocos. Milhares de pessoas estão adoecendo, ou vendo parentes e amigos adoecerem e não são equipadas com informação suficiente para reconhecer o que estão enfrentando. Por isso, é de extrema importância que as pessoas entrem em contato com narrativas que as levem a compreender o poder devastador da doença. Somente com conscientização seremos capazes de combate-la.
“Ela acha que é como uma névoa, porque ela leu em um artigo, mas não é assim que parece para mim. (…) Parece como um vento forte que afasta a névoa e revela a verdade do mundo que estava coberto. Todos estão na névoa. Eles não conseguem ver, mas eu vejo que é tudo feio e sem esperança. (…) A doença não é perigosa porque mente para mim, ela é perigosa porque me revela a verdade”
Sorry For Your Loss estreou sem muito alarde no serviço de streaming do Facebook, o Facebook Watch. A trama acompanha o processo de luto de Lee (Elisabeth Olsen), uma jovem que perde o marido, Matt, de forma trágica. A série mostra de forma muito realista as complexidades do luto. Porém, em 17 Unheard Messages, há uma mudança de foco. Ao desvirtuar o olhar da narrativa para Matt (Mamoudou Athie), o episódio traz um dos retratos mais honestos e brutais que eu já vi sobre depressão em uma série de TV.
É um episódio que funciona em diversos níveis. Até então a ideia do público sobre Matt era idealizada, já que a memória de Lee sobre ele é afetiva. Porém, ao sermos levados ao íntimo da personagem, percebemos como há mais complexidade sobre quem ele era do que simplesmente o amável marido da protagonista, o que o humaniza e o torna muito mais identificável. Assim, o episódio preenche lacunas da narrativa ao mesmo tempo em que expõe de forma sincera como é a rotina de alguém que sofre de depressão. É muito difícil explicar como que é travar diariamente uma batalha com a própria mente, e a série consegue fazer isso com impressionante sensibilidade, honestidade e precisão.
Ao contrário do que muita gente pensa, embora cause traços emocionais universais, cada um vivencia a depressão de forma única. A descrição que Lee leu sobre parecer como uma névoa, que coloca sob o mundo uma lente cinzenta faz bastante sentido para o que eu pessoalmente vivo, por exemplo. Porém, para Matt a doença revela uma verdade que os outros ignoram. Essa informação diz muito sobre ele e sobre como ele cultivava seus relacionamentos. O diálogo com a terapeuta foi um verdadeiro soco no estômago, principalmente pelo que ela lhe diz: “você tem que se acostumar com a ideia de que talvez não consiga ser feliz”. Ora, se a felicidade não é uma opção, então para que continuar vivendo? Gosto que o episódio tenha plantado uma incógnita quanto à morte de Matt. Deixa claro como a depressão é um tópico de extrema urgência e, dentro da narrativa, é um ponto chave para a jornada da protagonista.
(Outros episódios: 01×03: “Jackie O and Courtney Love”, 01×09: “Welcome to Palm Springs”.)
[N.E.: Sorry está disponível gratuitamente no Facebook. É só pesquisar pelo nome da série e assistir no celular/computador.]
9BoJack Horseman, 05×06: “Free Churro” (14/09/2018) [Netflix]
Escrito por: Raphael Bob-Waksberg // Dirigido por: Amy Winfre

Por Welson Oliveira
BoJack Horseman é uma série devastadora, agora sabemos. Não só inteligente, bem escrita e com um roteiro interessante de acompanhar — ela é devastadora. Um bom momento para celebrar isso? O protagonista ao lado de um caixão, focado por um episódio inteiro nessa posição, dando um discurso difícil (bem difícil) de assistir. Se nós pensarmos o quanto conhecemos da pessoa de quem ele se despediu na última temporada, a coisa fica ainda pior, porque, se a vida já não foi carinhosa com ela, nós podemos contar sempre com uma reputação amargurada, deixada para trás, para piorar as coisas.
É afundando seu texto nessa verdade que Free Churro se torna um dos melhores episódios da série. Vai de momentos constrangedores que nos arrancam aquele sorriso amarelo que disfarçamos mesmo quando assistimos sozinhos até falas compreensíveis demais, de uma verdade assustadora demais. A piada aqui não é somente aquela gerada nos absurdos das situações, mas a própria contemplação que o enredo e as personagens fazem da vida: como se sublinhassem que a grande graça, a grande gargalhada, está em percebermos como os maiores esforços às vezes levam ao nada. É deprimente e pessimista, mas, novamente, reconhecendo o estilo da série, não dá para pedir outra coisa.
Normalmente, quando as pessoas me perguntam como estou, a resposta honesta é que estou péssimo. Mas não posso dizer que estou péssimo porque eu sequer tenho um bom motivo para estar péssimo. (…) Então, eu respondo “estou ótimo”.
Este sexto episódio, que fecha mais uma temporada introspectiva sobre amadurecimento, também é um bom exercício de roteiro. Nunca é fácil isolar uma personagem e fazê-la o grande foco da coisa por diversos motivos. BoJack encara o desafio e se sai bem na tarefa. É como se estivéssemos assistindo ao programa de stand up mais honesto por aí. As pausas para uma resposta que não vem (e nunca virá), os pedidos de riso da plateia, que soam quase como um clamor por socorro, e a constante vontade de emendar uma frase na outra transformam os vinte e cinco minutos desse episódio, possivelmente, nos melhores de uma série animada em 2018.
(Outros episódios: 05×02: “The Dog Days Are Over”, 05×05: “The Amelia Earheart Story”, 05×11: “The Showstopper”.)
8Sob Pressão, 02×05: “Episódio 5” (06/11/2018) [Rede Globo]
Escrito por: André Sirangelo // Dirigido por: Andrucha Waddington

Por Arthur Barbosa
Todo série maníaco que se preze, com certeza, já viu ou pelo menos ouviu falar nos trágicos acidentes em Grey’s Anatomy, certo?! Não é pra menos que Shonda Rhimes (Scandal) é conhecida, carinhosamente, como “Shondanás”, ou seja, aquela escritora que não tem medo de eliminar, para sempre, personagens queridos. Contudo, vocês, leitores, devem estar pensando o seguinte: “Arthur, o episódio em questão não é americano!” Eu sei, pessoal! Entretanto, essa rápida introdução se faz necessária, uma vez que esse capítulo na vida de Sob Pressão teve algumas características bem parecidas com o seriado da ABC.
Desde a estreia do seu segundo ano, a série médica brasileira nos surpreendeu, a cada nova quinta-feira, e não seria diferente na primeira semana de novembro, não é mesmo?! Emoção e adrenalina estavam presentes, pois nós, telespectadores, ficamos boquiabertos com o ocorrido: a médica Carolina (Marjorie Estiano de Malhação) se envolve em um acidente de trânsito, devido à ação de um ladrão dentro de um ônibus. O veículo, infelizmente, acaba capotando, gerando muitas vítimas, sangue, sofrimento e desespero. Aqui vale destacar a direção, com os efeitos especiais, roteiro e, claro, a maestria da atuação do elenco. Além de Marjorie, temos, por exemplo, Julio Andrade (1 Contra Todos), no papel do Dr. Evandro, o nosso McDreamy brasileiro, e Pablo Sanábio (O Rebu), interpretando o bondoso residente do Hospital Luis Carlos Macedo, vulgo, Macedão, Dr. Charles.
Por isso, ao assistir a esse episódio atípico, devemos desconstruir paradigmas de que produções nacionais são sempre ruins, de péssima qualidade. Muito pelo contrário: Sob Pressão é algo espetacular que, apesar de ter clichês – no caso, vítimas acidentadas -, pode ter características e emoções próprias, mostrando um certo amadurecimento da Rede Globo, deixando evidente que podemos confiar nos roteiristas brasileiros. Não é apenas a indústria americana que sabe produzir um bom drama médico. Tanto é que foi o episódio com maior audiência, sendo bem repercutido nas Redes Sociais, como no Twitter. Enfim, impecabilidade é a palavra que define os quase 45 minutos exibidos. Se fosse uma redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) receberia, com certeza, nota máxima, ou seja, 1000 (mil), rs. Brincadeiras à parte, a Nota do Autor foi 5 e você pode conferir a review do episódio clicando aqui.
(Outros episódios: 02×11: “Episódio 11 [Season Finale]”; 02×09: “Episódio 09”, 02×04: “Episódio 04” e “02×01: Episódio 01 [Season Premiere]”).
7The Haunting of Hill House, 01×06: “Two Storms” (12/10/2018) [Netflix]
Escrito por: Mike Flanagan e Jeff Howard // Dirigido por: Mike Flanagan

Por Victor Tourinho
The Haunting Of Hill House foi, inquestionavelmente, um dos grandes fenômenos de 2018, criando uma interessante mistura entre terror com espíritos e dramas familiares provocados por traumas passados e relações fragilizadas. O cuidado de se entregar uma boa história está presente em cada cena da série, que conta com um roteiro afiado e uma direção habilidosa, chegando ao seu momento de ápice no episódio Two Storms.
Ótimo candidato para ganhar algumas indicações na temporada de prêmios de 2019, Two Storms é um deleite tanto para o grande público quanto para aquele mais exigente, atento às características técnicas das produções que acompanha, pois traz algo quase não visto na televisão nos últimos tempos: Um episódio inteiro filmado quase que unicamente em plano-sequência, intercalando, ainda, passagens de tempo entre passado e presente, com os atores de cada fase, inclusive, trocando de lugar em questões de segundo, com a cena ainda em seguimento.
Se mostrando uma verdadeira aula de se fazer televisão, o episódio se tornou apenas mais um atrativo em uma produção instigante, profunda e surpreendente. Sem sombra de dúvidas, um dos melhores produtos que a Netflix nos entregou no ano que se passou.
(Outros episódios: 01×05: “The Bent-Neck Lady”, 01×09: “Screaming Meemies”.)
6Castle Rock, 01×07: “The Queen” (22/08/2018) [Hulu]
Escrito por: Sam Shaw // Dirigido por: Greg Yaitanes

Por Vera Tocantins
Muitas séries televisivas e alguns filmes baseados nos livros de Stephen King têm errado feio no processo de transposição de linguagem das obras do autor, vide os desastrosos exemplos de The Mist (Canal Spike), Under the Dome (CBS) e A Torre Negra (Sony Pictures). Castle Rock é uma exceção: a série, que segue a linha dos atuais mystery-box, onde o telespectador deve desvendar o mistério da temporada, acertou em cheio nas suas decisões criativas e nas licenças narrativas. A história de Castle Rock se passa no Maine, local onde acontece boa parte das histórias mais incomuns de Stephen King (Cão Raivoso, IT, Carrie, a Estranha, Conta Comigo…).
A premissa é aparentemente bem simples e foca no advogado, Henry Deaver (André Holland), que trabalha com presos no corredor da morte, e no ressurgimento de um garoto misterioso (Bill Skarsgård), que faz com que Henry traga à tona situações do passado que estavam reprimidas em sua mente após um evento traumático acontecido na sua infância. Em busca de respostas, Henry retorna para sua casa na tentativa de desvendar o seu passado através da sua mãe adotiva, Ruth, portadora de Alzheimer.
The Queen foi um episódio muito bem construído. Não só na forma como decidiram tratar o Alzheimer, mas na maneira como avançaram e recuaram na narrativa, nos colocando dentro da mente de Ruth Deaver (Sissy Spacek), apresentando os fatos a partir da sua perspectiva. Os cortes e saltos temporais serviram muito bem para o propósito da trama. O episódio 1×07 nos deu um panorama em perspectiva bastante sombrio e perturbadora de Matthew Deaver (Adam Rothenberg), falecido marido de Ruth. O final do episódio foi bem impactante e complexo, assim como a sombra de ‘The Kid’ pairando sobre a família Deaver.
Se Sissy Spacek, no quesito atuação, apenas tinha arranhado a superfície em Castle Rock nos episódios anteriores, ela se superou em The Queen. Mostrou um trabalho maduro e consistente, nos entregando uma Ruth de partir o coração. E que história de amor sensível e bem contada! Igualmente ao filme ‘A Origem’, onde o protagonista possuía uma âncora (totem) para mantê-lo preso à realidade, Ruth decidiu usar as peças do seu jogo de xadrez para essa mesma finalidade. Durante todo o episódio, ela usou as peças do jogo de xadrez espalhadas pela casa para se manter conectada com a realidade.
Sissy Spacek é, sem sombra de dúvidas, a Rainha de Castle Rock! O episódio foi soberbo, soube trabalhar no limite da ação e do suspense como poucas séries do gênero conseguem fazê-lo. Para completar esse deleite visual, The Queen apresentou ainda importantes referências a outras obras do universo de King, tais como, Cujo, Gerald’s Game, Cemitério Maldito e a A Torre Negra, até a conversa que Ruth teve com Wendell, seu neto, foi uma clara alusão a ‘The Langoliers’, obra que explora a possibilidade de consertar a linha do tempo ou matar aquilo que já está morto. Até o shopping de Chesters’s Mill foi uma boa referência, afinal, é a mesma cidade do estado do Maine onde se passa Under the Dome.
Todas as razões citadas nesse texto já são motivos suficientes para The Queen fazer parte dessa lista, mas a maior razão para esse episódio figurar esse top é mesmo o excelente trabalho de Sissy Spacek interpretando Ruth Deaver.
5Random Acts of Flyness, 01×01: “What Are Your Thoughts Raising Free Black Children” (04/08/2018) [HBO]
Escrito por: Terence Nance e Jamund Washington // Dirigido por: Terence Nance, Frances Bodomo e Shaka King

Por Welson Oliveira
Esta é uma série escondida não apenas aqui, mas no próprio canal de origem. Isso porque Random Acts of Flyness é um programa noturno, que passa neste horário (conhecido como late-night) lá na HBO dos EUA. Aqui temos uma coletânea de esquetes que seguem a mesma proposta (a experiência da pessoa negra no país norte-americano), mas que muda o tema conforme os episódios. A liberdade de fazer parte de um canal tão transgressor e neste horário tão vantajoso (em certos sentidos) é aproveitada ao máximo. Assim, antes de mais nada, Random é um experimento no audiovisual. Aquela série que muitos diretores, roteiristas e produtores assistirão e terão como inspiração, mas que dificilmente encontrará o grande público. Isso porque ela não facilita, não se explica, não coloca as “personagens” para concluírem a moral da coisa. O que eu recomendo, caso você se permita assistir e não entenda muito bem as propostas por trás de cada esquete, é que abra mão desse desejo nosso de tudo entender e tudo teorizar e apenas aproveite as sensações que as sequências podem passar.
No episódio que apresenta série, Terence Nance o faz literalmente, conversando conosco e quebrando a quarta parede. Aqui, ele é responsável por criar, dirigir, roteirizar e produzir a série. E estes não são apenas títulos acumulados, mas papéis que resultam em uma identidade visual para a série. Temos diversas sequências engraçadas e provocativas, que colocam o dedo na ferida… Ou melhor, a mão inteira. Quando o episódio começa, é anunciado que o tema da primeira semana seria black face. Ao passar do episódio, no entanto, nós, que estamos acostumados com a definição de tal termo, não encontramos a terrível manifestação entre as cenas. Mas isso é de propósito, porque há uma sequência preparada, lá no final, para costurar tudo. Se eu disser que aplaudi, não é exagero. Eu literalmente aplaudi a televisão por quase dois minutos.
Random Acts deveria circular e ganhar mídia porque tem potencial para começar conversas, viralizar pelas redes sociais e formar uma boa base de “pesquisadores” de seus episódios. Tem boa fotografia, edição e produção, uma mudança de gênero que nunca parece forçada e um cinismo que dificilmente fazem mal a comédias.
(Outros episódios: toda a temporada.)
4Better Call Saul, 04×10: “Winner” (08/10/2018) [AMC]
Escrito por: Peter Gould e Thomas Schnauz // Dirigido por: Adam Bernstein

Por Rodrigo Canosa
É difícil explicar como a season finale de BCS ocupa esta colocação na lista sem contextualizá-la ao longo da temporada e também de toda a série. Se visto independentemente de seus precedentes, Winner teria seus méritos próprios, passando por sua construção muito bem feita, pelo plano muito bem arquitetado por Jimmy (Bob Odenkirk) e Kim Wexler (Rhea Seehorn), pelas aparições sempre ótimas de Gus Fring (Giancarlo Esposito), por todo processo de decisão a que Mike (Jonathan Banks) é submetido, pelo fantástico discurso de Jimmy no final do episódio e, claro, pelas sempre grandes atuações dos intérpretes de todos eles. Entretanto, o maior e melhor desta season finale tem relação direta com tudo o que a série desenvolveu ao longo dos episódios anteriores. Winner foi a cereja do bolo da melhor temporada de Better Call Saul até agora, sendo mais uma prova de como Vince Gilligan sabe planejar suas séries, construir os destinos de suas personagens, amarrando todas as pontas de forma que, ao final, tudo se encaixe perfeitamente.
Confesso que não sou um grande observador de fotografia, direção e outras características técnicas que muitos analisam em um episódio, porém a verossimilhança e construção do roteiro para mim são fundamentais. De nada adianta todos os atributos técnicos estarem bem feitos se não consigo enxergar uma sequência lógica e crível de como um episódio ou série chega a determinado ponto, ou se o caminho mais fácil e preguiçoso é escolhido para resolver um determinado plot. Da mesma forma, as decisões de uma personagem precisam ser condizentes com a personalidade desenvolvida ao longo da série (isso obviamente para aquelas que ainda se preocupam com desenvolvimento de suas personagens).
No caso de Better Call Saul, a construção do roteiro talvez seja ainda mais importante – e mais difícil, pois além do objetivo da série ser o de contar de que maneira Jimmy torna-se Saul, existe ainda a dificuldade do resultado final, a personalidade de Saul e as consequências de seus atos, já previamente definidos em Breaking Bad, deixando portanto uma margem mínima para erros. Como se não bastasse, BCS ainda não se atem a Jimmy e trata de inserir e desenvolver antecedentes para outros personagens de BrBa, tais como Mike Ehrmantraut (desde o início da série), Gus Fring e Hector Salamanca (Mark Margolis), o que torna tudo ainda mais difícil e merecedor de destaque ao conseguir cumprir todos seus objetivos.
Desta forma, a maneira com que Winner fechou a temporada foi perfeita. O episódio não só completou os objetivos traçados para Jimmy ao longo da temporada, como foi extremamente coerente ao fazê-lo, deixando o personagem cada vez mais perto daquele advogado trapaceiro e sem escrúpulos que tanto conhecemos. Além disso, outras respostas necessárias para o resultado final conhecido da série foram dadas, com Mike sendo obrigado a cruzar linhas que não desejava e o destino Kim – que não é uma personagem existente em Breaking Bad – sendo provavelmente definido após o último ato de Jimmy na temporada.
3The Marvelous Mrs Maisel, 02×10: “”All Alone” (05/12/2018) [Amazon Video]
Escrito por: Amy Sherman-Palladino // Dirigido por: Amy Sherman-Palladino

Por Bianco Silva
A segunda temporada The Marvelous Mrs. Maisel, série queridinha da temporada 2018-2019 de cinema e televisão, consegue ser ainda melhor do que o já excelente ano de estreia, consolidando a ótima direção de arte e primor visual com o sempre necessário e pertinente discurso feminista.
E acreditem: os elogios e o hype que circundam a atmosfera da série não são nem um pouco exagerados. A série é fantástica, com uma reconstituição de época impecável (à altura de Mad Men, minha referência para meados do século XX nos EUA), diálogos frenéticos e inspirados, planos-sequência sensacionais e com personagens e tramas cativantes.
O melhor capítulo da temporada, eleito por mim, é o fenomenal All Alone, décimo e último episódio. O monólogo que Lenny Bruce (Luke Kirby) tem é pungente, depressivo e emocionante, levando Miriam (Rachel Brosnahan) a tomar, talvez pela primeira vez em sua vida adulta pós-casamento e filhos, uma decisão imediata e pensando somente em si, sem levar em consideração todos esses outros fatores.
Isso é algo que ainda hoje é negado às mulheres que, para os opressores, tem como suas primeiras obrigações a casa e os filhos. O desabafo de Lenny encaixa perfeitamente na lógica do palhaço que faz todos rirem, mas que não tem ninguém que o faça rir.
Foi um episódio que encerrou com chave de ouro uma excelente segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel, onde ficou clara e notória a evolução de Miriam e outras personagens juntamente com ela. De mãe separada e perdida, ela se desenvolveu em uma mulher independente e empoderada, que questiona o establishment que privilegia homens, especialmente na cena do stand up comedy nova-iorquino.
(Outros episódios: 02×01: “Simone”, 02×04: “We’re Going to the Catskills!”.)
2L’amica Geniale / My Brilliant Friend, 01×02: “I soldi” (03/12/2018) [HBO]
Escrito por: Elena Ferrante, Francesco Piccolo, Laura Paolucci e Saverio Costanzo // Dirigido por: Saverio Costanzo

Por Welson Oliveira
Elena Ferrante tem sido um nome que muito circula pelas rodas de conversa sobre Literatura. Não só a autora italiana tem livros elogiados e vem construindo uma bibliografia sólida, mas o sucesso comercial a alcançou, rendendo-lhe boas colocações nas listas de mais vendidos pelo mundo. Outro fator que gera interesse no público é a falta de um rosto para associar ao nome: ela faz o caminho oposto ao que Rowling, por exemplo, tem feito. Nessa onda de mistério, surgiu a Série Napolitana, composta por quatro livros, sobre o desaparecimento de uma mulher e as memórias que sua amiga tem dela.
Mesmo de fora dos holofotes no que diz respeito a continuar suas séries pelo twitter, Elena, ainda no mistério de sua existência, conseguiu participar dos roteiros que adaptaram a série em 2018. Assim, em novembro, ganhamos uma série italiana que, em poucos episódios, alcançou o posto dos melhores programas do ano. Não só o idioma dá um descanso do inglês aos nossos ouvidos, mas a própria série tem um foco que poucas produções atuais têm: amizade feminina. E não qualquer amizade! E não aquela amizade de colegial de série juvenil! Ah, não, uma amizade envolta em competição e zelo.
Em L’amica Geniale, acompanhamos duas garotas que, ainda criança, tornam-se amigas na escola, por mais opostas que elas sejam. As duas são pobres e vivem em uma vila em decadência. São pobres de maneira diferente, como sempre acontece nos subúrbios e nas periferias, então acabam ganhando oportunidades diferentes pela vida. Lila e Lenú têm grandes personalidades e uma inteligência e dedicação que acabam sempre jogando sombra uma sobre a outra em diversas ocasiões. Pouco aptas a lidar com isso enquanto crescem, elas acabam se estranhando ou se unindo em momentos diferentes.
Interpretadas por diversas atrizes durante a primeira temporada, o crescimento das meninas ocorre na nossa frente. Com as duas, encontramos o mundo, os problemas de sua época e os terríveis obstáculos pelo caminho. Elas enfrentam família, colegas e pretendentes para conservar a própria identidade, enquanto formulam métodos de escapar dali e alcançarem algum prestígio que aos pobres sempre parece imaginário. É bonito, mas na beleza melancólica da passagem da vida e da contemplação de nosso tempo tão fugaz.
Eu separei o segundo episódio, mesmo sabendo que o sexto pode ser o escolhido por muita gente, porque a infância, em histórias assim, é sempre meu ponto favorito. Assistir às aventuras das meninas e sua agilidade para enfrentar os grandes problemas dos grandes adultos é quase acolhedor. Quase porque a série não se enfeita e mostra diversos problemas ao redor das garotas.
(Outros episódios: a temporada inteira.)
1Pose, 10×08: “Mother of the Year” (22/07/2018) [FX]
Escrito por: Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals // Dirigido por: Gwyneth Horder-Payton

Seria um pouco redundante dizer que um episódio com este título fala sobre maternidade. Então, vou além, e digo que Pose, por si só, é uma série sobre maternidade. Muitos e muitos temas aqui e ali, mas, se eu puder resumir tudo ou dizer aquele que se sobressai, eu diria exatamente isso. Mas não só sobre a visão clássica da maternidade, que também aparece na série, mas sobre o colo materno e como construí-lo, como buscá-lo, como, por fim, encontrá-lo na ausência da mãe. Quem é da comunidade LGBTQ sabe, ah, se sabe, do que estou falando.
Falar sobre família é sempre algo delicado e que mexe muito com a gente por razões simples: nossa família é a primeira relação e a mais importante de todas. Quando todos esses problemas artificiais trazidos pelo dinheiro e pelas convenções são deixados de lado, é a família que a gente tem — ou deveria ter. É, acredito, sobre isso que fala Pose. Seguimos diversos pontos diferentes dessa família, desde a mãe adotiva dos meninos, passando por cada filho ou mesmo pela “avó”. Pose é sobre buscar a família em lugares improváveis para que se consiga, como família, sobreviver ao grande teste que é a vida em sociedade.
Pose é extremamente melancólica — talvez porque devesse ser. Vibramos, achamos lindo, damos risadas das tiradas, mas é triste no fim das contas. Triste já na própria premissa, quando partimos do princípio de que alguém é rejeitado para que precise procurar um novo lar para si. Então, aos que ainda não assistiram à série, eu recomendo sublinhando isso. O enredo aborda os mais diversos tipos de preconceito, além de HIV, prostituição, morte, solidão, entre outros. Sim, é bem pesado.
Se nós temos um dos melhores episódios pilotos do ano passado, e de muito tempo, é o episódio final que costura todas as tramas e nos dá um final satisfatório depois de tanta investigação sobre a infelicidade e as dificuldades da vida. Isso porque, no fim das contas, as personagens aqui são apaixonadas pela vida, pelo mundo que construíram para si para que pudessem sobreviver ao mundo maior, exterior, das ruas, e pelas pessoas que encontram pelo caminho. Amam as roupas que têm, suas habilidades de dançar e de posar, mas amam também esses ex-estranhos que colocaram em suas vidas.
Mother of the Year fecha, por enquanto, a história das personagens e tão bem que se, em um mundo ainda mais terrível, a série não retornasse, nós teríamos destinos satisfatórios nessa pequena saga de oito episódios. Sobre recompensa e retorno, o episódio é inspirador e nos impulsiona a fazer o mesmo que Blanca (MJ Rodriguez), uma das melhores personagens do ano, e sair plantando o amor por nossa comunidade — tão absurdamente carente.
Pose não fez apenas história. Pose não apenas deu protagonismo às figuras mais marginalizadas de nossa sociedade em um dos maiores canais de tevê a cabo do país mais influente. Pose nos deu uma boa temporada. Bons atores, bons figurinos, boa fotografia, boa direção, boas personagens e cenas emocionantes.
(Outros episódios: a temporada inteira.)
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Vai um material bônus aí?
Melhores Cenas, 1º Semestre:

01. “I Wanna Dance With Somebody”, Pose, 01×01;
02. “No estacionamento”, The Americans, 06×10;
03. “A pegadinha”, The Handmaid’s Tale, 02×01;
04. “O jantar”, Killing Eve, 01×05;
05. “A conversa”, Grey’s Anatomy, 14×10;
05. “O tribunal”, The Terror, 01×08;
06. “Hello, Penelope”, One Day at Time, 02×09;
08. “Monólogo de Macbeth”, Barry, 01×07;
09. “Entrada da polícia”, Waco 01×06;
10. “Claire vai ao hospital”, Homeland, 09×07;
Melhores Cenas, 2º Semestre:

01. “Os 23 minutos iniciais”, The Hauting of Hill House, 01×06;
02. “Passagem de tempo”, My Brilliant Friend 01×03;
03. “Sequência de abertura”, Kidding, 01×03;
04. “This is NOT Black Face”, Random Acts of Flyness, 01×01;
05. “Anne e Cole no precipício”, Anne With An E, 02×10;
06. “Tradução simultânea”, The Marvelous Mrs Maisel 02×01;
07. “O testemunho”, Better Call Saul, 04×10;
08. “Sequência dos créditos”, Sharp Objects, 01×08;
09. “Corrida no túnel”, Escape at Dannemora, 01×05;
10. “O acidente”, Sob Pressão, 02×05
Melhores Temporadas:

01. The Americans, 6a temporada
02. Pose, 1a temporada
03. Atlanta, 2a temporada
04. L’amica Geniale, 1a temporada
05. The Marvelous Mrs Maisel, 2a temporada
06. The Good Fight, 2a temporada
07. Better Call Saul, 4a temporada
08. Randoms Acts of Flyness, 1a temporada
09. Sob Pressão, 2a temporada
10. Dear White People, 2a temporada
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Placar de canais:
Netflix, 20* // HBO*, 10 // FX*, 7 // Showtime*, 7 // BBC One + Two, 6 // Globo + Globoplay 6 // Amazon Video*, 4 // Starz, 4 // FOX + Fox Premium, 3 // NBC, 3 // Sky Atlantic*, 3 // The CW, 3 // ABC, 2 // AMC, 2 // Cartoon Network, 2 // Hulu, 2 // Showcase*, 2 // // Sundance TV*, 2 // SyFy, 2 // Audience, 1 // BBC America, 1 // CBC Television*, 1 // CBS All Access, 1 // Channel 4, 1 // Facebook Watch, 1 // Lifetime, 1 // Multishow, 1 // National Geographic, 1 // Paramount Network, 1 // RAI*, 1 // TBS, 1 // USA Network, 1 // VH1, 1 // Youtube Premium, 1
(* Marca co-produções incluídas na contagem.)
Placar dos países:
EUA*, 82 // UK*, 11 // Brasil, 10 // Austrália, 2 //Canadá, 2, Alemanha, 1 // Espanha**, 1 // Itália, 1 // Japão, 1 // México, 1 // Irlanda**, 1 // Noruega**, 1
(*Marca países que transmitiram a série simultaneamente, ** marca países cujas séries foram filmadas e se passam na região, mas que não foram exibidas por um canal nativo / são produções que pertencem a outros canais da região.)
Placar dos idiomas:
Inglês, 85 // Português, 10 // Espanhol*, 2 // Italiano, 1 // Japonês, 1 // Alemão, 1
(*Marca séries que variam entre os idiomas.)
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MAPA DA LISTA
Primeiro Semestre:
[50-41] [40-31] [30-21] [20-11] [10-01]
Segundo Semestre:
[50-41] [40-31] [30-21] [20-11] [10-01]
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Outros especiais:
Há vinte anos estávamos no Óscar
Os Melhores Episódios de Horror de 2018
As Melhores Personagens do Ano Parte I
As Melhores Personagens do Ano Parte II
Uma Retrospectiva (Série) Maníaca, Parte I: Os Destaques
Uma Retrospectiva (Série) Maníaca, Parte II: Marcos e Polêmicas
….
Obrigado a todos pela companhia. Foi uma grande jornada e mal posso esperar para retornar no final deste ano com uma nova lista megalomaníaca. O ano parece bem promissor, aliás, no que diz respeito a televisão.
Fica, novamente, meu agradecimento ao André Zuil por ter feito as nossas lindas capas e aos gentis colegas do SM que toparam escrever sobre as séries.
Nos vemos nas próximas listas.
E não se esqueçam: Work. Live. Pose.















