Retornamos com a segunda e última parte da nossa breve retrospectiva (série) maníaca de 2018 na qual estamos tentando reconstruir o ano através da televisão, seus grandes destaques e eventos. Se essa época de virada, de readaptação ao novo ano deixa-nos fazendo diversas perguntas como “quais as grandes conquistas do ano que se foi?”, “qual a última coisa que eu fiz pela primeira vez?” entre tantas outras, com as séries talvez consigamos criar um mapa. Se você perdeu a primeira parte, pode conferir aqui.
OUTROS MARCOS DE 2018
Sobre as metas, podemos dizer que o ano terminou bem no projeto de crowdfunding para a série The Chosen. A produção tem sido notícia mesmo agora em janeiro ao ultrapassar diversos recordes e se tornar o projeto de audiovisual que mais arrecadou dinheiro deste modo na história, ultrapassando (e muito) Mystery Science Theater 3000 e o filme da série Veronica Mars, que ficam em segundo e terceiro lugar, respectivamente. The Chosen será uma série sobre a vida de Jesus, que contará com oito episódios e que já alcançou 9 milhões da meta de 13.
Outro marco na televisão ficou por conta de Steven Universe, animação da Cartoon Network que, pela primeira vez, levou um casamento LGBTQ para um desenho. O episódio foi ao ar em julho, teve grande repercussão na internet e recebeu aclamação da crítica. Vale mencionar que o trabalho dos criadores e desenvolvedores do desenho em abordar tais temas é, infelizmente, responsável por diversas polêmicas, incluindo o banimento do desenho no Quênia.

Lá fora, onde muitas de nossas séries favoritas são produzidas e exibidas, o tempo é de mudança e a televisão é um espelho disso. Tahera Rahman se tornou a primeira repórter em tempo integral muçulmana a usar hijab na televisão em um programa de notícias nos EUA. Alan Cumming (o saudoso Eli Gold da saudosa The Good Wife) se tornou o primeiro ator a interpretar uma personagem abertamente gay e protagonista em um drama de horário nobre nos Estados Unidos com a série Instinct. Já no Canadá, a atriz Vinessa Antoine foi contratada para se tornar a primeira mulher negra a protagonizar um drama em horário nobre por lá. Sua série, Diggstown, será exibida na CBC, mas ainda não tem data de estreia.
Não paramos por aí: a série Supergirl apresentou, pela primeira vez, uma super-heroína trans, Nia Nal ou Dreamg Girl, interpretada também por uma atriz trans, Nicole Maines. Ainda na categoria de heroínas, Ruby Rose fez história ao ser anunciada como a primeira heroína lésbica a protagonizar uma série na futura Batwoman. A atriz e rapper Awkwafina, estrela de Podre de Ricos (Crazy Rich Asians) e Oito Mulheres e Um Segredo (Ocean’s 8), tornou-se a primeira mulher asiática a apresentar o prestigiado Saturday Night Live em quase vinte anos.

O Snapchat tem investido muito em seu conteúdo original para tentar oferecer uma experiência singular de interação para seus usuários e reverter a perda que a empresa vem sofrendo nos últimos tempos. Diversas micro-séries foram lançadas em outubro, de gêneros variados e com a promessa de deixar o conteúdo disponível — sem aquela regra das vinte e quatro horas que hoje atribuímos ao Instagram. Não é uma grande surpresa, porque os acordos que a empresa tem feito com diversos roteiristas e produtores são notícias há certo tempo. Isso me lembra de que falamos há pouco sobre o Facebook Watch, sobre as futuras séries da Apple. Só posso estar contente ao verificar que as séries estão chegando a todos os lugares. Pelo menos por agora, nós ganhamos com tudo isso. Fiquei até tentado a baixar o Snapchat novamente.
Pela primeira vez, Julia Louis-Dreyffus não recebeu uma indicação ao Emmy depois de ganhar (merecidamente) por seis anos consecutivos na categoria de comédia. A atriz, que vem aos poucos se tornando a grande Dama da Comédia de nossos tempos, teve que se afastar e adiar as gravações de Veep, comédia que lhe proporcionou o feito mencionado, após ser diagnosticada com câncer de mama. Nas redes sociais, ela compartilhou sua luta e a recuperação. Estando melhor, Julia pôde ser honrada com o Mark Twain Prize for American Humor, uma das maiores honrarias dos Estados Unidos em seu meio — o discurso de agradecimento dela, para variar, é ótimo.

DEZ ANOS DEPOIS
Todos os dias a televisão nos relembra de diversos momentos interessantes de sua história. Em maio de 2018, por exemplo, celebramos os 35 anos desde que o Michel Jackson fez seu moonwalk na televisão. Para este ano, com o anúncio do retorno de muitas séries, da produção de outras tantas e da temporada final de mais algumas, temos muito o que falar sobre 2019. Antes disso, no entanto, gostaria de deixar registrado que no ano passado fizemos dez anos desde que vimos saudosas séries pela primeira vez na televisão:
Em janeiro de 2008, ganhamos Breaking Bad. De começo tímido, a série da AMC é hoje considerada a mais aclamada da história — e quem assistiu e passou das duas primeiras temporadas sabe que não é por menos. Cinco temporadas, sessenta e dois episódios e cinco anos depois, nossa jornada ao lado de Walter White foi finalizada em setembro de 2013. Como o assunto é polêmica, entre as entrevistas de comemoração dos dez anos, a (exuberante) atriz Anna Gunn falou sobre a recepção negativa de sua personagem, Skyler White. As pessoas odiavam a personagem, e não era muito difícil achar textos empolgados em falar mal dela pela internet. Se pararmos para pensar hoje, já distantes do final de Breaking Bad, não faz lá tanto sentido esse legado de desgosto que a plateia lhe voltou. Anna relembra de diversos momentos em que teve que defender Skyler, personagem que lhe rendeu dois Emmys, mesmo pessoalmente ao ser atacada por fãs do show em eventos.

Outras três séries internacionais que fizeram dez anos no ano passado e que mencionarei por aqui chegaram em setembro de 2018. True Blood estreou no dia sete na HBO e fez, pelo menos, duas temporadas espetaculares. A série durou sete temporadas e ajudou a colocar o horror (e os vampiros) nas premiações mais importantes, concorrendo ao Emmy, ao Globo de Ouro, ao Grammy e a diversos outros prêmios. Muito do sucesso está no trabalho do criador, Alan Ball, responsável por nos dar aquela obra de arte chamada A Sete Palmos (Six Feet Under).
Sons of Anarchy chegou no dia 03 pelo FX. A série teve 7 temporadas, noventa e dois episódios e muitas polêmicas por conta da exploração do sexo e da violência em seu enredo. A série foi estrelada por Charlie Hunnam, que tem feito alguns filmes desde então. Sons fez uma carreira favorável entre os críticos, conquistou uma legião de fãs e teve diversas continuações: além do spin-off, Mayans M. C., sobre o qual já falamos, o universo do clube de motocicleta foi explorado em comic books, romances e video-games.

Fringe chegou à Fox no dia 09 e permaneceu por 100 episódios e cinco temporadas. A série nos fez começar conversas sobre o que é a mitologia de um programa de televisão. Parecida com o estilo de Arquivo X, Fringe desenvolvia-se na forma do caso da semana, mas também seguia os destinos dos protagonistas conforme as temporadas avançavam. A série foi co-criada por J. J. Abrams, hoje um nome que não preciso apresentar (Felicity, Alias, Lost, Cloverfield, Star Trek, Star Wars, entre tantos outros projetos, estão ligados a ele). Há uma expansão do universo em diversas mídias, como na série anterior.
Entre os dias 09 e 13 de dezembro, revivemos as narrativas rabugentas de Dom Casmurro. A obra da Globo foi produzida para o centenário de morte de Machado de Assis, o ainda maior escritor de nosso país. Capitu misturou diversas linguagens, passeando pelo teatro, pela literatura, pela dança, pela música e pela performance para trazer essa geração para perto do Machado e da linguagem que, muitas vezes, parece-nos distante demais. É com esse esforço que muitos puderam voltar ao livro e perceber que a obra deixada pelo escritor carioca é legível. De lá, ainda ganhamos Michel Melamed, ator que tem feito grande contribuição à televisão com seu Bipolar Show.

(Isso me lembra que em junho fazemos cento e oitenta anos do nascimento do escritor!)
RYAN MURPHY
Falar em polêmica, em novidades e controvérsias é o mesmo que falar em Ryan Murphy, um dos atuais donos da televisão norte-americana. As séries que o envolvem estão sempre cercadas das notícias mais revolucionárias, revoltantes, tristes ou bizarras.
Lá em janeiro, a série Glee, um dos fenômenos criados pelo produtor, voltou a ser notícia. Em maio a produção completa dez anos de seu primeiro episódio, mas não tem se mantido apenas pela memória dos fãs, que ainda celebram os melhores covers. Parte do elenco tem encontrado destinos trágicos. O suicídio do ator Mark Salling, que veio antes da condenação por posse de pornografia infantil, pela qual se assumiu culpado, é outro fator para que a experiência de reassistir ao musical se torne cada vez mais desconfortável.
Também em janeiro ganhamos a maravilhosa segunda temporada de American Crime Story, intitulada The Assassination of Gianni Versace. Aqui fora, a temporada criou muita polêmica, principalmente com a família Versace que não deixou nenhuma dúvida de que não assistiria, de que não aprovava e de que achava um ultraje que a produção estivesse sendo exibida. Os ataques não tiveram influência entre o público e a crítica: ambos assistiram, adoraram e recomendaram.

Ainda em janeiro, a Fox estreou 9-1-1, criado por Ryan Murphy, Brad Falchuk e Tim Minear. O drama procedural segue a vida e o trabalho de diversos socorristas, entre eles paramédicos, bombeiros e policiais. Para o canal, a série se tornou um grande sucesso, com feitos que não eram vistos desde Empire mais de três anos antes.
No mês seguinte, a polêmica envolvendo a casa da primeira temporada de American Horror Story foi notícia em diversos veículos. O motivo? Os atuais donos estão processando os antigos que, segundo consta, venderam a mansão sem avisar que esta tinha sido usada em uma das séries mais famosas dos últimos tempos. O resultado é que fãs de todos os lugares vem visitar o local. A indenização pedida é de 3 milhões de dólares. De histórias inusitadas, vale lembrar que, em entrevista, Kathy Bates, que retornou para AHS este ano, disse que se recusou a rezar para o Diabo em cena. A atriz disse que chamou os roteiristas e pediu que algumas alterações fossem feitas. Fico feliz que ela, que já tem um Oscar na carreira, tenha poder para fazer tais exigências, porque imagino o tanto de atores que, infelizmente, precisam prosseguir com o roteiro de diversas outras produções.
Ainda em fevereiro, Ryan firmou acordo com a Netflix para produzir séries originais nos próximos cinco anos. Em desenvolvimento já temos duas séries: The Politician será uma comédia estrelada por Ben Platt, premiado ator da Broadway, que focará em suas aspirações políticas e em campanhas dentro do meio. A segunda é Ratched, baseada no livro One Flew Over the Cuckoo’s Nest de Ken Kasey. A obra já foi adaptada para o cinema em um filme de 1975 que por aqui ficou conhecido como Um Estranho no Ninho protagonizado por Jack Nicholson. A série pretende acompanhar a vida da enfermeira Ratched, vivida então por Sarah Paulson. Se a gente pensar que o filme rendeu Oscar para a atriz Louise Fletcher pelo papel, além de Jack, dá para imaginar que se tudo ocorrer bem, Sarah terá mais um grande papel em mãos.

Chegamos a junho e a estreia de Pose no FX. Criada por Ryan Murphy, Brad Fulchuk e Steven Canals, a série investiga a cultura de baile de salão nova-iorquino dos anos 80 através da ótica focada na vida dos negros e latinos. Se já parece fantástico, vale acrescentar os feitos inéditos do programa: Pose ganhou a mídia ao ser anunciado pelos produtores como o maior casting transgênero de um programa roteirizado — segundo o próprio Ryan foram mais de 140 pessoas LGBTQ contratadas. Não só isso, os atores trans aqui foram contratados para protagonizar! Janet Mock, escritora, diretora e ativista, tornou-se a primeira mulher negra trans a escrever e dirigir um episódio de uma série — ever. Não só pela inovação, Pose ganhou território pela qualidade. Um artigo da Vulture disse que é o auge da carreira de Ryan Murphy. Os elogios continuaram em outros veículos, nos quais a série pôde estar entre as dez mais bem elogiadas temporadas do ano.

Por último, não posso deixar de citar a mais recente temporada de American Horror Story, Apocalipse, sobre a qual a atriz Kathy Bates fez a inusitada citação acima. A temporada foi um retorno às antigas e amadas temporadas Murder House e Coven, na “era de ouro” da série.
REDES SOCIAIS
O Twitter continua sendo muito importante para relacionarmos o que ocorre dentro e fora da televisão, por mais que passemos tanto tempo hoje no Instagram. Foi por lá que a criadora da comédia da Netflix One Day at Time, Gloria Calderon Kallett, que volta daqui a pouco, pediu ajuda aos telespectadores e assinantes do serviço. Segundo o que deixou escapar, a gigante do streaming escolhe com base nos views, o que impediria a renovação de sua série para a terceira temporada — o apelo funcionou e seremos prestigiados por treze novos episódios em fevereiro, quando reencontraremos a família Alvarez Riera.
Talvez apelar aos fãs seja uma boa ideia, porque o método também funcionou com a produtora Moira Walley-Beckett, que usou sua conta no Instagram para pedir que as pessoas espalhassem Anne With An E e impedissem seu cancelamento. Assim como One Day, Anne garantiu sua terceira temporada e ainda entrou na lista de mais maratonadas da Netflix no ano. Eu mesmo fiz minha parte e saí recomendando para a família e amigos.

Voltando ao Twitter: foi por lá que se estranharam os produtores de This Is Us, um dos maiores dramas da tevê aberta norte-americana dos últimos anos, e a empresa de eletrônicos Crock-pot, responsável por uma linha de panelas elétricas. Tudo aconteceu no episódio anterior ao grande fenômeno que foi o episódio pós-Super Bowl que marcou impressionantes 27 milhões em audiência: somos informados que a responsável por uma tragédia que ocorre na série é nada menos que uma panela elétrica velha. Como a Crock-pot é a pioneira nesse estilo, as pessoas ligaram uma coisa à outra e foram à internet confessar que queriam se livrar dos utensílios. Sim, isso realmente aconteceu. A empresa veio à público dizer que o incidente retratado na ficção jamais aconteceria.
Mas o Twitter, antes de mais nada, para o bem ou para o mal, é a terra dos fãs. Assim, não é uma surpresa que diversas contas tenham usado a plataforma para, ainda em janeiro, puxar a orelha do criador e roteirista de Black Mirror, Charlie Brooker, por implicar, durante um episódio da quarta temporada, que pílulas anticoncepcionais poderiam ser usadas como alternativa para um aborto. Chamando tudo de alternativo, alguns fãs arrumaram uma desculpa rápida para o irresponsável retrato feito pelo escritor. No fundo, isso não passa de um furo no roteiro.

Se me permite, eu endosso essa onda de retratação. Eu, bicho do teatro independente e resenhista por aqui, entendo que muitas produções se desenvolvem para um público, seja ele qual for. Se ensaio com minha galera, é na esperança de que a plateia tenha uma boa experiência. Se escrevo para o SM e recebo puxões de orelha, aceito a possibilidade de estar errado. Ou seja, passou do tempo das emissoras de televisão perceberem que o público é o grande patrão por trás de tudo. Então, sim, se uma parcela se sentir ofendida e quiser argumentar sua causa na internet, eu advogo. Isso porque, como disse Bob The Drag Queen em programa da Billboard, você não pode tirar o direito de alguém de se sentir ofendido por alguma coisa.
Por que toquei no assunto? Ah, porque tivemos muito disso. Exemplo temos quando a atriz Priyanka Chopra veio a público pedir desculpas pela repercussão negativa de um episódio de Quantico, série que estrela. Indiana, a atriz foi apontada como insensível por fazer parte de um projeto que fazia um retrato negativo dos indianos como terroristas.

Outro exemplo temos quando uma famosa loja de lingerie e fantasias, Yandy, há alguns meses, achou que seria uma boa ideia vender uma versão sexy da roupa das aias de The Handmaid’s Tale. Os dois grandes absurdos dessa história (para quem ainda não assiste à série) são: i.) A roupa vermelha é uma vestimenta obrigatória na distopia; é um símbolo da repressão que as mulheres passam neste mundo futuro, onde passam por todos os tipos possíveis de violência. ii.) A roupa tem ganhado traços de representação e simbologia fora das telas quando mulheres têm a utilizado em eventos políticos como forma de passar uma mensagem. Foi assim em março de 2018 durante uma eleição na Costa Rica e durante as audiências de Brett Kavanaugh, jurista acusado de abuso sexual, cujo julgamento tem repercutido na mídia, entre outros eventos.
Como nem tudo em rede social é divertido, muito menos no pedaço de terra bizarro que é o Twitter, tivemos momentos como o que Millie Bobby Brown, a estrela adolescente de Stranger Things passou. Ela foi tão perseguida e acusada de ser a autora de frases de discurso de ódio pelas causas que, na verdade, apoia, lá em maio, que se distanciou da rede social, para onde nunca mais voltou. A perseguição também chegou à atriz Anna Diop, que vive Starfire (Estelar pra gente) na série Titans que estreou em outubro na DC Universe, que também a afastou das redes sociais. A atriz e modelo Ruby Rose também decidiu desistir da rede social com a repercussão de sua participação na série Batwoman — que sequer passou da fase de pré-produção.

Não só esse lugar estranho onde encontramos ódio tão fácil, a internet também pode ser perfeita para encabeçar campanhas e fazer parte de um grupo. Assim, tivemos muitas petições envolvendo a televisão esse ano. Desde pedido por expulsões em reality show como A Fazenda, em uma febre tão grande que a conta de um dos participantes no Instagram foi derrubada, a um pedido formal para que o cachorro de Deryl em The Walking Dead não fosse morto. Rolou também campanha para que Inhumans (ABC) não fosse cancelada, o que não deu muito certo, assim como aquela que pedia o cancelamento de Insatiable, comédia da Netflix, que passou de 150.000 assinaturas — a série polêmica não só não foi cancelada, como teve sua renovação confirmada e entrou para a lista de séries mais maratonadas do ano. A comoção em torno de Brooklyn Nine-Nine, no entanto, funcionou, e a comédia teve uma semana engraçada quando foi cancelada pela Fox em um dia, depois de cinco temporadas, e salva no seguinte pela NBC (NINE, NINE!) que exibirá sua sexta temporada.

Para redobrarmos o otimismo, vale lembrar que foi por lá que ficamos sabendo que Veronica Mars está voltando pela Hulu, as saudosas Downton Abbey e Breaking Bad vão virar filme e uma continuação está sendo escrita para o livro The Handmaid’s Tale. Ou seja, teremos novidades relacionadas a séries na televisão, no cinema e na literatura.
OUTRAS POLÊMICAS
Poderia fazer um texto à parte só destacando as grandes polêmicas do citado serviço de streaming, porque o que ele tem de conteúdo original, tem de controvérsias. Depois do burburinho relacionado ao episódio de Arkangel da quarta temporada de Black Mirror em janeiro, tivemos a Netflix adquirindo um telefilme que deu o que falar: Darren Brown: The Push. O especial do ilusionista chegou ao catálogo dois anos depois de ter ido ao ar em seu país de origem. Nele, há uma situação de caos criada ao redor de uma pessoa que será testada em seu limite. A grande pergunta é se uma pessoa inocente pode ser convencida a cometer um assassinato ou ser cúmplice de um crime para alcançar seus objetivos.
Em março, ficamos sabendo que a grande estrela da série The Crown, Claire Foy, recebeu menos do que Matt Smith, conhecido por participar de Doctor Who. Independente das regras do mercado, quem assiste à série sabe o quão absurdo é isso, porque enquanto a personagem dela carrega o seriado, é a escolha de casting mais importante e se torna um dos principais motivos para acompanharmos sua jornada, a personagem dele é capaz de nos afastar de tanta raiva que sentimos. Claire recebeu um Emmy, um Globo de Ouro, Screen Actors Guild Awards e indicações ao Critics’ Choice e ao Bafta, entre outros prêmios. Reconhecimento o bastante? Não, e os fãs foram às redes reclamar. Isso porque reconhecimento não está apenas na premiação, mas na valorização do trabalho. Que as atrizes são excelentes, isso já sabemos: a categoria de protagonista em série de drama tem sido a mais difícil há anos. Precisa-se reconhecer, então, que as atrizes também precisam ser pagas com equidade. A repercussão negativa funcionou, pois depois ficamos sabendo que Claire receberia uma indenização. A Netflix se comprometeu a nunca mais fazer isso.

Ainda neste mês, voltamos a falar sobre uma das mais polêmicas séries originais: 13 Reasons Why. O motivo? Não chegamos à conclusão ainda sobre a eficácia do programa. Mas não adianta fugir. Se você deixa ir ao ar uma série que torna um caso de suicídio em uma série de mistério e se permite mostrar detalhadamente como a protagonista comete o ato, você precisa estar preparado para o feedback da audiência. Os estudos ainda são inconclusivos: enquanto a Netflix lançou em março de 2018 em seu canal do YouTube um vídeo divulgando como os jovens foram positivamente afetados, um estudo de meses anteriores mostrou que a pesquisa por termos como “como cometer suicídio” ou “como me matar” tinha aumentado em considerável porcentagem. Não é de se surpreender, então, se eu disser que em maio, quando a segunda temporada estreou, uma escola decidiu alertar os pais sobre a existência da série e os possíveis impactos.
Em abril, tivemos os criadores de Stranger Things sendo acusados de plágio, o que soa cômico, já que há pouco material original na série. Em agosto, Guy Pearce, da série original The Innocentes, revelou em entrevista que a Netflix não gosta do termo “binge watching” e pede aos atores que não o usem em entrevistas. Isso é até engraçado, porque o termo, que esbarra na nossa definição de maratonar, é muito associado à forma como consumimos as produções do serviço. Em outubro, nosso #MêsDoHorror por aqui, tivemos Sabrina estreando e arrumando confusão com um grupo satânico por ter feito um retratado negativo de uma estátua em sua trama.

Novembro, então, contou com a estreia da animação inassistível Super Drags. Voltada ao público adulto — só não sei que adulto e que público —, o programa sobre drags que adquirem super poderes para combater o mal foi desenvolvido por aqui, onde, é claro, arrumou muita confusão. Tivemos a Sociedade Brasileira de Pediatria condenando a produção, tivemos nota de repúdio de deputados e uma recepção terrível do público — eu só consegui assistir a literalmente três minutos. Isso só prova que ganhar público no grito não vale a pena, é preciso um projeto bem elaborado, bem escrito e bem atuado por trás, como a também polêmica Dear White People que apresentou em maio uma das melhores temporadas do ano ao retornar para sua segunda. Super Drags, que recebeu dublagem lá fora das participantes de Rupaul’s Drag Race, incluindo Shangela, a vencedora da terceira edição do All Stars, pelo contrário, foi cancelada segundo circula.
Como existe um mundo fora da Netflix, vale mencionar que outras produções estiveram envolvidas nas mais diversas controvérsias. The Walking Dead, cuja audiência tem sofrido turbulência, tem passado por desequilíbrio em outros aspectos. 2018 já começou com a repercussão da saída de Carl, muito criticada mesmo antes de seu último episódio ir ao ar em fevereiro. Quem acompanhou os primeiros anos da série da AMC sobre zombies sabe que não é novidade os produtores descartarem os atores dessa forma repentina e irresponsável — Laurie Holden e Emily Kinney são dois nomes que consigo me lembrar facilmente. A primeira foi parar em The Americans, uma das séries mais aclamadas desta década e que chegou ao fim nesse ano, participando das duas últimas temporadas. Arrependimento fica só para os produtores que de vez em quando dão entrevistas dizendo que não deveriam ter matado este ou aquele personagem. Andrew Lincoln, o protagonista, decidiu deixar a atração, e alguns dizem que sua saída fora influenciada pela saída de Chandler Riggs.

Fora isso, o fenômeno tem enfrentado um processo encabeçado pela família de um dublê que morreu no set lá em 2017 e acusa a atração de não ter fornecido um ambiente seguro de trabalho. Os produtores também enfrentaram batalhas internas, quando Lauren Cohan resolveu pedir equidade no pagamento salarial com os protagonistas, no que se tornou uma batalha pública e que, segundo a própria atriz, influenciou em sua saída. Mesmo com tanto barulho, The Walking Dead fechou o ano como a série mais pirateada do ano.
Mais polêmicas? Os Simpsons começaram o ano respondendo a repercussão negativa que a personagem Apu, mais do que conhecida, tem sofrido. Diversos protestos acusaram a animação de fazer um retrato estereotipado dos indianos. A discussão ganhou a grande mídia com o documentário The Problem With Apu, que liga os problemas sofridos por imigrantes dentro dos Estados Unidos à personagem e sua grande influência dentro da cultura e comportamento dos norte-americanos. Isso porque televisão é sociedade, e nós precisamos reconhecer isso. Para se retratar, os produtores condenaram a personagem ao limbo. Ainda com as polêmicas, Os Simpsons conseguiu ultrapassar a marca de 635 episódios (!) em abril e quebrou mais um recorde.

A minissérie Ordeal by Innocence, adaptação tradicional feita anualmente pela BBC para livros de Agatha Christie, teve sua estreia adiada quando Ed Westwick (Gossip Girl) foi acusado de abuso sexual por diversas mulheres. A produção contratou outro ator e refilmou todas as cenas. No mês seguinte, acusações parecidas levaram ao fim da participação de Jeffrey Tambor em Transparent, comédia da Amazon Videos que protagonizava e pela qual ganhou diversos prêmios, incluindo dois Emmys. Foi anunciado em fevereiro que o ator não retornaria para a quinta temporada.
Heathers, série da Paramount Network, enfrentou uma polêmica diferente. A série de humor negro é inspirada no filme homônimo dos anos 80. A estreia estava marcada para março, mas foi adiada quando uma tragédia envolvendo um tiroteio em uma escola fez diversas vítimas. Segundo o canal, entre os temas apresentados na trama, estaria o controle de armas, o que resultaria, no mínimo, num descontentamento da audiência, que apontaria a insensibilidade de se estrear uma série assim duas semanas depois do ocorrido. Adiada e adiada, o programa acabou indo ao ar no final de outubro, mas foi tão editado que um episódio desapareceu — algo que muitas séries poderiam fazer, mas que não funcionou por aqui porque a recepção foi desastrosa, tornando a série figura presente nas listas de piores do ano.

Também em outubro, a jornalista Megyn Kelly foi a responsável por fazer um comentário estúpido defendendo o uso de black face no Halloween, algo que, falando em televisão, Dear White People já desenhou por que é errado. O resultado? Ela teve seu programa de notícias cancelado. Séries encerradas não ficaram de fora: Evangeline Lily disse em um podcast dedicado a Lost o quão desconfortante foi sua experiência na série, pois era constantemente pressionada a fazer cenas de nudez. Depois do ocorrido, os produtores vieram a público pedir desculpas a atriz.
O comportamento parece sempre de retratação, nunca de prevenção: é a sensação que ficamos quando Eliza Dushku, em dezembro, deixou a série Bull da CBS com uma indenização milionária após ter acusado um colega de elenco de comportamento inadequado. Argumenta-se por aí que a estrela recebeu uma quantia invejável, mas focar nesse aspecto nos impede de perceber que ela foi impedida de realizar o próprio trabalho.

Mais? Em notícia dos últimos dias de 2018, uma emissora da Alemanha foi condenada a pedir desculpas pelo retrato que faz da Segunda Guerra Mundial. Além de colocarem a Polônia como vilã, acusando-a de crimes de guerra conta os judeus à época, a Alemanha assume, de certo ângulo, um papel de vítima. Mas Generation War (Os Filhos da Guerra) não causa confusão desde hoje. A minissérie é de 2013 e na época da exibição, que fez milhões de audiência, muitos críticos e telespectadores acharam questionáveis as escolhas narrativas. Não só jornalistas e historiadores, mas embaixadores da Polônia e heróis de guerra ficaram revoltados. Estes últimos decidiram processar a produção. O resultado, mencionado acima, saiu em uma corte na Cracóvia, cidade da Polônia.
Falar de polêmicas sem reality shows não tem sentido, né? E não pense que só nós que vamos ao YouTube reclamar que a Irina deveria ter chegado à final, não, lá fora os programas também dividem o país, como o Great British Baking Show, que teve seus telespectadores reclamando da injusta vitória de seu último coroado por ter, ao que parece, descumprido uma das regras. Por aqui, tivemos o Big Brother provocando discussões absurdas por ter, entre seus favoritos, um rapaz da Síria. O resultado foi que a xenofobia saiu do armário e esteve presente entre os participantes, suas famílias e os torcedores aqui fora.

A Fazenda, então, não deixou barato e contou com duas expulsões por motivo de agressão. Seria uma coincidência que duas mulheres tenham sido as expulsas ou é só uma reflexão de como as mulheres aqui fora são levadas a uma pressão psicológica absurda até que surtam e, no fim, saem como as loucas da história? Rende uma boa discussão, o que para mim já justifica qualquer conteúdo televisivo.
RETORNOS E SEQUÊNCIAS
2018 foi o ano em que diversos astros voltaram à televisão ou assinaram contrato para fazer isso logo mais. Jennifer Garner retornou depois de doze anos, tendo feito participações pequenas desde o fim de Alias (ABC, 2001-2006). A atriz protagonizou a comédia Camping da HBO, criada e escrita por Lena Dunham e Jenni Koner, dupla por trás da série Girls do mesmo canal. Talvez o projeto de regresso não tenha sido o melhor para ela, uma vez que o consenso da crítica lá no site do Rotten Tomatoes é o de que “é difícil determinar quem são mais infelizes: as personagens na série ou as pessoas assistindo”.
Se eu disser que Sacha Baron Cohen fez um retorno polêmico, imagino que ninguém ficará surpreso. O comediante retornou depois de catorze anos, tendo se dedicado à carreira no cinema neste intervalo. Who Is America? estreou em julho na Showtime. O programa é uma sátira política no qual diversas celebridades e políticos são entrevistados. Para as entrevistas, Sacha utilizou numerosas personagens como fantasia, e esta atitude foi responsável pela maior parte das polêmicas: muitos entrevistados disseram por aí, seja em suas redes sociais seja em entrevistas para outros veículos, que foram enganados pelos produtores. Isso foi motivo para que o canal e o programa fossem acusados de fraude e processados. A participação de um membro do Congresso, representante da Georgia, foi tão polêmica (assista para entender) que ele renunciou ao cargo dias depois. A temporada de sete episódios foi recebida com indecisão pela crítica, o que pode ter sido o argumento final para que fosse anunciado que a série não retornará.

Julia Roberts finalmente chegou à televisão em um grande papel depois de fazer pequenas participações desde os anos oitenta. A atriz protagoniza Homecoming, série sobre a qual já falamos por aqui na Parte I. Em dez episódios, a produção da Amazon é um thriller psicológico e segue uma organização responsável por ajudar soldados na transição para uma vida civil. Outras transições para a televisão em 2018 incluem Penélope Cruz como Donatella Versace na segunda temporada de American Crime Story, Amy Adams em Objetos Cortantes da HBO, Emma Stone na comédia de humor negro Maniac da Netflix, Dakota Fanning no drama de época The Alienist da TNT e o ator Michel Douglas na comédia O Método Kominsky da Netflix. Todos eles tiveram participações em episódios de algumas séries, alguns fizeram alguns filmes para tevê, mas somente no ano passado protagonizaram produções.
Mirando no futuro, temos Meryl Streep chegando à Big Little Lies e George Clooney em um papel de destaque desde ER (Plantão Médico). Falando sobre o futuro, o calendário de 2019 tem retornos interessantes. Além de Big Little Lies, temos as últimas temporadas de Game of Thrones e Veep; Brooklyn Nine-Nine retornando para a sexta temporada pós-susto; True Detective volta para a terceira daqui a uns dias; Stranger Things somente em julho. Rick and Morty possivelmente aparece em algum momento este ano.

Para prosseguir a conversa sobre as séries mencionadas, você pode alongar sua estadia por aqui e conferir nossa cobertura por temporadas ou por episódios. Diversas séries polêmicas mencionadas neste artigo têm resenhas que você pode encontrar navegando pelo site.
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Nossa breve retrospectiva fica por aqui. Espero que nosso passeio tenha te presenteado, no mínimo, com informações interessantes. Maior do que a anterior, essa Parte II poderia ser dividida, mas achei mais válido finalizar nossa viagem por 2018 de uma vez para que possamos focar nos melhores episódios.
> TITÃS (Netflix) A SÉRIE MAIS VIOLENTA DA DC COMICS!
Novamente, desejo aos leitores do Série Maníacos um ótimo ano. Deixem nos comentários seus momentos favoritos do ano envolvendo a tevê, as polêmicas mais inusitadas e as notícias que você deixou passar e ficou sabendo por aqui. Caso o formato tenha agrado, volto em dezembro para um apanhado geral e mais detalhado deste 2019 ainda no berço.






















