Depois de cinco anos no ar, comédia da HBO se consagra como uma das séries mais coerentes, inteligentes e divertidas da última década. 

Histórias sobre conflitos geracionais são comuns no cinema e na TV; e é importante dizer isso porque, de fato, a comédia criada por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky não têm interesse nenhum em “reinventar a roda”, mas sim se aproveitar ao máximo dos tempos vigentes para montar uma narrativa engraçada sobre duas mulheres de tempos distintos debatendo-se para aceitar o que mudou ou o que precisa mudar.

Essa é, inclusive, a discussão que permeia os primeiros anos da relação entre Deborah Vance e Ava Daniels. Deborah faz parte de uma geração que fazia comédia de insultos, de choque, de depreciação. Ava é uma jovem bissexual profundamente ligada às questões sócio-culturais dessa nova era; e ela enxerga as fronteiras que a comédia agora precisa ter para ser devidamente respeitada. 

Deborah pensa como todo humorista que ganhou a vida ofendendo pessoas: que tudo é uma imensa “frescura”; mas Ava sabe que escapar do caminho fácil dos insultos dá mais trabalho (e pode ser que o outro lado não queira ter esse trabalho). Ao mesmo tempo, Ava precisa entender a importância de mulheres como Deborah, porque ela foi responsável por desbravar um territórios que sem essas conquistas, impediriam comediantes como a própria Ava  de assumirem seu lugar no mercado. 

E foi assim, jogando com a razão como se ela fosse uma bola de pingue-pongue, que Hacks passou quatro anos no ar. Uma hora a razão era de uma e outra hora a razão era da outra. Uma hora Deborah engolia Ava com suas ideias do que era “Hollywood”; e outra hora Ava precisava abrir mão de certos princípios para se manter “viva” na “selva”. A quinta e última temporada foi a única em que elas não se desentenderam em alguma instância. 

Quando a série começou, sabíamos que a dupla eventualmente se entenderia e construiria uma amizade sincera. Mas, não podemos esquecer: nunca foi sobre abandonar a roda e sim sobre fazê-la girar de forma divertida e esperta. Os criadores, então, se preocuparam com as duas coisas mais importantes: elenco e texto. Poucas vezes na história da teledramaturgia esses dois tópicos fundamentais funcionaram tão bem e de modo tão permanente quanto em Hacks. 

Pode parecer elusivo demais dizer “o texto é fantástico”; mas por trás dessa afirmação tão simples existem percepções que consolidam essa característica. Um bom texto não é só o que se diz, mas também as decisões que ele toma para manter a história interessante. Hacks estava segura nas duas frentes. Os diálogos eram inteligentes, subversivos e ao mesmo tempo ternos. Havia provocações, tensões e dramas. Contudo, isso não teria impacto sem que os personagens fossem levados para seus limites… e os limites eram sempre coerentes; deliciosamente preparados e nunca omissos. Nenhuma oportunidade foi desperdiçada. A surpresa provocada pelo final da terceira temporada só foi possível por isso. 

Com os coadjuvantes, a série aproveitava para expandir seu universo. Nem sempre Marcus foi bem utilizado, mas os roteiristas aprenderam que ele não precisava estar em todos os episódios e ser esvaziado nesse processo. Outros como Damien (vivido por ninguém menos que Mark Indelicato, o sobrinho da Ugly Betty) e Randi não foram planejados para terem suas próprias tramas, mas cumpriram magistralmente suas funções como divertidos adornos do mundo criado pela série. 

Já Jimmy e Kayla estão em outra esfera… uma que separou-se do domínio específico da protagonista e construiu de maneira independente a sua trajetória. Megan Stalter e Paul W. Downs fizeram seus personagens crescerem a cada ano; e embora a ternura de Jimmy e a peculiaridade de Kayla não sejam exatamente reflexos da realidade desse mercado, eles se tornaram essenciais para a nossa experiência. Foi muito bom ver como o final se preocupou em dar a eles um fechamento coerente com esse destaque. 

As duas grandes discussões propostas pela série estavam ali, sempre em convergência. Enquanto Deborah lutava para derrubar as fronteiras machistas que estão sempre tentando descredibilizar mulheres; Jimmy e Kayla serviam para trazer à tona o pior do aspecto executivo da relação entre arte e indústria. A porção “Jerry Mcguire” escancarada nos dois últimos anos nunca feriu a série, porque mais uma vez o texto era o que estabelecia o derradeiro convencimento da audiência. 

Otimista demais? Talvez. Totalmente fora da realidade? Não. Jean Smart e Hannah Einbinder protagonizaram a química dos sonhos de qualquer showrunner; e transitaram entre comédia e drama (e entre humor e cinismo) com a mesma dedicação e o mesmo impacto. Sempre soubemos que elas “ficariam juntas para sempre”, mas pudemos viver a emoção de testemunhar uma relação surgir e se fortalecer, no tempo certo (ou no timing de uma boa piada).

Hacks se despediu com uma última temporada que foi muito mais além de continuar mostrando as conquistas de Deborah. Tivemos o delicioso episódio em que ela resolve a relação com os fãs; o episódio com as filmagens do Amazing Race; o episódio do cubo; o episódio em que ela e Ava fingem ser um casal (uma resposta direta ao imenso fandom sáfico das personagens)… Foi pura celebração. Uma temporada que até ameaçou encerrar com uma última dose de obscuridade; mas que foi vencida pelo afeto. 

A saudade vai ser imensa; o “show”  ainda parece curto demais. Contudo, do jeito que foi feito, nem um só espectador vai deixar de levantar para aplaudir. 

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