Antes de assumir as rédeas de Euphoria, Sam Levinson dirigiu um filme chamado País da Violência, que de certo modo ecoa o que ele apresentaria na série da HBO.
Na trama de 2018, um grupo de quatro garotas moradoras de Salém resolvem tomar o destino nas próprias mãos quando um hacker expõe todos os segredos da cidade, mergulhando o local no mais absoluto caos.
Com cores neons saturadas, violência estilizada e glamourização do sexo que beira quase ao pornográfico, Levinson tentou nesse filme reconstruir a história das Bruxas de Salém, mas nos EUA moderno, chafurdando em todas as mazelas que a sociedade estadounidense apresenta em suas divisões e crenças.
Corta para 2026. E após um hiato de quatro anos, Levinson tenta mais uma vez mergulhar nessa temática com uma temporada que tentou emular o faroeste no lugar da comédia de humor ácido.
O grande problema é que apesar de ter um tema em mente, faltou competência para colocar todas essas ideias em prática e o resultado foi um ano descartável, que não é ruim, mas está longe de ser algo dignamente memorável.
E o principal problema dessa reta final não foi a pegada de bangue bangue, mas sim a entrada repentina da religião na equação que envolvia Rue e cia. Ainda que presente nas temporadas passadas, o viés religioso nunca teve o peso necessário pra se tornar tão importante quanto Levinson quer que o público aceite.
Numa completa descaracterização, Rue agora se torna uma devota ferrenha, das que vê sinais divinos em tudo e acredita na “palavra” muito mais do que na realidade. Seria algo compreensível, se fosse indicado desde o começo do novo ano de maneira constante, como uma trama minimamente construída para atingir tal propósito.

Mas logo em seguida, lá estava ela usando essa religiosidade pra justificar suas decisões ruins e defeitos de caráter, como se nunca tivesse realmente mudado e aceitado a “luz”.
A morte de Rue era algo muito mais do que esperado, mas lógico. Não tinha como ela destruir tantas conexões, bagunçar tantas vidas e sair incólume disso tudo. Sua morte é apenas um reflexo de seus atos, duma vida que, direta ou indiretamente, teve seu destino decidido por ela mesma. Só que após brincar com isso durante a temporada, o diretor acabou criando um efeito “Pedro e o Lobo”. Então, quando a morte veio foi algo sem impacto, sem emoção, sem conexão com o público.
Nem mesmo a sua “ascensão” aos céus, numa homenagem tanto a Angus Cloud quanto para com a própria série, funcionou como o esperado, resultando em algo piegas e um pouco forçado.
Essas metáforas religiosas então reverberam no resto do episódio, numa tentativa de justificar o papel da religião. Foi assim com a guinada moral de Lexie ou com a mudança radical de Ali, que de uma hora pra outra, depois de perder tantos para as drogas antes de Rue (alguns com até maior importância), se tornou um anjo vingador pronto pra fazer com que Alamo e cia pagassem pelos seus pecados.

É uma descaracterização que rivaliza com todo o imbróglio entre Cassie e Maddy. Utilizando o mais batido dos clichês (amigas e rivais), o roteiro coloca as duas personagens numa posição de força, mas logo quebra isso ao mostrá-las submissas às vontades de outrem. É assim com Maddie, que criou um império de camgirls, mas continua como uma “ingênua” presa numa casa de bonecas construída para aprisioná-la. Assim como Maddie, que de “boss bitch” se tornou um capacho na mão de Alamo e, mesmo com a morte desse, deve continuar numa dívida eterna com o empregado dele.
E Jules? Ficou na promessa.
Entre cowboys cafetões, traficantes nazistas e revelações divinas, a força da trama de Euphoria se dilui de forma irreparável, destruindo tudo aquilo que foi construído nas temporadas anteriores. Não adianta entregar um desbunde visual, se isso não é acompanhado de substância textual, de significado.
Ao tentar desvirtuar o faroeste, para explorar todo o sexo, violência e vício que compõem os EUA moderno, Levinson consegue algo apenas medíocre, porque isso já foi feito de maneira muito mais elegante e competente antes dele.
Euphoria se despede então com uma morte apática, em que não há catarse, significado, nem importância. Ao focar no exagero de seu universo, Levinson apenas evidenciou a pequenez de sua capacidade criativa.














