A novela consagrou a volta de Aguinaldo Silva e o protagonismo absoluto de Sophie Charlotte.
A primeira novela dos anos 2020 foi Um Lugar ao Sol, de Lícia Manzo. Gravada toda de uma vez antes de ser lançada, a trama do gêmeo pobre que assumia a vida do gêmeo rico foi uma sucessão de enganos. Depois, o remake de Pantanal recuperou a dignidade do horário enquanto esteve no ar. Durou pouco. A sucessão de títulos seguintes foi indigesta: Travessia, Terra e Paixão, Renascer, Mania de Você e o tenebroso remake de Vale Tudo. Parecia que o horário das 21 estava condenado ao genérico da verticalidade.
Curiosamente, o dono de um dos grandes fracassos da década anterior foi chamado de volta. Aguinaldo Silva foi demitido da Rede Globo assim que O Sétimo Guardião chegou ao fim. A novela foi cercada de escândalos de plágio, de escândalos de bastidores e de uma história que não sabia para onde ia. Aguinaldo viu a tentativa de retornar ao realismo fantástico se tornar um de seus maiores fracassos; e saiu como Tieta saiu de Santana do Agreste, humilhada.
A pandemia, contudo, deu um grande reality check na alta cúpula da emissora. As reprises de Fina Estampa e Império mostraram que o estilo de Aguinaldo ainda sabia fazer uma coisa extremamente importante para qualquer rede: uma comunicação direta com o público. Apesar desses dois títulos ainda não serem os melhores de sua carreira, foram novelas que resgataram parte do prazer de ver o exagero comum ao gênero; em contraponto à tentativa de gourmetização de títulos como A Força do Querer e Amor de Mãe (depois reforçado por Um Lugar ao Sol, Pantanal e Renascer).
Não me entendam mal… Há muitos aspectos positivos em várias dessas tramas; e de fato, A Força do Querer e o remake de Pantanal, são obras que merecem toda nossa reverência. Mas, a audiência parecia carente de diversão pura e simples… desde que essa diversão também se preocupasse em entender que uma coisa boa trazida pela ótica moderna era a exigência de qualidade. Se Aguinaldo pudesse atrair o público que ama sua linguagem exagerada; e ao mesmo tempo fazer isso com uma trama inteligente e sensível, ele teria a redenção definitiva.
E ele conseguiu.
Ao lado de Virgílio Silva e Zé Dassilva; e com direção de Luiz Henrique Rios; a trama de Três Graças chegou imediatamente seguinte ao remake de Vale Tudo, novela que em 1988 tinha contado com Aguinaldo na co-autoria. Depois de ver sua obra ao lado de Gilberto Braga e Leonor Basseres ser destruída, Aguinaldo retornou no mesmo transporte coletivo que Gerluce; uma protagonista construída para ser VERDADEIRAMENTE identificável; próxima de mim e de você; dona de uma história comum a tantas mulheres; e amparada por um texto que era tudo que os noveleiros desse país mais sonhavam: cheio de coerência.
A Gerluce de Sophie Charlotte estava sempre atrasada; morava numa comunidade; pegava muitos ônibus; tinha um namorado canalha; uma mãe doente e uma filha adolescente grávida. Era extremamente realista; e talvez tenha sido esse background tão certeiro o responsável por causar uma ligação imediata entre ela e o público. Assim que a primeira semana chegou ao fim, ela já estava estabelecida como alguém por quem a audiência torcia genuinamente.
A trama que a envolvia era curiosa: trabalhando como cuidadora na casa de uma poderosa família paulistana, Gerluce descobriu dois segredos. O primeiro era que a dona da casa tinha uma sociedade com um empresário que fabricava remédios falsos; o que estava matando justamente a mãe de Gerluce. O outro era que na casa havia uma escultura chamada Três Graças; e que ela valia muito dinheiro. Logo, Gerluce assumiu uma postura de liderança com ares de Robin Hood; e decidiu roubar a estátua para vendê-la e comprar remédios verdadeiros.
Essa premissa pode parecer absurda à primeira vista; mas os autores tomaram uma decisão extremamente valiosa: eles ditaram o ritmo progressivo da trama; um passo de cada vez; deixando que cada aspecto desse plano e todas as pessoas envolvidas nele fossem desenvolvidas calmamente. Quando a estátua é finalmente retirada da casa, a audiência já está extremamente investida nas vidas de todos os personagens que formaram a equipe de “ladrões do bem”. A audiência cresceu lentamente, mas os autores não se intimidaram. Tudo aconteceu no tempo certo.
Em torno desse enredo, Aguinaldo e seu time sustentaram o resto da novela com núcleos que não funcionaram em 100% das vezes; mas que foram imbatíveis quando sim. É inegável que o desenvolvimento de Lorena e Juquinha foi uma aula de como abordar casais homoafetivos de uma forma romântica, delicada e justa. As duas foram guiadas por um caminho de amadurecimento e naturalidade; como qualquer casal heterossexual seria tratado. Tiveram cenas de amor e intimidade; e não provocaram nenhuma polêmica com isso. Nem muito menos foram “higienizadas” para o horário nobre. Depois do que vimos acontecer com Cecília e Laís, do remake de Vale Tudo, a força de Juquinha e Lorena provou que tudo só depende de vontade e talento.
A Viviane de Gabriela Loram também foi um grande acerto. Os autores foram muito inteligentes ao decidirem que Viviane seria a melhor amiga da protagonista; e criaram um monte de cenas em que ela protegia e ajudava a amiga; tudo enquanto cuidava da farmácia popular da comunidade. Viviane era puro carisma, altivez e ternura. Quando o enredo do romance com o filho do vilão apareceu, ela já estava estabelecida como uma das personagens por quem o público sentia mais simpatia. Em algum ponto, a questão de perdoar ou não Leonardo virou um problema, mas os autores tentaram ao máximo redimir o rapaz sem perder a medida de seus pecados.
De todos os “machos escrotos” de Três Graças, o único que realmente não tinha um arco possível de redenção era Jorginho. A morte dele foi a única solução. Joaquim e Leonardo precisaram se regenerar pouco a pouco. Não digo que devessem ser perdoados; mas digo que eles fizeram uma curva dramática comum em novelas; em que pais e mães que abandonam filhos se arrependem; e canalhas eventuais amadurecem. Nada de novo. E de fato, era perceptível a relutância do texto com relação ao Joaquim. A aproximação com Lígia não incluiu a aproximação com Gerluce. Toda novela tem sua porção de malvados redimidos. Félix de Amor à Vida jogou a sobrinha no lixo e no final estava todo mundo torcendo por ele.
Nem tudo foi graça, contudo… O núcleo do porteiro não saiu do lugar; e a tentativa de abordar o autismo através dele soou forçado. Um desperdício dos talentos de Juliana Alves e Augusto Madeira (ambos saídos de bons trabalhos em Volta por Cima e Beleza Fatal). O núcleo do casal formado por Miguel Falabella e Samuel de Assis demonstrou potencial enquanto a malvada Lucélia causava intrigas na casa. A partir do ponto em que ela debandou para o núcleo dos bandidos, a personagem se esvaziou completamente; e levou consigo a relevância de todo aquele núcleo.
Algumas coisas se ajustaram no decorrer dos capítulos. A Arminda de Grazi Massafera foi um desses casos. Enquanto Murilo Benício já parecia muito confortável, Grazi demorou para encontrar o tom da personagem e passou boa parte das primeiras semanas estacionada nas mesmas reações de antipatia. Entretanto, uma vez descoberta a “melodia” correta da vilã, nada mais atrapalhou sua ascensão. A Samira de Fernanda Vasconcellos também foi outro desses casos.
Os Silvas investiram em humor e auto referência; mas também souberam a hora de levar as coisas a sério. Tiveram a sacada de usar a história de Belo e Viviane Araújo a favor da novela; e dialogaram sobre isso na sessão de terapia mais exposta da televisão brasileira. E mesmo que Téo Pereira e Crô sejam personagens muito problemáticos e não especialmente bem feitos por seus intérpretes, é sempre bom ver Aguinaldo trazendo de volta pitadas de seu vasto universo.
Nem sempre é possível que todos tenham seu destaque; então Carla Marins, Mell Muzzilo e Amaury Lorenzo foram alguns dos nomes que poderiam ter entregado muito mais. Enquanto isso, Pedro Novaes e Paulo Mendes despontaram e seguraram seus personagens mesmo com a grande problemática que os envolvia. O mesmo para Marcos Palmeira. A estreante Alana Cabral segurou a onda de sua Joelly a novela inteira; o que ajudou muito a manter as emoções do núcleo das Graças em constante evidência. A casa delas realmente representava um ponto de conforto para o espectador.
É claro que últimas semanas são sempre limítrofes para qualquer novela; e exagerar nas doses de resolução pode ser inevitável. Três Graças se deu ao direito de passar da linha e de entregar mais do que pedimos. As sequências da tentativa de matar o bebê de Joelly e da morte de Lucélia foram homenagens carregadas do escárnio do folhetim… Mas, ainda assim, seu saldo final é tão positivo, que é possível perdoar desatinos como aquele final de Arminda. No fim das contas, vale o prazer de ter vivido no mundo daqueles personagens, que entre erros e acertos, foram mais próximos de nós justamente por isso.
Foi divertido demais. Aguinaldo Silva voltou Tieta… vingou-se com talento e trouxe para o horário a nobreza que ele havia perdido. Precisávamos de mais graças.
E ele nos deu.














