O 13 será o número da sorte para a Drag Race?

Quando o anúncio de que a décima terceira temporada de RuPaul’s Drag Race começaria no dia 1 de Janeiro foi feito, confesso que senti uma certa estranheza. Já faz muito tempo que as novas temporadas começam logo no primeiro semestre, mas nunca tão imediatamente. As razões para a mudança podem ser muitas, como o grande número de versões da corrida que percorrerão o ano ou uma maneira de esticar a possibilidade de dar às queens mais tempo para aproveitarem o hype da temporada. Como todos sabem, as meninas da Season 12 sofreram terrivelmente com os efeitos da pandemia.

Saber que 2021 começaria com a Drag Race não deixava de ser um bálsamo. Apesar de todas as polêmicas que envolvem a competição, o programa segue sendo uma daquelas alternativas infalíveis de entretenimento e tem uma crescente de prestígio cada vez maior. RuPaul, inclusive, já está no Guinnes, como apresentador de reality show mais premiado da TV, arrancando da cabeça de Jeff Probst (Survivor) a coroa. Ainda que filmada no meio de 2020, o programa era necessário para que o ano começasse com otimismo e muita diversão. A questão é: será mesmo que essa era a Drag Race que nos confortaria depois de tanta dor?

Mudanças são necessárias, sabemos disso. Depois de 13 anos no ar não dá pra não mexer em nada “porque o time está ganhando”. O papel da produção é pensar em maneiras diferentes de fazer as mesmas coisas; mas – é claro – sem nunca sair demais para fora da curva. Surpresas são bem-vindas, mas você não pode ferrar com o original (já diria Sidney Prescott). Por causa disso é que não posso deixar de pensar que essa premiere não me agradou tanto quanto eu gostaria. Se em todos os outros anos eu revia as meninas entrando no ateliê repetidamente (às vezes vou para o Netflix e fico vendo em looping só as entradas), posso dizer com toda certeza que não farei isso no que diz respeito ao ano em vigência.

Don’t Fuck it Up

Em todo reality show as fórmulas servem ao propósito da surpresa. Ou seja, você tem o que é imutável para manter a estrutura de pé e pode alterar o miolo para não parecer preguiçoso. Na Drag Race esperamos pelas meninas descobrindo com quem vão competir, esperamos pelo lipsync, esperamos pelo Snatch Game, esperamos pelo Reading Challenge e por aí vai. Foi EXTREMAMENTE frustrante perder a dinâmica das entradas em nome de um senso de “surpresa” que foi ficando velho muito rápido. Foram seis vezes do mesmo sistema, das mesmas frases, das mesmas reações e eu me peguei cansado. Mais que isso: me peguei incomodado com a virada do “sashay away” sendo jogada na cara das meninas que perdiam o lipsync como se fosse incrível, quando na verdade era só cruel.

O potencial das queens foi desperdiçado pela falta de interações. Kandy Muse, a primeira a entrar, já começou falando mal de sua antiga “mãe”, Aja. A impressão dela não foi das melhores do ponto de vista pessoal, mas como participante ela é nitroglicerina pura. Acabou sendo pareada com Joey, muito perdida entre suas penas de galinha e o dever de se expressar em tão pouco tempo. Foi “eliminada” e o que devia ser divertido surgiu sendo desconfortável. Ainda que saibamos que elas não vão embora de verdade, lá estava aquela sensação de que elas estavam compondo a estreia da temporada às custas de um desumano estresse emocional.

Quando Denali foi eliminada chegamos até o “Porkchop Loading Dock”, um lounge onde ficavam esperando as meninas que perdiam o lipsync. A ideia tem uma vertente interessante, que é a de trabalhar a perspectiva de quem vai embora primeiro. Sempre achei que algo em torno disso deveria ser feito (uma temporada All Stars só com as primeiras eliminadas, por exemplo), porque há algo de muito controverso e triste na ideia de preparar sua vida toda para entrar numa competição como essa e ter apenas um episódio nas mãos. Contudo, colocar sete participantes numa sala cheia de fotos das primeiras eliminadas e fazer terrorismo com elas não era exatamente minha ideia de entretenimento.

É muito importante lembrar que qualquer primeira eliminada teve tempo para planejar seu desempenho num primeiro desafio (fotográfico ou de passarela) e num desafio principal; além de uma última chance num lipsync que já no Untucked oferecia o mínimo tempo de consideração. Nesse novo formato alguém vai embora sem ter tido a oportunidade de fazer nada por si mesmo. Pensem em Tamisha, por exemplo. Adoramos Symone, mas ver Tamisha contar que não entrou na Season 12 por causa de um câncer, sabendo que ela pode ser a escolhida para ir embora de verdade por um grupo que não teve chance nenhuma de vê-la performar é deprimente.

Mas, vamos lá… Gottmik entrou como um homem trans que performa como drag, sinalizando a cruzada da produção para garantir que a suposta transfobia de Ru seja superada (notem que no bordão que inicia o desfile ela não fala mais “senhores”e sim “racers”, além de ter trocado “que a melhor mulher vença” para “que a melhor drag vença”). Gottmik veio cheia de potencial e pareada com Utica, que também pareceu interessantíssima. Mas, nenhum pesar foi maior que o de Rosé, famosa e experiente, ganhando um sashay away depois de 15 minutos, após perder o lipsync para Olivia, que começara há um ano e meio. Por fim, um trio onde Tina Burner reinava absoluta encerrou os trabalhos. E já perdemos o encontro dela com Rosé, que com trilha sonora de filme épico poderia ter feito o momento das entradas ainda melhor.

E eis que no último momento, as eliminadas descobrem que até pode voltar, desde que votem entre si para eliminar alguém de verdade. Cientes do que está acontecendo elas reagem e pelo menos a edição não ignora: “que tipo de merda All Stars é essa?”. É estapafúrdio, porque elas não tem base para fazer tal escolha. É gratuito, tosco, oportunista. E dizer que o que vimos no Untucked foi suficiente para angariar parâmetros é um completo exagero. Ali só Tamisha poderia estar salva, depois de ter prontamente contado a própria história.

Foi um começo estranho e cheio de poréns para mim, mas estou animado com a perspectiva de conhecer Tina, Symone, Rosé, Utica, Kandy, Gottmik… queens que realmente tem potencial para fazer a temporada acontecer. Mal posso esperar para todo mundo se encontrar e as coisas voltarem a ser como eram antes. Terreno de experimentações é o All Stars. Quero minha temporada regular de volta, sendo incrível não porque muda as regras, mas porque nos apresenta grandes personas.

RuNotes:

  • O ateliê está com muito mais espaço e tem até um palquinho.
  • Foram inúmeros os memes com o formato da bancada dos jurados. Mas, até  eles entraram na brincadeira.
  • O Untucked se apressou em mostrar muitos frames com a equipe usando máscaras.
  • A Season 13 terminou suas filmagens em Agosto. Será que já teremos All Stars logo em seguida?
  • No hall das primeiras eliminadas vimos fotos que nos fizeram lembrar de participantes dos  quais ninguém se lembra.
REVISÃO GERAL
Nota:
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rupauls-drag-race-13x01-the-pork-chop-season-premiereFoi um começo estranho e cheio de poréns para mim, mas estou animado com a perspectiva de conhecer Tina, Symone, Rosé, Utica, Kandy, Gottmik... queens que realmente tem potencial para fazer a temporada acontecer. Mal posso esperar para todo mundo se encontrar e as coisas voltarem a ser como eram antes.