Início da terceira temporada deveria ter sido o final da segunda… e respeito às estruturas narrativas faz sim toda diferença.
Quando a segunda temporada de House of the Dragon estava na metade, em 2024, foi anunciado que ao invés de 10 episódios, eles encerrariam a temporada com apenas 8. O público entendeu que essa tinha sido uma decisão prévia e controlável, mas os criadores vieram a público e disseram: não, nós fomos avisados em cima da hora e os episódios 9 e 10 já tinham sido encaminhados. Com isso, ficou claro que o Season Finale sofreria as consequências do entrevero.
Dito e feito… O episódio 8 da segunda temporada andou com as narrativas que estavam sendo desenvolvidas até aquele momento e não pareceu nem um pouco com um final de temporada. A evidência do problema já era grande e ficou ainda maior quando o primeiro episódio da terceira chegou aqui. Foi como se toda preparação dos roteiristas – que culminaria com a Batalha da Goela – tivesse sido ferida drasticamente por decisões corporativas. O resultado das tensões que eles construíram só puderam ser vistos dois anos depois.
E eles não se fizeram de rogados não… Deixaram claro que era isso que estava acontecendo e deixaram as coisas como elas estavam. A terceira temporada (com cara de final de temporada), começa com Rhaena Targaryen tentando montar o dragão Roubovelhas; uma cena que faria muito mais sentido uma semana depois de termos visto ela tentar se aproximar do animal; e não dois anos depois. Vale lembrar que a segunda temporada concentrou boa parte de seu enredo em mostrar dragões avulsos sendo conquistados. Se Rhaena seria a última a conseguir isso, o fato pertencia ao bloco do segundo ano e não do terceiro.
Foi uma boa cena; e é importante salientar que diante da pouca participação de Rhaena na Dança segundo o livro, os criadores lhe deram uma oportunidade de desenvolvimento ao fazê-la montadora de Roubovelhas. No livro uma personagem que não foi adaptada é a montadora do dragão; e já que Rhaena é filha de Daemon, fazia mais sentido tentar dar a ela algum destaque.
Outro problema causado por essa quebra de desenvolvimento foi o enfraquecimento das tensões acerca da tomada de Porto Real. Na segunda temporada, Alicent percebeu que as coisas não estavam boas para ela. Rhaenyra mandou bloquear a rota marítima que levava suprimentos para a cidade; todos passaram a odiar os Verdes e os filhos de Alicent já não davam ouvidos a ela há muito tempo. Então, ciente de que a matança continuaria e que os Pretos iam invadir, ela fez um acordo com Rhaenyra para se salvar e salvar Helaena.
Começamos essa nova temporada precisando lembrar desse acordo; que consiste em fazer Aemond ir para Harrenhal com o dragão Vhagar, para que Rhaenyra invada e mate o moribundo Aegon II. Só que o primeiro empecilho já foi a fuga de Aegon II de seus aposentos, junto com Larys Strong.
De fato, estava tudo bem arrumadinho: Aemond iria para Harrenhal, onde Criston e o irmão de Alicent já estariam esperando por ele. Aegon II ficaria e seria decapitado. Sua fuga com Larys acabou sendo o detalhe caótico necessário para que o plano de Alicent tivesse um entrave. Dessa maneira, nós aqui do outro lado ficaríamos tensos para saber se esse plano iria ou não funcionar. Teria sido muito legal se todas essas convergências pudessem ter ocorrido numa narrativa fluída e não precisando esperar dois anos para se concretizar.
Do jeito que foi feito (e embora o episódio tenha sido maravilhoso) algumas coisas pareciam deslocadas. As cenas de Ulf, Hugh e Addam foram um exemplo disso. Os três foram os personagens apresentados em 2024 como novos montadores de dragões. Ulf era o plebeu que vivia dizendo que tinha parentesco com os Targaryen; Hugh era outro plebeu que passava dificuldades com a família; e Addam era irmão de Alyn; ambos filhos bastardos de Lorde Corlys Velaryon.
Numa temporada fluída, as poucas cenas que eles tiveram não pareceriam deslocadas, mas num contexto de início de temporada, com dois anos de espera, aquelas cenas ficaram suspensas no episódio. Nada que prejudique de verdade a série, mas que importa, porque o ritmo dos acontecimentos também dita o nosso envolvimento, a emoção com que presenciamos as coisas. Pessoas que reviram a série antes dessa estreia provavelmente tiveram uma experiência melhor.
A fantástica ação final do episódio também teria sido mais impactante se tivesse ocorrido no penúltimo episódio. Game of Thrones era famosa por fazer penúltimos episódios bastante agitados e esse teria respeitado a tradição. No episódio 8 da segunda temporada, Tyland Lannister foi para Essos negociar uma aliança com a Triarquia (uma união de três das cidades livres do continente), que tinham uma grande frota, que poderia ser páreo para a frota de Corlys que bloqueava Porto Real.
A comandante Lohar aceitou a aliança depois de perder uma disputa e o que chamamos de Batalha da Goela foi o derradeiro embate entre a frota da Triarquia, liderada por Lohar; contra a frota dos Pretos, liderada por Corlys. Essa é uma batalha muito marcante da Dança e não só por sua grandiosidade, mas porque um monte de coisas importantes acontecem. E essas coisas todas são resoluções correspondentes à evolução dos acontecimentos.
Agora, precisamos dizer… O que a HBO fez só nessa batalha foi pura excelência. Em plena luz do dia, com um primor de efeitos visuais e com uma direção e uma fotografia absolutamente deslumbrantes. Nada foi menos que ótimo. A chegada de Rhaena; a luta de Jacaerys contra os navios e os arpões; a chegada de Rhaena e Roubovelhas; a derrota de Jacaerys; a passagem do navio de Corlys pela Goela; o ataque de Lohar que partiu o navio de Corlys em dois… UAU. Tudo foi feito com uma qualidade impressionante; e as decisões que adaptaram o material original foram ousadas, mas com equilíbrio.
O trabalho de Emma D’arcy precisa ser novamente mencionado. Rhaenyra se mantém numa oscilação interessante entre segurança e medo; mágoa e raiva… sempre movida por um desejo de honrar sua própria vontade, mas ciente de que as coisas estão indo longe demais. Existe entre ela e Alicent uma declaração velada interessante, de duas mulheres que foram preteridas por serem mulheres, se colocaram uma no caminho da outra por essa razão, mas sabem que os homens é que vão acabar destruindo tudo que elas queriam construir.
Foi um primeiro episódio impressionante? Foi. É inegável. Mas, poderia ter sido ainda melhor caso todas as suas tensões tivessem explodido conforme foram preparadas para explodir. É admirável que a HBO gaste tantos milhões para preservar a qualidade visual de sua obra… mas esse respeito precisa se estender à qualidade narrativa. A empresa tem sofrido para fazer seu derivado ser tão popular quanto o GoT foi; e esse tipo de atitude atrapalha esse processo.
House of the Dragon é deslumbrante. Mas, deformar sua estrutura dramática é uma forma desnecessária de sabotagem.
Dragonotes:
- No livro, Lohar é um homem e não morre na Batalha da Goela. Há todo um arco de Rhaenyra mandando os filhos Viserys e Aegon III de barco para Pentos, que foi cortado pela adaptação. No original, quando a frota é atacada, Aegon III consegue escapar em seu dragão e Viserys permanece capturado por Lohar e é dado como desaparecido, só retornando anos depois.
- No livro, Rhaena Targaryen não montava Roubovelhas. Ela montou, anos depois, o dragão Manhã. Todo esse arco dela na Batalha da Goela foi inventado para a série.
- No Livro, Aegon e Larys também fogem de Porto Real, mas somente quando Rhaenyra invade a cidade.
- A morte de Jacaerys aconteceu de um jeito bem parecido com o de uma das versões do livro.
















