Tem sido comum ver declarações de que a Drag Race está saturada e desinteressante. Mas, não é bem assim não.
Chegamos ao fim de mais uma temporada da Drag Race; e os bons ventos purpurinados que trouxeram a boa Season 16, no ano passado, continuaram soprando e trazendo para o nosso entretenimento um outro cast muito bem calculado, com o que de melhor há na receita de drama, shade, talento e humor. A máximas dos realities permanece se confirmando: um formato pode durar por anos, desde que tenha um bom cast.
Até a temporada 6, a Drag Race arriscou pouco. No sétimo ano eles mudaram a configuração do Untucked e também deram ao Top 3 números musicais para serem feitos na finale. Não mexeram em nada até a 9, quando foi introduzido o “lipsync for the crown”. Desde então, as mudanças têm sido constantes. Algumas visam baratear custos, como a péssima decisão de fazer as finales no próprio estúdio; e outras tentam dar fôlego para o formato, como o “rate-a-queen”. No final das contas, nenhuma dessas adições “salva” uma temporada; porque o que importa para o sucesso de um reality é seu elenco.
A temporada 17 caprichou no seu ponto forte. Não só tivemos um ótimo time de queens hiper talentosas – como Onya, Suzie, Lexi, Sam e Jewell – como também tivemos um ótimo time daqueles clássicos tipos “só vou bem nos looks” e “me acho melhor do que eu sou”, onde reinam Kori, Joella e Arriety. Essa temporada teve emoção, teve boas histórias pessoais, teve incríveis performances e teve o que a Drag Race precisa desesperadamente: conflito. RuPaul vem em uma temerosa escala de “gourmetização” do formato (razão pela qual abriu mão do saudoso Reunion); e anda se esquecendo dos ensinamentos sagrados do gênero. O que era ruim sai, mas o que era bom precisa ficar.
Para falar sobre essa temporada e chegar até sua vencedora, vamos passando pelas queens e relembrando tudo de mais relevante que aconteceu nesse ciclo; do colchão de Joella até a “jantada” de Suzie Toot em sua principal detratora. Foi uma temporada de picos.
Vamos lá.

Os dois primeiros episódios funcionaram como um só e tivemos o amado e odiado Show de Talentos. Foram OITO números com canções originais apresentadas no palco; todas com aquela mesma vibe “eu sou fierce, fishy, te esmago e levo a coroa”. Ano após ano o Show de Talentos frustra mais com a total falta de criatividade das queens, que acham que dançar uma faixa pré-gravada é o suficiente. Tanto que as vencedoras desses dois episódios foram Suzie (que sapateou) e Lexi (que se apresentou de patins); provando, mais uma vez, que os jurados estão cansados da mesma ladainha.
Na semana seguinte, Lucky Starz foi eliminada depois de cometer o “Pecado Milk” de tentar mostrar “glamour” para os jurados quando esse não era o forte dela. Ainda falta polidez para Lucky e seu look na finale mostrou isso. Ela ao menos não tinha a mesma postura delusional de Joella, a segunda eliminada, que não tem mesmo nenhuma noção das próprias fraquezas como competidora. Se o look do colchão – que agora já virou sua marca – tivesse sido planejado para ser um momento destacado por sua tacanhice, ela seria admirável. Mas, Joella é tão delusional que é possível que gostasse mesmo daquela roupa e se achasse digna de uma vitória.
Depois de ser salva pelo Badonka Dunk, Hormona Lisa foi a terceira eliminada. Acabou ganhando mais tempo de tela por conta da não-eliminação de Arriety, a última a se salvar no twist. A engenhoca que jogava Michelle Visage na água parecia mesmo ser uma artimanha da produção para manter quem quisesse, mas após percebermos que os números premiados eram 1 e 7 (o número da temporada), o twist ganhou mais credibilidade. Fazia sentido.
Hormona foi uma participante que já entrou condenada, justamente por ter sido selecionada cara a cara por RuPaul em um dos eventos do lançamento de seu livro. Nenhuma das queens a via com bons olhos e ela ainda se prejudicou não tendo exatamente uma autocrítica apurada. Contudo, concordo com a declaração dela de que havia algo errado com Katy Perry no dia da filmagem e que ela parecia desconectada. Tem sido uma fase dura para Miss Perry. Hormona entregou bons momentos por conta do episódio das pedras no vestido; mas ela não parece ter saído dali com uma boa experiência na conta.
Crystal Envy e Acacia Forgot foram as eliminadas seguintes e há bem pouco para se dizer sobre elas, na verdade. Acacia era o menino mais bonito quando desmontada; e Crystal deveria ser muito legal por trás das câmeras, porque não deu para entender o prêmio de Miss Congeniality baseado no que vimos dela. Uma saiu no episódio do Snatch Game a outra no Rusical; dois episódios definitivos no que diz respeito ao quanto uma queen é capaz de ir além do que se espera dela. Algumas, aliás, vão mal até no que se espera delas (vamos falar sobre isso). Vale, pelo menos, mencionar que o Rusical desse ano também foi um dos pontos altos da temporada. Eles têm caprichado.
Miss Kori King foi eliminada em seguida e na mesma proporção em que sua drag não tem absolutamente nenhuma identidade; ela é preciosa para o formato dos realities. Kori não teve um só momento memorável na temporada quando se fala de talento. Até mesmo o lipsync que poderia dar a ela 50 mil dólares ela perdeu para Suzie Toot, de quem ela zombou por meses e meses a fio. Mas, Kori teve lá seu romance com Lydia e sempre entregou bons confessionals. Pode não ser uma drag fantástica, mas é uma participante de reality muito competente (e Derrick Barry está aí fazendo a vida apoiada nisso).
Arriety saiu em seguida… e essa talvez seja a participante mais detestável desse ano. Arriety era absolutamente incrível em seus looks, mas lutava terrivelmente contra suas limitações nas outras áreas. Até aí ela era mais uma entre dezenas que passaram pela corrida. As coisas mudaram quando depois de uma decisão de Jewell que em nada pareceu maliciosa com ela, a criatura entrou em um modo desprezível que foi desde o roubo ridículo das piadas de Jewell até a exposição desnecessária da halitose de Onya. Invejosa e recalcada, Arriety saiu deixando para trás um rastro de imaturidades que espero que ela tenha a chance de corrigir em um vindouro All Stars. Ra’Jah corrigiu; ela também pode.
Lydia e Lana saíram em seguida; e é isso. Lydia passa uma vibe muito amigável e Lana teve vários problemas com performances e looks, mas ao menos não era completamente delusional. Para ela e para Kori, ambas consideradas as lipsync assassins da temporada, ficou uma lição de que performances não podem ser apenas números de improviso, sem raciocínio; porque do contrário, Shea Couleé não teria perdido a coroa para Sasha Velour e Suzie Toot não teria vencido o campeonato.
Depois de uma semana sem eliminações por conta do makeover, Suzie acabou sendo eliminada, justamente. Suzie, sem dúvida, foi a protagonista dessa temporada e o nome que provavelmente estará na memória de todos quando esse elenco for mencionado. Assim que ela entrou no ateliê ficou claro que ela seria perseguida por ser uma drag que emulava o passado – e também por fazer comédia. Não demorou e metade do cast já fazia caretas quando ela vencia um desafio ou entrava na passarela.
Extremamente cerebral, Suzie também pagou pela própria falta de perspectiva. Com o Snatch Game ela ainda se salvou, embora o vexame esteja registrado. Com o desafio antes da finale foi impossível. Seu raciocínio de mostrar a gênese de sua drag fazia sentido, mas não se aplicava àquele desafio especificamente. Ela ainda cometeu o desatino de dizer para RuPaul que não sonhava em se apresentar em Vegas. Foi condenada naquele exato minuto.
O que talvez ninguém esperasse é que Suzie voltaria para o campeonato de lipsyncs condenada a falhar; e venceria. Ela fez um baita trabalho de reconhecimento do que havia acontecido com ela e reverteu isso em performances que em nada lembravam sua insistência em imprimir aspectos vintage em tudo que se dispusesse a fazer. Vencer de Kori King tinha um sabor especial, já que Kori – fingindo que era tudo humor – passou meses fazendo pouco caso da drag de Miss Toot. Se isso não é uma volta por cima eu não sei mais o que é.

No Top 4, Sam e Jewell eram as zebras. Sam ainda mais que Jewell. Jewell cresceu na reta final, com performances e looks memoráveis; além de uma atitude sempre divertida sobre tudo. Já Sam era clássica e hiper profissional; excessivamente séria. Por emular o sul conservador dos EUA, sua vitória talvez fosse uma resposta interessante para o país, mas faltava charme em Sam.
Lexi, entretanto, era só carisma do início ao fim. Sua história de vida era insana e vê-la me lembrou a Carolyn, de Survivor e The Traitors Us; por conta de como suas respostas físicas e emocionais às coisas poderiam ser facilmente confundidas com fraqueza. Sua estética Victoria Secrets talvez tenha sido o grande problema na hora de julgar sua força na passarela. Lexi saiu dessa bolha em alguns momentos, mas acaba sempre retornando – o que vimos categoricamente na finale. Fará um sucesso estrondoso fora do programa; será sempre uma queen interessante de assistir e ouvir em qualquer contexto.
E por fim, temos uma vencedora. Onya Nurve tem tudo que uma vencedora precisa: ela tem a voz, tem a dança, tem o humor, tem o carisma… Ela é absolutamente fantástica e vai carregar essa coroa com méritos inegáveis. Sua performance no Roast, no Rusical, no Snatch Game, ao lado do pai no makeover… Tudo a respeito dela soa correto. Tenho um carinho especial principalmente por sua sensatez diante de todos os conflitos que surgiram na temporada. Uma verdadeira QUEEN.
Mas… – e tem sempre um “mas” – no péssimo lipsync de Abracadabra, Jewell se saiu um pouquinho melhor. Se Jewell conseguisse fazer algo surpreendente, teria tirado a coroa de Onya mesmo com Onya tendo a melhor trajetória da temporada. Como ela não fez, RuPaul decidiu-se por Onya levando em consideração esse histórico. Onya não estava bem naquele lipsync e isso prova, também, a fragilidade desse formato. Ou RuPaul escolhe tudo ou não escolhe nada.
Outra coisa, inclusive, que precisam rever é a divisão desses prêmios. É ótimo que o Top 4 inteiro ganhe alguma coisa, mas a vencedora do torneio de lipsyncs ganhou 50 mil, o dobro do que a drag que ficou em segundo lugar. Imaginem só… se não fosse a Suzie a vencer; que já tinha ido longe na competição? Joella poderia ter sido a segunda a sair, ter usado aquele colchão e ainda assim ter levado o dobro do que ganhou a segunda colocada. Precisam rever isso.
Apesar dos tweets e posts sobre como a Drag Race está saturada, o que presenciamos na temporada 17 foi um elenco afiadíssimo produzindo momentos divertidos, comoventes e marcantes, do tipo que se enquadra na galeria de lembranças da corrida; sem dever nada ao que parte do público chama de “tempos áureos”. Sim, porque, de fato, os elementos principais de uma boa temporada estão todos ali: drama, conflito, humor, amor… Se fala muito sobre saturação e irrelevância, mas em muitos casos isso parte dos que já deixaram o programa pelo caminho. Tenho a impressão de que força de uma temporada pode estar a um play de distância.
RuNotes:
- Vem aí o All Stars em grupos. Medo e excitação ao mesmo tempo.
- Adoro ver o Pit Stop logo depois de ver o episódio, mas Trixie precisa voltar.
- Entre desafios que eles fizeram e que me deixaram muito feliz, estão alguns novos, como aquele mini challenge em que uma escrevia a bio da outra. GENIAL.
- Look da Suzie na finale foi para ficar para a história.
- A homenagem para a Liza Minelli foi lindíssima e espero que mais divas venham para receber aquele prêmio.
- Bancada dos jurados precisa ser mais estável. Desse jeito ninguém acompanha a evolução de ninguém.
- Para terminar, deixo com vocês o vídeo com a reação REAL da vencedora.















