Where’s your crown, Queen Nothing?
O livro em que se baseia a série Casa do Dragão tem uma particularidade interessante, que é a multiplicidade de pontos de vista. A história da Dança dos Dragões é contada pela ótica de vários personagens que estavam à margem dos acontecimentos. Por causa disso, o leitor nunca sabe o que verdadeiramente aconteceu. Na adaptação televisiva, enfim, os roteiristas se decidiram por uma das versões e a exibem como se ela fosse a versão “oficial”.
No livro, há uma passagem interessante sobre a tomada do trono por Rhaenyra; que justamente por causa dos vários narradores da obra, não temos como saber se realmente aconteceu. Nessa passagem, o septão Eustace conta que ao sentar-se no trono de ferro pela primeira vez, Rhaenyra se cortou “como se o trono a rejeitasse”. E embora a cena não tenha acontecido na série, está claro que o episódio 3 usa a própria narrativa como uma metáfora desse mesmo acontecimento: sentada naquele trono, Rhaenyra se “corta” inteira… inúmeras vezes.
Como a gente já imaginava, esse é o episódio que funcionaria como o primeiro episódio da terceira temporada. Ele tem uma estrutura muito própria de um episódio inicial: depois de grandes batalhas ele veio mais tranquilo; apresentou personagens que serão importantes nesse ano e estabeleceu quais são as narrativas que devemos acompanhar de agora até o episódio 8.
Sabemos que ao trazerem os dois episódios finais da segunda para o início da terceira, a terceira, de fato, só terá 6 episódios. Isso quer dizer que alguma narrativa foi suprimida nessa reorganização. No momento, a temporada estabeleceu duas linhas bem definidas; e provavelmente serão essas linhas que vamos acompanhar até o final deste terceiro ano – ou até mesmo até o final da série.
A primeira dessas linhas diz respeito à apresentação de Ormund Hightower, o primo de Alicent que já havia sido mencionado antes e que apareceu brevemente no episódio da Batalha da Goela. Ormund é excêntrico e perigoso; e é também o responsável por Daeron Targaryen; o filho mais novo de Alicent. Aqueles que conhecem a obra original sabem que há um arco imenso envolvendo Ormund e a cidade de Templeton; resta saber se esses acontecimentos se desenvolvem e convergem nesse ano ou no próximo.
A rendição falsa de Ormund pôs em prática um plano que parece estar no sangue da Casa Hightower. Em dado momento do episódio, Alicent sugere a Rhaenyra que acuse Aegon de ser um farsante caso ele ressurja em Porto Real, já que ninguém em Westeros sabe que ele está desfigurado. Ormund seguiu um raciocínio parecido ao enviar para a Rainha uma versão Shein de Daeron.
O menino enviado tinha os cabelos platinados típicos dos Targaryen; mas o menino ao lado de Ormund tinha os cabelos escuros. Sabemos que no cânone da série, Targaryens de cabelos escuros sempre representam uma pulada de cerca; e Alicent deu as dela durante esses anos que a conhecemos. No livro, os cabelos de Daeron são platinados, não deixando dúvidas de sua paternidade.
Será que na série eles vão tentar dar a Criston Cole (o pai mais provável na minha opinião) essa paternidade? Seria uma forma de garantir ao personagem alguma relevância. Vamos ver…
Enquanto isso, na outra linha narrativa, Rhaenyra finalmente conseguiu sentar no Trono de Ferro… e demorou só 3 segundos para que ficasse claro que aquele lugar de Rainha trouxe mais problemas que vitórias. Demandas, exigências, intrigas, paranoia… Ela está completamente sobrecarregada.
O conselho que ficou em Pedra do Dragão ela dispensou; não há muita gente confiável em volta; seu maior aliado Corlys quer que ela reconheça filhos bastardos (o que ela não quer fazer); Alicent e Haelena não foram libertadas; o ouro sumiu; ratos por toda parte e ainda por cima Ormund Hightower tentou enganá-la e acabou se tornando uma ameaça potencial. Contudo, a verdadeira ameaça é a maneira pouco cuidadosa com a qual Rhaenyra constroi sua relação com o povo da cidade.
No jantar de ratos cozidos que ela usou para ameaçar os nobres, um deles jogou na cara dela que o problema da fome começou com o bloqueio marítimo. É evidente que qualquer pessoa inteligente perceberia que Rhaenyra causou a fome para depois agir de maneira demagógica, distribuindo comida aos famintos. Ela sempre soa insegura e acuada; o que acaba sendo um convite à paranoia constante. Ela queria muito esse trono… e esse trono está consumindo as forças dela.
Muitas vezes, um dos problemas de House of the Dragon que a faz ser menos envolvente que Game of Thrones, é a ausência de personagens pelos quais a gente possa torcer. Rhaenyra ocupa em grande parte do tempo a função de figura injustiçada, mas tampouco desponta como uma heroina. Suas ações são constantemente equiparadas a de seus inimigos; e embora haja algo de interessante que todos sejam malditos em alguma instância, faz falta ter um personagem para acalentar nosso coração.
A sensação é de que só há um fluxo constante de desgraça e morte; o que é coerente com uma guerra, mas nem tanto para as emoções.
Dragonotes:
- Muitas coisas nesse episódio foram criadas apenas para a série. No livro o plano de Ormund para enganar Rhaenyra não existe; assim como toda coisa do jantar com os ratos.
- No jantar com os nobres, Rhaenyra conhece Sor Torhen Manderly. Mas, no livro, tanto a aparência quanto a função desse personagem são diferentes do que a série parece estar propondo.
- Na série, Rhaenyra se recusou a reconhecer os bastardos de Corlys; o que foi ótimo para gerar alguns conflitos. No livro, contudo, ela não só aceita como o faz de bom grado.













