Quando Doctor Who retornou em 2005, após um longo período de hiato, a série acabou estabelecendo formatos estéticos e narrativos que moldariam a estrutura do show pelos anos seguintes. Uma das escolhas mais identificáveis e adoradas pela comunidade Whovian veio em forma de episódios temáticos natalinos que serviam para amenizar a sensação de vazio entre uma temporada e outra e propor um respiro diante dos acontecimentos finais (e majoritariamente traumáticos) que a conclusão do ano anterior trazia ao público.
Essa estrutura era utilizada de forma diferente por cada um dos showrunners que trabalharam com esses especiais. Durante a era comandada por Russel T. Davies os episódios natalinos eram histórias que ecoavam uma continuidade com a temporada anterior e/ou com a seguinte enquanto traziam uma ressignificação dos símbolos festivos de uma forma brutal, quase que ironizando todo o clima alegre e pacífico que a data representa. Já Moffat transformou essas histórias em aventuras isoladas e autossuficientes, onde reinava uma aura mágica e mais pura e que ia de encontro de um tom mais próximo ao das fábulas infantis. Chibnall, por sua vez, resolveu abrir mão dessa “tradição” Whovian, desvinculando a série do feriado festivo.
Mas ao desistir dos contos natalinos, Chibnall resolveu investir em outra área: episódios especiais de Ano Novo. Esse título, no entanto, acabou se mostrando um pouco precipitado, pois é apenas uma forma de nomear um episódio que poderia ser exibido em qualquer época do ano. Diferentemente dos especiais de Natal, a data que marca o início de um novo ano não possui uma estética visual ou simbólica que possa ser aproveitada ou até mesmo reinventada dentro da narrativa da série. Essa escassez de possibilidades é perceptível quando, pelo segundo especial seguido, o showrunner resolve trabalhar com o mesmo vilão usado no especial anterior e a única alusão a “festividade” é apenas uma pequena saudação entre os personagens no início do episódio.

Muitas das questões deixadas em aberto pela última temporada são resolvidas de forma simples ou mesmo deixadas de lado para uma (possível) resolução e desenvolvido nos próximos episódios e caso fossem incluídas nessa história poderiam criar uma sensação de saturação dentro de um plot que já conta com uma aventura (não muito original) com os Daleks e que prepararia o caminho para a partida de Ryan e Graham. E já que tocamos nesse assunto é preciso ressaltar o quão satisfatório é ver um companheiro de viagem deixando a TARDIS de forma tranquila, mesmo que essa não seja uma das melhores despedidas que já vimos na série. De todos os companions apresentados nos últimos anos apenas a Martha Jones teve uma saída relativamente tranquila, os demais passaram por um processo traumatizante e suas despedidas aconteceram de forma mais abrupta.
A minha ressalva aqui é sobre como os motivos para essa saída soam superficiais. A todo o momento somos lembrados sobre como o tempo longe da Doutora impactou a vida dos três, em especial no caso do Ryan, mas isso nunca deixa o formato de discurso para se tornar algo mais concreto e palpável e essa decisão acaba pesando no ato final, onde o peso dramático e sentimental do momento se esvai em uma proporção que dificulta a identificação com aquela separação entre amigos. Sem contar que Graham é subaproveitado na sua derradeira aventura. Talvez a intenção fosse a de não colocar nenhum deles em perigo ou causar uma consequência mais duradoura no relacionamento entre eles, pois isso poderia causar ranhuras na imagem de “família” que Chibnall construiu desde o começo da jornada.
E essa partida marca a primeira mudança estrutural realmente efetiva na condução do show sob a tutela de Chibnall. A partir de agora com a permanência de Yaz e a introdução de um novo companion na temporada que se aproxima poderemos perceber se riscos serão tomados na forma de estruturar as narrativas ou se ainda permaneceremos em um nível que é cômodo e seguro. Muitos dizem que um novo ano é como uma folha em branco pronta para ser preenchida e esse especial talvez sirva como uma possível chance de rever tudo aquilo que vem funcionando e o que não tem correspondido às expectativas dentro da série. Revoluções são bem vindas e, em alguns casos, necessárias.













