Se 2021 for tão bom quanto a nova temporada de Cobra Kai – que estreou o ano com lutas épicas, encontros nostálgicos e tramas emocionantes –, então certamente podemos esperar muito deste novo ciclo. A terceira temporada da série – que inicialmente era do YouTube, mas foi comprada pela Netflix – começa nos apresentando as consequências do ano anterior e mostrando onde estão seus principais personagens.
Duas semanas se passaram desde que os alunos dos dojôs Cobra Kai e Miyagi-Do transformaram os corredores do Colégio West Valley em um campo de batalha de karatê. Desde então, cada um deles sofre as consequências dessa constante disputa sem fim: enquanto Miguel continua em coma, Robbie se mantém foragido por quase matar seu concorrente, que não só lhe representava uma ameaça no karatê, mas também no triangulo amoroso que englobava Samantha, a qual vem alimentando cada vez mais seu desejo de vingança. Além disso, Johnny Lawrence se vê mais uma vez no fundo do poço e a concessionária de Daniel Larusso está em crise – talvez Amanda estivesse certa, e o slogan “nós chutamos a concorrência” de fato não tenha sido uma boa ideia.
A temporada trabalha suas tramas sem ter pressa de desenvolver cada um de seus personagens, guiando-os novamente por um caminho de crescimento pessoal onde a ação de cada um deles é inteiramente justificada por seus passados e temores. Desde o começo essa foi uma das qualidades mais marcantes da obra, que trabalhava seus personagens com um intenso cuidado e dedicação, fazendo com que crescessem e evoluíssem constantemente, seja de forma positiva – como o jovem Demetri, que começou como um simples nerd incapaz de se defender e agora retém uma inerente popularidade – ou negativa – como o Falcão, que passou de párea da escola para um de seus principais valentões.
Além do elenco jovem, que novamente brilha em seus papéis, o elenco adulto também recebe os holofotes que merece. William Zabka novamente apresenta um espetáculo com um Johnny Lawrence em busca de redenção, enquanto Ralph Macchio recebe ainda mais atenção que nos anos anteriores, protagonizando um arco que presenteia os fãs da trilogia original com um golpe de nostalgia tão glamoroso quanto os da primeira temporada – provando, de uma vez por todas, que o segundo e o terceiro filme de Karate Kid são, de fato, cânones para com a série.

Desta forma, ainda que com atuações exemplares de todo o elenco, é Macchio que se destaca com seu personagem viajando mais uma vez para Okinawa, possibilitando uma das cenas mais emotivas de toda a série, acompanhada de mais uma homenagem ao falecido Sr. Miyagi, antes interpretado por Pat Morita.
Outro ponto forte da temporada é que, novamente, a série prova que não tenta ser mais do que realmente é, abraçando seus elementos propositalmente toscos e se permitindo não se levar a sério em determinados momentos. Cobra Kai apresenta, cada vez mais, cenas de lutas irreais em momentos comicamente inusitados, mas que corroboram a leveza da série e divertem todas as idades. Você quer batalha de karatê durante um jogo de futebol? It’s Karate time!

O humor, entretanto, não se sobrepõe às demais formas de emoção apresentadas durante a trama, sendo equilibrado com momentos de tensão, surpresa e também de satisfação e lamentos. Enquanto algumas lutas são empolgantes e beiram o cômico, outras obtém sucesso em deixar o espectador temeroso, muitas vezes aflito e tendo que fechar os olhos e virar o rosto para o lado, fazendo com que o público sinta as dores e os temores de cada personagem.
Toda a história que rodeia o terceiro ano da série é contada de forma fluida, não tendo receio de fazer o espectador esperar para receber aquilo pelo qual deu play em cada um dos episódios. Assim como os ensinamentos do Miyagi-Do, portanto, o espectador é levado a respirar fundo e esperar, pacientemente, pelo desenrolar de cada trama tão aguardada pelos fãs; mas assim que alcança seu ritmo, a série volta a agir com os ideais de Cobra Kai, atacando com força e sem piedade.
Apresenta, assim, um eficaz equilíbrio entre as principais qualidades da série, se dividindo entre grandiosas cenas de luta, acontecimentos e diálogos emocionantes e excelentes desenvolvimentos de personagens, guiando o espectador para um final que, claramente, deixará todos os espectadores sedentos por uma quarta temporada. Com reviravoltas, volta de personagens e revelações sobre momentos do passado, o terceiro ano de Cobra Kai, agora da Netflix, golpeia o público com um forte chute frontal e consegue superar as expectativas, se provando ainda melhor do que seus anos anteriores.
Algo que vale ser ressaltado, porém, é a tão aguardada volta de Elisabeth Shue como Ali Mills, o interesse amoroso de Daniel e Johnny no primeiro Karate Kid. Ainda que só como uma participação, a personagem é introduzida com o objetivo de guiar ambos os personagens para o futuro, fazendo com que, finalmente, possam superar o passado e seguir em frente. A personagem é, portanto, responsável por guiar ambos os protagonistas para um dos momentos mais esperados em toda a série, possibilitado também pela união dos principais alunos de ambos os dojôs, Miguel e Sam. Assim, o espectador fica diante do momento tão esperado desde o primeiro episódio: a união dos já adultos Larusso e Lawrence.
Não só isso, Ali Mills também é responsável por concretizar em palavras uma das principais mensagens da temporada, indagando que sempre existe, além de dois pontos de vista contrários, um terceiro, composto pela verdade. “Existe o seu ponto de vista, o seu ponto de vista, e a verdade”. Em momentos tão conturbados em nossa sociedade, tanto com antagonismos políticos quanto com ideológicos e morais, Cobra Kai traz a mensagem de que o “bem” e o “mal” são, muitas vezes, relativos, podendo ser compostos meramente de pontos de vistas únicos e individuais, discutindo a ideia de que a união de duas visões opostas pode ser, de fato, a melhor solução.

A partir dessa mensagem, que guia a trama de toda a temporada – ainda que seja concretizada apenas em seus últimos episódios –, o terceiro ano da série apresenta não só a emocionante redenção de alguns de seus personagens, como também se aprofunda no personagem John Kreese, o impiedoso sensei que agora volta a comandar os Cobra Kai, tornando seus alunos em atacantes sem qualquer vestígio de empatia. O passado de Kreese recebe bastante tempo de tela, possibilitando ao público sair um pouco do Vale e adentrar nas selvas do Vietnam, trazendo a tona diversas camadas desse personagem e explicando como ele se transformou nesse impiedoso professor que se consolidou, desde o primeiro Karate Kid, como o principal antagonista da história.
Dessa forma, Cobra Kai não só volta a fazer jus ao legado deixado por Karate Kid, mas supera todas as expectativas e se prova cada vez melhor, sendo capaz de emocionar desde os fãs mais assíduos até os novatos, sendo capaz também de trazer lágrimas aos olhos. De Falcão a Demetri, de Miguel a Robbie, Tory a Sam e de Johnny a Daniel, a terceira temporada da série se mostra não só uma obra audiovisual relevante, equilibrando nostalgia com leveza, bom humor e emoção, mas também uma possibilidade de rever as relações que temos uns com os outros, considerar pontos de vistas adversos e nos abrir para a possibilidade de que o mundo não é só preto e branco.
Cobra Kai, assim, apresenta suas mensagens e deixa seu público aguardando a vindoura quarta temporada, que certamente trará muitas resoluções, novos problemas e lutas cada vez mais épicas, apresentando parcerias tão esperadas e batalhas inevitáveis. O Torneio de karatê se aproxima, e não se esqueça: bata primeiro, bata com força, e sem piedade!














