Apesar de reunir alguns dos melhores desafios dos anos recentes, a Drag Race passou por uma décima oitava temporada imprevisível (e nem sempre no bom sentido). 

Será que no mundo dos realities é justo dizer que um vencedor “não merecia ganhar”? Preferência é uma coisa; merecimento é outra. Analisando o histórico de vencedoras, é quase impossível encontrar exemplos categóricos de vitórias que estariam deslocadas da realidade de suas temporadas. Entre as finalistas há muitos “tambéms”; o que significa que geralmente a coroa vai para alguém que em várias instâncias merece tê-la no topo da cabeça. 

Bebe, Tyra, Raja, Sharon, Jinkx, Bianca… Só nesses primeiros anos, quem poderia dizer com certeza que essas não foram as protagonistas/competentes de suas edições? O caso da sétima está à parte, em que mesmo tendo merecido a vitória, Violet estava inserida em uma temporada constantemente acusada de ter ido aquém do próprio potencial. Mesmo com Sasha Velour, na temporada 9, em que a vitória veio de um surpresa com pétalas de rosa, ela ainda assim era uma competidora muito forte. 

No All Stars é que a coisa muda um pouco de figura, com as vitórias dando espaço para serem mais discutidas. A vitória de Trixie Mattel na temporada 3 talvez seja o exemplo mais cabal. Mesmo sendo extremamente bem-sucedida aqui fora, Trixie jamais teria vencido se Ben não tivesse desistido e Shangela não tivesse sido impedida de dublar pelas outras competidoras. As circunstâncias, contudo, fugiram do controle da narrativa. 

Dito isso, o grande hematoma sofrido pela décima oitava temporada foi a eliminação de Jane Don’t a poucos episódios da final, depois de ter passado a temporada inteira no top, com um número expressivo de vitórias. Imaginem Bianca sendo eliminada antes da final. Para uma grande parcela dos fãs, a sensação foi essa. E isso ajudou a pintar um cenário estranho nessa temporada, com as decisões de Ru soando inconsistentes e refletindo mais que nunca o peso de suas preferências. 

Que fique claro que não se trata de uma invalidação da vitória de Myki. Entre as finalistas, Myki era mesmo a que tinha mais condições de corresponder a um verdadeiro arco de vencedora. Mas, esse arco não teria sido construído tarde demais? Por vezes, a sensação que ficou foi de que tudo foi sendo editado para que Jane vencesse; e de repente, com a saída dela, já estaria tarde demais para voltar atrás e encontrar um jeito de dar para Myki um outro tratamento. Se a tentativa foi surpreender, o tiro saiu pela culatra. A culpa de termos ficado com uma ideia de que Darlene e Myki ascenderam rápido demais foi justamente dela, a edição. Por que raios só colocaram no Untucked o trecho em que RuPaul diz à Myki que ela não deveria ter sido colocada no bottom no rate a queen

Sabemos que Nini Coco era apenas uma ótima queen sendo usada como número nessa final. Coco foi editada como alguém extremamente polida, mas sem nenhum likeability. E é curioso, porque Darlene tinha likeability de sobra, mas parece ter sido esquecida pelos editores até o ponto em que venceu um desafio. Insisto: por vezes parecia que esses editores estavam assistindo enquanto editavam, mas não voltavam no que tinha sido editado antes, para tentar estabelecer uma narrativa mais coesa para essas três finalistas. Se o público está revoltado com a ausência de Jane Don’t na final, a responsabilidade está na edição de vencedora que APENAS ela teve. 

O desempenho de Jane está comparado aos das maiores vencedoras da história do programa; e sua eliminação segue bisonha porque queens com participações muito piores foram salvas por muito menos (basta lembrar do desatino que foi a salvação de Kandy Muse em sua temporada regular). Se RuPaul queria provar que “ninguém está seguro”, escolheu o pior dos momentos para tanto. Jane estava no seu primeiro bottom; e nem teve um desempenho ou uma dublagem que possam ser considerados imperdoáveis. Foi como se o pacto velado de que uma excepcional queen jamais seria eliminada por causa de um único deslize tivesse sido quebrado para sempre. Fico me perguntando se isso talvez não tenha a ver com algo dos bastidores que nós nunca vamos saber o que é. 

Mas, ao mesmo tempo, foram muitas as decisões estranhas dessa temporada. O fato de Discord ter sido mantida por tanto tempo sem demonstrar absolutamente nenhum ponto forte; e Athena – por exemplo – ter sido eliminada mesmo oferecendo uma garantia notória de drama e talento, me deixaram extremamente confuso. Sabemos que há queens “de baixo orçamento” que precisam estar lá para impedir a “esterilização” completa da corrida; mas também é necessário saber perscrutar entre suas possibilidades de narrativa, aquelas que podem dar para a temporada um senso mais seguro de continuidade. 

A temporada 18 teve a seu favor um cast mais maduro; o que sempre agrada os fãs mais do que aqueles elencos formados por um monte de queens jovens que querem ser ícones fashion. E alguns dos novos desafios, como o das malas das eliminadas e o red carpet mash-up foram bastante divertidos. Tivemos um rusical forte, um Snatch Game honesto; e a performance de Myki no improviso das Karens para mim já é histórica. Assim como as dublagens INACREDITÁVEIS de Juice Love Dion (o torneio de dublagens esse ano foi realmente muito bom). 

Vou repetir para sempre: precisamos das finales nos teatros novamente; precisamos dos Reunions gravados depois das temporadas terem sido exibidas; precisamos do Untucked separando as meninas em salas diferentes… Com os anos a produção foi retirando aspectos essenciais do sistema da corrida, que ajudavam o programa a construir e estabelecer melhor quais eram as histórias mais relevantes de cada ano. Agora, tudo parece pasteurizado; passado por um filtro de suposta “elegância”, que esvaziou a força dramática que a franquia já teve um dia. 

Não acho – e nem quero – que a corrida seja enfraquecida por esses tropeços. Acredito que a temporada 19 virá demonstrando que RuPaul foi capaz de absorver o peso de algumas de suas decisões; também do ponto de vista organizacional. Espero que possamos nos aproximar dos 20 anos com a maturidade dos adultos, entendendo perfeitamente que a vida se mantém com a razão, mas sem esquecer que bom mesmo é ver realities agirem intempestivamente. 

Abaixo, o vídeo com a reação verdadeira da vencedora. 

Nos vemos na 19. 

Pitacos sobre a Final: 

  • Nini fez uma das melhores performances de uma finale EVER. She ate. 
  • Adorei ver RuPaul se apresentando, mas a música é muito ruim. E vocês sabiam que Ru não se apresenta com a plateia? Ela grava tudo antes. 
  • Miley Cirus merece todos os nossos aplausos. Adoro ve-la no painel. Ela sempre entrega carisma e alegria real de estar ali. 
  • Jane sem acreditar que ganhou Miss Congeniality. Nós também. 

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