Deliberações e eliminações.
Em um final de semana que tenta separar o joio do trigo, o The X Factor UK chega a sua fase de “Bootcamp” com a tarefa de eliminar a gordura de candidatos que não agregam à disputa, assim como alçar possíveis candidatos a uma das seis cadeiras do temido “Six Chair Challenge”.
Apesar de dois episódios mais longos do que o que vínhamos sendo apresentados, o programa conseguiu entreter apresentando novos rostos e dando espaço para alguns dos favoritos do público também brilharem. Uma crítica recorrente ao “Bootcamp” é a falta de transparência em relação a quem ainda segue na disputa, mas é compreensível. Mesmo com uma hora a mais de programa, é quase impossível exibir todo mundo que foi apresentado durante a fase de audições e, ainda, dar espaço para figuras emergentes que podem surgir como zebras que sequer foram introduzidos anteriormente.
Dividido em duas partes, cinco dias, uma SSE Wembley Arena, um muro e quatro mil espectadores, essa é a fase que temos uma melhor ideia se um candidato tem capacidade para trabalhar em grupo e uma lista de possíveis escolhas de músicas restritiva, ou se é capaz de segurar e impressionar uma platéia.
Na primeira etapa, chamada de “Wall of Songs”, os candidatos têm de correr a um grande mural com 35 músicas diferentes e encontrar outros 3 correspondentes iguais para se formar um grupo onde teriam de trabalhar juntos e se apresentarem na frente dos jurados no dia seguinte, cantando a canção escolhida. Na segunda etapa, como se fosse uma “Arena Audition”, cada candidato teria de se apresentar com uma música escolhida por si próprio para os jurados e para uma platéia de quatro mil pessoas. Ao fim, os aprovados garantiriam uma vaga a tentar uma das seis cadeiras disponíveis de cada categoria na próxima fase da disputa.
DINÂMICA DE GRUPO
Eu tenho um grande problema ao apresentar performances em grupo em fases tão precoces na competição, porque, apesar de sermos presenteados com excelentes momentos dramáticos por envolver egos dos artistas e o famigerado caos e confusão, dificilmente um grupo apresentará algo coletivamente harmônico, estético ou minimamente bom. Então o que vemos acaba sendo um ou outro participante brilhando mais do que o resto, de forma desbalanceada. Como competição, ótimo para eles, como qualidade de entretenimento musical, péssimo para a gente.
Dito isto, não me surpreenda que não tenhamos tido nenhum grupo que tenha sido impecável ou que tenha chamado muito a atenção, apesar de termos tido algumas boas surpresas quanto a individualidades. Por exemplo, Holly Tandy. Eu disse em sua aparição na fase de audições que ela não era distinta ou memorável e, apesar de ainda a achar isso, sua apresentação em grupo cantando “Ex’s & Oh’s” deu a ela um protagonismo que não esperava, engolindo suas adversárias que incluía até uma versão de Power Rangers.
Outros destaques individuais em grupos ficaram com Kevin Davy White (em um grupo com um hiperativo Anthony Russell), Georgina Panton e The Cutkelvins, Daniel Quick e Deanna Mussington. Falando especificamente sobre o grupo de Deanna, nós tivemos uma eliminação previsivelmente chocante com Rebecca Grace. Eu acreditava que deveria ocorrer nas “Judges’ Houses”, mas a atendente do McDonald’s teve dificuldades vocais claras durante o refrão de “Love on Top” e eu respeito a decisão dos jurados, um dos pontos cruciais desse exercício em grupo é escolher a canção correta e esta não foi a escolha correta para Rebecca.
VOCÊ QUER DRAMA?

Mas não seria “Bootcamp” e não seria etapa de performances em grupo se a gente não fosse agraciado com aquela dose marota de drama. Para começar, tivemos um grupo que decidiu cantar “We Belong Together”. Com Rai-Elle Williams tomando a dianteira e recebendo o destaque do grupo e Gaga Lord se perdendo nos versos, quem causou drama foi a vice-campeã do The Voice filipino, Alisah Bonaobra. A escolha da música não beneficiou a ninguém e eu não compreendi exatamente os motivos que levaram a eliminação da Alisah no comparativo com suas companheiras de grupo, mas se ajoelhar e implorar por uma segunda chance beira o ridículo, ainda mais para uma vocalista tão experiente e rodada como ela. Ganhou e reverteu a decisão dos jurados literalmente no grito, mas sua reputação foi pelo ralo e mesmo se chegar aos “Lives” eu não consigo ver o britânico médio apoiando esse tipo de artista.
Outro drama previsto era uma separação de um grupo. Na terceira semana de audições já tínhamos discutido a possibilidade de desmantelamento do duo familiar Descendance, formado por mãe e filha, mas depois do naufrágio completo de “You Spin Me Right Round”, os jurados decidiram enfim botar em prática o que plantaram lá. O drama aqui ficou a cargo da mãe que, ao invés de incentivar a filha, quis tomar os holofotes a si própria. Era óbvio a decisão que se seguiria e tenhamos essa perda de tempo, mas se eu tivesse essa mulher como minha mãe eu mesmo teria me mandado embora há muito tempo.
Tivemos outros dois dramas que eu não compreendi um pouco direito. Tipo, o que foi a franca-favorita Grace Davies e seu surto pré-performance? Dividindo um grupo com gente que teve um bom airtime nas fases de audição, incluindo o norte-americano Spencer Sutherland, o desmontado Gregor Coleman e o netinho querido Lloyd Macey, a versão deles para “Say You Won’t Let Go”, do vencedor James Arthur, foi extremamente competente, talvez um dos melhores grupos da temporada. Se a intenção da edição era que eu ficasse preocupadinho com Grace ou com o andamento do grupo, tudo foi um completo desperdício de tempo mesmo.
E o que foi o desastre “Locked Out of Heaven”? O galãzinho padrãozinho da temporada, Sam Black, que já vinha tendo problemas desde os ensaios, foi completamente carregado pela decisão dos jurados. A verdade é que aqui somente a surpreendente Elysa V merecia ter sido aprovada, mas fazer o quê, não é mesmo?
LOOK WHAT YOU MADE ME DO
O grande destaque pra mim dessa semana se chama Jodie Woolcott e toda a sua arrogância, prepotência e ardilosidade na condução do seu grupo quanto no seu narcisismo na sua apresentação individual. Jodie foi o ápice da experiência televisiva do “Bootcamp”. É o tipo de participante de reality show que eu quero ver na minha TV. Quanto mais cobra, melhor. E mais cobra que ela só Taylor Swift.
Primeiramente, fiquei bastante chateado que não vimos sua audição por completo. O pouco mostrado com “Blow Your Mind (Mwah)”, da princesinha britânica Dua Lipa (Buy “Dua Lipa” on iTunes), foi maravilhoso e me sinto roubado de não termos tido essa experiência por completo. Mas tudo bem, ainda mais quando ela se mostra a pessoa mais cretina dessa competição passando por cima de Liaa. Ela passou o momento de divisão da música inteiro discutindo e falando que não tinha o alcance vocal desejado pro refrão de “Symphony”, mas durante o ensaio ela entra e a reação facial da Liaa é a coisa mais maravilhosa que aconteceu nesse “Bootcamp” até o momento. E não só isso, durante a própria performance em grupo, no momento que Liaa entra no refrão, a Jodie não se contém e ri no mais descarado deboche. Eu te venero, Jodie.

Em um grupo com outro favorito, Aidan Martin, quem acabou se dando mal foi Liaa. Jodie foi completamente inteligente de jogar Liaa e, por consequência, Caroline Widdows debaixo do ônibus. Foi uma jogada tão inteligente para eliminar a concorrência que eu fiquei a aplaudindo pela ousadia, afinal, é uma competição no fim do dia, e vai ter pessoas eliminadas em detrimento do outro e, como sempre disse a rainha Sandra Diaz-Twine em Survivor, antes eles do que você.
O problema da Jodie, no entanto, foi deixar a arrogância e a confiança subir à cabeça. O narcisismo ao trocar a letra de “Me Too” meio que acabou contribuindo para uma má impressão aos jurados e à platéia de quatro mil pessoas, que não compraram a ideia de Jodie e ela acabou sendo eliminada, o que é uma grande pena, porque eu queria viver em um mundo com essa mulher causando conflitos nos “Lives”. Mas, ei, se não deu no The X Factor, mal posso esperar por vê-la no Celebrity Big Brother em dezembro (faça isso acontecer, por favor).
GENÉRICOS E ORIGINAIS
Com o fim da fase de grupos e início da fase com os solos diante de uma audiência, o que começamos a ver é como os participantes começam a demonstrar melhor ao que veio e, principalmente, se o público reage positiva ou negativamente às suas performances. Aqui não temos as delimitações de escolhas de canção e tudo cabe ao próprio participante, então o peso da songchoice aqui é maior e mais relevante do que na etapa anterior.
E começar essa fase com Matt Linnen é um erro, em minha opinião. Porque mesmo quando ele tenta ser relevante, ele só vira previsível. Quantas vezes já vimos o típico homem branco tocando violão e cantando uma versão acústica de uma música cantada por uma mulher? Matt Cardle venceu em 2010 usando essa mesma receita. Durante 4 anos seguidos foi isso que elegeu o vencedor do American Idol. Portanto, sua interpretação para “If I Were a Boy”, de Beyoncé, é o que toda versão do tipo é: genérica, sem expressão, sem fundamento, sem graça, sem conteúdo. Ótima voz, mas sabemos que isso não é critério para o programa. Me preocupa esse tipo de artista pro decorrer da temporada, espero que o Slavko tome a vaga dele no “Six Chair Challenge” ou nas “Judges’ Houses” só pra eu me sentir contemplado.
Outra pessoa que tem sido completamente genérica nesse momento é Shanaya Atkinson-Jones, a “pimp spot” do segundo dia de audições que cresceu na disputa com seu drama de adoção. Mas, não me leve a mal, eu não consigo suportar todo esse drama empurrado. Shanaya é ótima cantora, sua interpretação de “Dance with My Father” também foi ótima apesar de alguns problemas, mas seguir nesse caminho artístico não funciona no programa. Não dá pra ficar cantando as mesmas baladas batidas e esperar que cause o mesmo efeito ou impacto da primeira vez. Quanto mais ocorrer de fazer a mesma coisa de sempre, mais esquecível ela se torna.
E se a fuga pra deixar de ser genérico é apontar para canções originais? Um dos temas recorrentes dessa temporada tem sido a presença massiva de canções originais, temos visto uma proliferação delas em quase todos os episódios até o momento e não seria diferente no “Bootcamp”.
Depois da sua horrível “Mexico”, Jordan Rabjohn trouxe seu “Souvenir” dessa vez. Ao contrário da anterior, “Souvenir” tem uma composição emotiva e mostra um lado diferente do Jordan. Está longe de ser uma boa canção e apela pra clichês, mas não chegaram a me incomodar. Diferentemente de El’Tee, que comprova que deveria ter sido eliminado com o conjunto inteiro na performance em grupo com Elysa V e Sam Black. “Search and Seek” é ruim no todo, sem salvar nada. É melodicamente confusa e o rap é mal escrito.

A melhor canção original, no entanto, veio como uma surpresa pra mim. Eu não esperava que Benji Mathews, aquele das crises de riso nervoso das audições, fosse trazer algo tão bem produzido e competente. É a melhor coisa que já ouvimos na vida? Nunca. Mas “Sweet” tem bons valores de produção e suas rimas melódicas, mesmo as mais previsíveis, são mais orgânicas do que as de Jordan Rabjohn, por exemplo. Fiquei bastante feliz com o rumo inesperado que essa performance alcançou.
VITÓRIA NO GRITO
Toda a simpatia que eu tinha pela Alisah Bonaobra, conquistada durante sua audição com “Listen” e perdida no seu grito de súplica e desespero na etapa de grupos, quase voltou ao ouvir que ela escolheria o hino “Defying Gravity”. Como fã de Wicked, as minhas exigências são altíssimas pra que ela conseguisse me impressionar e eu não espero que faça uma cagada com o ápice da canção igual essa moça fez, se atrapalhando no tempo de entrada no fim do número, mas foi uma excelente apresentação vocal. Só. Aqui eu compreendo a dúvida do Simon ao questioná-la se ela não se daria melhor em uma montagem musical do que como performer na indústria fonográfica, e sua resposta com “eu quero tudo” só demonstra a ganância exacerbada dessa moça.
Outra excelente vocalista abordada nesta semana foi a holandesa Berget Lewis. Berget já havia sido incrível encerrando a fase de audições com a sua audição de “Purple Rain” e aqui ela provou o quão maravilhosa ela é. “A Song for You” é uma escolha datada, mas não foge da veia artística e do que ela representa como artista. Foi incrível.
Incrível também é o adjetivo que eu tenho que usar pra descrever Holly Tandy. Eu estou extremamente surpreso com seu trabalho em todo o “Bootcamp”, foi a participante que mais cresceu na disputa pra mim. A jovem interpretou excelentemente a canção atemporal de Harry Styles, “Sign of the Times”, e conseguiu uma vaga merecida na próxima fase da competição.
O “Bootcamp” também é o lugar que conhecemos gente que ainda não tinha dado as caras. Vimos todo o veneno de Jodie Woolcott anteriormente, mas também fomos apresentados ao Jack Mason. Eu não sei se eu o achava bom ou se eu o achava exagerado, mas a escolha da música, “It’s a Man’s Man’s Man’s World” não ajuda. Como era a nossa primeira impressão dele, não sei o que esperar do ponto de vista artístico, mas se for pra ser datado eu espero que nem passe além do “Six Chair Challenge”.
O grande nome do episódio, até acima ao de Holly, foi Georgina Panton. A louca que se perdeu no meio de “Love on the Brain” fechou a semana de forma espetacular. Interpretando uma versão acústica de “Sweet Dreams”, de Beyoncé, Georgina é um diamante bruto de talento único como dos poucos que já passaram pela recente história do programa. Obviamente ela tem que corrigir diversos problemas que suas apresentações possuem, mas o que ela apresenta é tão sincero e honesto que você, enquanto telespectador, compra e torce por ela. Georgina é, neste momento, a competidora da categoria dela que eu mais estou animado.
AZAR NO JOGO, SORTE NO AMOR

O Sam Black alcançar a fase de solos já foi uma forçação de barra tremenda e o gasto de tempo poderia ter sido tão menor e seu tratamento deveria ser tão mais indiferente que teria sido melhor de se assistir. Mas ter que passar por todo aquele trauma da fase de grupos pra ter que ver essa apresentação completamente insossa de “Runaway” foi só para eu ter mais motivos de gostar menos ainda da criatura. Sam Black é o Ryan Lawrie que deu errado, só que temos que lembrar que nem o Ryan Lawrie deu certo pra começo de conversa. Mesmo saindo com o não dos jurados, garantiu o sim da futura esposa. Já ganhou na vida. Agora pode sumir do programa.
Azar no jogo é o que sintetiza a apresentação de Sean & Conor Price, mas sem a parte de sorte no amor, no entanto. E é uma grande decepção de ver um grupo tão favorecido na fase de audições e tão bem recebido pelo mercado de apostas ser completamente infeliz na escolha de música. “Beggin’” não funcionou e “Sing” os mostrou como um “one-trick pony”, com a mesma dinâmica de sempre. Rap no The X Factor é complicado, a exceções pontuais de Little Mix e James Arthur, todos que tentaram usar de forma recorrente se deram mal e foram logo eliminados. Minha preocupação, no momento, é querer saber se essa é a única coisa que esses meninos sabem fazer, porque manter esse estilo de um segurar vocalmente e o outro ficar no rap e violão dificilmente terá apelo com o público votante do programa.
Por fim, nem dá pra chamar o Gary Barker de decepção, porque dele a gente não espera muita coisa, pra ser honesto. Ele foi um completo desastre com “Uptown Funk” na audição e recorreu para uma versão batida de “A Change is Gonna Come”. Dessa vez ele pode ter fugido de escolher outra canção do Sam Cooke, mas atirar pra “Tennessee Whiskey” do Chris Stapleton, é literalmente ficar no mesmo nicho óbvio e previsível. Eu tô cansado só de escrever esse parágrafo, imagina ter que aguentar esse homem cantando a mesma coisa toda semana? Tô fora, pego minha bike e vou embora.
CONFLITO DIRETO
Antes de encerrar o texto dessa semana, eu queria abrir um debate sobre os dois principais grupos da temporada no momento, Rak-Su e The Cutkelvins, ambos com um devido destaque durante os episódios desta semana. Rak-Su, em sua performance em grupo, apelou para o beatboxing, porque claramente não conseguiriam segurar no vocal. Como conjunto harmônico eles são horríveis e não funcionam e voltamos para o ponto levantado na abertura dessa temporada: seguir esse estilo não atrai votos.
Entretanto, sua competição direta no momento, The Cutkelvins, também não tem conseguido impressionar o público e ficam no mesmo nicho perigoso do R&B que também não atrai voto. A apresentação solo deles, “Get Down on It”, foi fraca e a platéia presente não pareceu muito impressionada com o que viram.
Eu acredito que deveremos ter os dois grupos nas “Judges’ Houses”, nem tenho dúvidas quanto a isso, mas suas viabilidades no longo prazo da disputa podem ser questionadas. Ano passado 5 After Midnight precisou de todo apoio de produção, cenografia, backtrack, backing vocals e dos jurados para serem levados até a final, mas isso custou o detrimento de outros grupos (e até outros participantes de outras categorias). Dessa forma, eu começo a ser levado a acreditar que apenas um deles se daria bem, a questão é qual deles. No momento, tudo aponta para o grupo familiar escocês, eles têm maior potencial e são melhores vocalistas, mas consigo enxergar isso como uma disputa direta aberta por ora.
–
Com mais uma parte para fecharmos o “Bootcamp”, semana que vem deveremos conhecer de forma oficial os mentores de cada categoria e já dar início ao temido “Six Chair Challenge”. Em uma semana divertida de acampamento, o The X Factor recupera um pouco do fôlego perdido nas semanas finais de audição e começa a instaurar seus conflitos e dilemas que deveremos acompanhar com ainda mais intensidade a partir da semana que vem.















