Velhos rostos, velhos clichês e (nem tão) novos talentos.
O reality show que se gaba por produzir as maiores estrelas da indústria fonográfica mundial (e que claramente acha que o telespectador compra as ladainhas que eles falam) está de volta para o seu décimo quarto ano apostando no que sempre fez de muito bem: velhos costumes. Não é uma crítica negativa, no entanto, é um ponto que o programa precisava recuperar depois de uma queda vertente de audiência e nada melhor do que utilizar os trunfos que deram certo depois de um ano extremamente bem-sucedido como foi 2016.
É claro que há aqueles que ainda critiquem o painel de jurados, que permanece inalterado pela primeira vez em anos, após sequências desastrosas de mudanças que claramente não funcionaram nem para o público, nem para o bem-estar do show. O dono do programa Simon Cowell, a popstar fracassada Nicole Scherzinger, o empresário de um único sucesso Louis Walsh e a empresária de não-sei-o-quê Sharon Osbourne retornam para repetir o que tentaram em 2016 (e em todos os anos anteriores): encontrar a nova estrela da música britânica (pelo menos foi o que eles nos disseram).
Não temos alterações estruturais nesse primeiro estágio do programa, continuamos com audições em salas fechadas no mesmo formato de sempre, com os aprovados sendo mandados para a fase de “Bootcamp”. A única novidade, acredite, fica por conta das ausências das juradas Nicole Scherzinger (por “compromissos profissionais”) e Sharon Osbourne (por causa de artrite lombar, sabe como é a idade) em algumas sessões de audição, sendo então substituídas pela jurada super conhecida por ninguém, mas apenas por fazer parte do outro reality show de Simon Cowell, Britain’s Got Talent, a cantora, modelo, dançarina, rapper, apresentadora de TV e ícone fashion (segundo a Wikipedia) Alesha Dixon.
Embora possa parecer para quem leia que este que vos escreve tenha achado o programa ruim, fica só na aparência mesmo. Há muito tempo não havia tido uma experiência tão divertida acompanhando uma semana de estreia do The X Factor UK. Eu acredito que ainda vimos muito pouco do potencial que essa temporada promete, mas é um começo bastante sólido e mais divertido que o que nos acostumamos. Parece sim que, de fato, o programa bebeu da fonte da franquia Got Talent e decidiu ir pelo lado do entretenimento de qualidade mais do que a piadaria comum de alguns anos atrás, o que é muito bom, obrigado. Sem mais delongas, os destaques da primeira semana de audições.
SEGUNDAS PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Um ponto muito importante que precisamos discutir logo de cara nessa estreia é que parece que o programa está, finalmente, abraçando o conteúdo original. É óbvio que pra isso eles usaram a estratégia recorrente clássica de fazer alguém parar de cantar no meio da primeira música e recomeçar com a canção original ou o comum “pimp slot” do primeiro episódio (falaremos mais adiante), mas isso demonstra algo que o programa deveria ter feito desde os sucessos das audições de Ella Henderson e Lucy Spraggan, em 2012. Ver o Simon dizendo “é isso que estamos buscando” logo na primeira audição da temporada é um indicativo muito forte de narrativa que provavelmente veremos ser desenvolvida durante o ano.

É assim que chegamos a Rak-Su, uma boyband de quatro rapazes que serviram para a primeira intervenção de produção da temporada. Vamos fingir que a balela de pausar uma audição e recomeçar com outra canção não existiu e vamos ao que interessa: a produção vai tentar fazer o barro acontecer. Embora a música original deles, “I’m Feeling You” seja ótima, com um refrão cativante e sejam esteticamente harmônicos, os vocais passaram longe de me impressionar. Mas, ei, se a produção fez 5 After Midnight acontecer, eu não duvido de nada (mesmo que Simon tenha dito “não temos um grupo bom nesse programa desde o Little Mix”, ouch, embora verdade).
Rak-Su, no entanto, já tem uma certa fama no cenário fonográfico britânico, já tendo lançado um EP independente e até ter possuído um canal oficial do grupo VEVO no YouTube. Se apoiados devidamente pela produção (e não possuírem competição forte pela frente), eu consigo ver eles saindo com a vitória do programa, afinal, são mais experientes como grupo que os finalistas do ano passado 5 After Midnight, mas precisarão ter que tomar cuidado para não caírem no voto étnico: grupos com esse mesmo estilo sofreram para conseguir votos do telespectador britânico médio, embora JLS quase tenha batido Alexandra Burke em 2008.
SAMBANDO NA CARA DA SOCIEDADE
Por falar em Little Mix, um brasileiro fez história com a capacidade de se fazer de piada a cada semana durante aquela temporada. Wagner foi um dos pioneiros do “card estrangeiro”, uma narrativa importante nas temporadas mais recentes do programa, que tem alcançado cada vez mais espaço após campanhas bem-sucedidas, como as de Andrea Faustini e Saara Aalto. Mas Wagner também é um dos símbolos que abrangem o bom e velho “joke act”, com performances circenses, cômicas e exageradas. E, como bom brasileiro, Wagner estava lá para trazer alegria aos britânicos (e nos fazer passar aquela famigerada vergonha alheia), assim como Elizangela. A brasileira que sambou (e foi aprovada não me pergunte como) ao som de “Shape of You”. Como eu disse, só tive vergonha mesmo.
TODO MUNDO ODEIA O ED SHEERAN
Mas Elizangela pelo menos nos introduziu ao melhor compilado da semana. Se tem uma coisa que eu amo são montagens, principalmente se elas envolvem os jurados bravos por algum motivo. E se esse motivo é odiar cada vez mais que alguém cantasse uma música do Ed Sheeran só fazia com que eu quisesse abraçar a Nicole a cada revirada de olho. Eu te entendo, Nic. Ninguém aguenta mais.
Só que terminamos esse compilado com uma boa surpresa, no entanto. O duo Jack & Joel conseguiram criar um mash-up inteligente e bem bacana para as canções do último álbum do popstar ruivo. Eu comecei com bastante medo de eles serem uma versão de Brattavio da vida, mas com um ótimo arranjo, uma excelente distribuição do mash-up, além de uma mistura de beatboxing e bons vocais os colocam como uma das belas surpresas dessa semana.
AGRACIADOS POR GRACE

O recente histórico (a exceção do ano passado) comprova que o participante que normalmente encerra o primeiro episódio de audições (o famosinho “pimp slot”) é, automaticamente, um dos franco favoritos à vitória. E este é sem qualquer dúvida o caso de Grace Davies. Grace repete a tática que abriu a temporada, uma canção original, e recria um momento que Ella Henderson teve em 2012, quando também cantou uma canção original.
Assim como Ella, Grace tem uma voz suave, embora maravilhosa, e a utiliza com maestria em sua própria composição, chamada “Roots”. Assim como Ella, também parece ser a típica garota média britânica, que tem o sonho de se tornar uma estrela. Assim como Ella, Grace disparou nos mercados de aposta como a grande favorita da temporada até então. Mas assim como Ella, eu tenho minhas ressalvas de seu destino e acabar entre os menos votados e ser deposta como uma “eliminação de choque”.
Todavia, já há relatos de que Grace estava sob os olhos da produção do programa desde 2014. Afinal, ela é colega de apartamento (e consequentemente amiga) da ex-participante (e maior sabotada da história desse programa) Janet Devlin e já até recebeu um novo usuário de Twitter simplificado com apenas seu nome (o que aconteceu com a eventual vencedora de 2015, Louisa Johnson). Vamos deixar as teorias da conspiração com vocês por um instante.
GIRLS JUST WANNA HAVE FUN
Aproveitando o embalo da moça anterior, seguimos o bonde com Holly Tandy, uma jovem de 15 anos do nordeste do país que interpretou uma versão bastante competente de “If I Ain’t Got You”, de Alicia Keys. Apoiada pelo drama básico de querer impressionar o avô, Holly não é muito distinta ou memorável pro decorrer do programa. Embora excelente cantora e muito bonita, registra-se, eu vejo ela sendo possivelmente eliminada nas “Judges’ Houses” e ninguém lembrando dela depois de um ano, para ser honesto.
O mesmo definitivamente não pode ser dito sobre Georgina Panton. Apesar de ser completamente exagerada e se atrapalhar em sua rendição de “Love on the Brain” porque estava mais preocupada em fazer “twerk”, Georgina representa o bom e velho “TV gold”. Ela é uma cantora sem experiência que precisa sim de algumas aulas, mas é o que eu esperaria de um participante de reality show. É exagerada, é dramática, é cômica e sabe entreter. Se dependesse de mim (sorte de vocês, talvez, que não), Georgina seria uma presença praticamente certa nos “Live Shows”.
Pra encerrar esse bloco feminino, o “pimp slot” do segundo episódio ficou com Shanaya Atkinson-Jones, que encerrou o programa com sua história de adoção e uma emocionante interpretação para “Say Something”. Com uma belíssima voz, demonstrando muito bem o seu alcance vocal e, principalmente, fazendo as pessoas se conectarem com sua música, fez dela algo memorável dentro do episódio. Me preocupa seu nervosismo, no entanto, mas espero que saiba controlá-lo, porque se já foi excelente assim, imagina sem estar nervosa.
Só para não passar batido (e fingir que a gente esqueceu, mas não), outras garotas que receberam destaque, mas só citaremos mesmo porque não vejo muito futuro na competição (e pra resumir um pouco desse texto já longo) são Rwanda Shaw, Kayleigh Taylor e Nicole Caldwell.
VENDEDORES CHATOS, OLHOS ROXOS E (A QUASE) AMANDA HOLDEN
Se tem uma coisa que eu odeio na minha vida são vendedores chatos. Sabe, daqueles que insistem em falar com você mesmo quando você só tá lá olhando pra vitrine e vendo que seu orçamento de 11 reais na conta bancária não vai ser suficiente para comprar o que você estava de olho, mas mesmo assim fica insistindo na sua compra? É o que eu sinto quando vejo gente como Jordan Rabjohn, um vendedor que fez uma música (mais uma original pra conta) horrível sobre suas férias no México que parecia que não ia acabar nunca, assim como sua habilidade de falar. Eu só estava a Sharon rezando pra que isso acabasse. Foi aprovado, mas nós sabemos que não vai durar muito.
Se por um lado temos um vendedor chato, do outro temos alguém que consegue ser agredido pouco antes de sua audição e ir mesmo assim. Comprometimento é assim, né mores. Com uma boa versão do hino “Issues” de Julia Michaels, Anthony Russell surpreendeu os jurados e é alguém em quem eu manteria o olho, sem trocadilhos porque o dele tá roxo. Pode parecer pouco carismático ou com uma voz sem muito alcance, mas é bem competente no que faz e consegue transmitir emoção.

Ainda tivemos Lloyd Macey, que trouxe sua avó para se juntar ao painel de jurados, levar comida pro Simon e fazer piada com a jurada do Britain’s Got Talent, Amanda Holden. Mas isso não tira o fato de ser um excelente cantor e fazer justiça a “Lay Me Down”, de Sam Smith. Apesar disso, concordo com Alesha Dixon, que provou ser uma excelente adição a temporada nas ausências de Sharon ou Nicole, que ele poderia ter tomado mais riscos e feito uma apresentação menos segura.
Fechando o bloco dos rapazes, o galãzinho padrãozinho que você respeita, Sam Black, veio com uma escolha bastante inusitada para uma primeira audição. Com o hit dos anos 60, “Runaround Sue”, Sam me surpreendeu positivamente. Embora não seja um grande vocalista, ele consegue entreter e tem sempre o potencial de preencher a cota de beleza padrão.
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Por fim, fechamos essa semana com uma quantidade de talentos razoável para a sequência do programa. Surpreendentemente com pouquíssimos “joke acts”, o The X Factor UK mostra que ainda tem força para exibir um programa divertido sem comprometer a qualidade geral do talento da temporada. Alesha Dixon se mostrou totalmente competente no seu papel de jurada convidada e, embora saibamos que nunca abriria mão do salário (maior) no Britain’s Got Talent, sempre será bem-vinda para um retorno a bancada. E pra você? Quais foram os principais nomes desses dois episódios que abriram a décima quarta temporada do programa? Quais são as suas apostas? Que categoria sairá vencedora? Participem nos comentários.
Xtra 1: Embora eu tenha decidido chamar essa zona de comentários adicionais avulsos de Xtra, o side-show The Xtra Factor está cancelado e mais morto do que minha autoestima.
Xtra 2: Há uma boataria muito grande envolta do número de “Lives” que teremos nessa temporada e, infelizmente, parece que teremos sim uma redução. Primeiro porque o programa começou uma semana mais tarde que o habitual e terminará uma semana antes que o de costume (graças ao Senhor da Luz não vai coincidir novamente com o final de semana da CCXP), mas também porque o próprio Simon Cowell quer dar uma movimentada nessa fase do programa. Estamos tristes, embora atentos.
Xtra 3: Já há spoilers de que jurado está com que categoria ou dos 24 nomes aprovados para a fase de “Judges’ Houses”, em respeito a mim mesmo iremos ignorar a existência deles no momento, porque a gente foge de spoiler que nem o diabo foge da cruz.
Xtra 4: Não, eu não esqueci da Gaga Lord, sim, eu ri bastante com Nicole e Alesha dançando atrás dela, não, não darei mais destaque que isso, no entanto.
















