Entre as possibilidades de curtir o tempo livre proporcionado todo começo de ano pelo carnaval estão: ir para a rua acompanhar os blocos, fugir para algum lugar calmo e descansar bastante deste ano que já começou estranho, colocar as leituras em dia, fazer maratonas de filmes (de horror, preferencialmente — ou a maratona do Oscar) ou se largar no sofá e colocar as séries em dia.

Por experiência própria, eu sei que é possível passar muito, muito tempo perdido na navegação da Netflix sem conseguir se decidir. Daí vamos para algum site de comentários e analisamos o que dizem a respeito. Daí assistimos um trailer. Daí lemos uma crítica e os quarenta minutos de um primeiro episódio são perdidos nisso.

Pensando nessa dor de cabeça desnecessária, decidi fazer uma lista de recomendações para evitar que isso não venha a ocorrer com outras pessoas. Vou me basear em séries de serviços disponíveis aqui no Brasil, para que você não perca metade do seu dia procurando como assistir. Além disso, vou tentar não recomendar obviedades — afinal de contas, todo e qualquer portal está recomendando algumas séries. O foco aqui também será voltado a séries curtas (vamos deixar as veteranas para depois) e que tenham, pelo menos, a trama de suas temporadas fechadas.

Vamos à lista?

(NÃO tem spoiler.)

Achei interessante dividir por serviços. Então comecemos com indicações aos assinantes da Netflix:

Close Your Eyes Before It’s Dark (2017)

Já que a intenção é sair um pouco das recomendações comuns, vou para outro continente para inaugurar nossa lista. Aos que estiverem cansados do modo ocidental de contar histórias e quiserem uma série na qual o inglês não é falado, a recomendação não poderia ser outra. Os motivos são vários, desde a trama fechada à resolução dada aos conflitos apresentados. Além disso, é uma série criativa, que pega uma estrutura conhecida e injeta interessantes inovações.

Produzida em Taiwan e adquirida no ano passado pela Netflix, Close Your Eyes faz parte de um conjunto de séries produzidas com incentivo cultural. O resultado é um dos melhores mistérios de seu ano, completo e instigante. Em resumo, oito amigos da época do colégio combinam de se reencontrar, dez anos depois. Há algo estranho, no entanto, e eles logo percebem que suas vidas podem estar em perigo. Aqui temos boas atuações, boas questões e a investigação das relações e instintos humanos por trás de todo o mistério é louvável.

(Você pode ler mais a respeito aqui).

River (2015)

River é a segunda série devastadora da lista — porque Close Your Eyes, mesmo em seu gênero de mistério, ainda assim, tem sua carga dramática. A minissérie britânica, no entanto, vai para a cidade, deixando a cabana da série anterior de lado. Seguimos John River, que investiga um assassinato diretamente ligado a ele. O detetive está debilitado, e não ajuda em nada o fato de ver e conversar com a vítima o tempo todo. Isso preocupa o departamento e o obriga a se consultar em um psiquiatra.

Stellan Skarsgård, protagonista, é um dos maiores motivos para que você assista à série. Ele entrega uma das melhores performances de seu ano, construindo de forma crível e sensível sua personagem. O roteiro não nos poupa muito, castigando-nos de forma indireta ao castigar suas personagens. A situação de River, irreversível, é complicada e complexa, sendo tratada dessa forma e nunca recuando para o que seria mais leve e digerível. É doloroso porque precisa ser e porque tem a coragem de ser.

(Você pode ler um texto sobre a série por aqui).

The OA (2016)

Mesmo que muita gente tenha visto e a série tenha ganhado uma divulgação generosa da Netflix, The OA está aqui porque sei que muitos estão adiando assisti-la. Passado algum tempo de sua estreia, pouco se fala sobre a produção, quando muito, notícias sobre seu retorno. Então, sim, ao contrário das duas anteriores, esta terá continuação na previsão misteriosa do serviço de streaming. No entanto, os episódios disponíveis como parte da primeira temporada funcionam sozinhos, e eu ficaria até feliz (como disse no meu texto sobre o episódio final) caso decidissem não produzir outros episódios. O mistério deixado é o mesmo mistério deixado em A Origem e histórias com essa temática: nem sempre justificam uma continuação, estão ali mais como parte do gênero.

Vamos à história? Depois de anos desaparecida, Prairie Johnson retorna. Dessa vez, ela tem sua visão curada e nas mãos o mistério do que acontecera nos sete anos que esteve sumida. A partir daí, conforme a protagonista decide contar sua história a um grupo seleto de novos amigos, embarcamos em uma jornada de ficção científica, drama e fantasia. Além da carga filosófica sempre bem-vinda, a série conta com excelentes atuações e momentos deslumbrantes, seja visualmente, seja em seus significados. Há uma cena de dança que provavelmente vai ficar favoritada em sua vida, caso você seja um amante dessa arte — a última cena, aliás, é de uma beleza e tristeza almejadas por muitas produções, mas alcançadas por poucas.

(Com texto para todos os episódios, você pode ler sobre o primeiro aqui).

Trapped (2015)

Eu gostaria de dizer que eu presumi tudo isso, mas a verdade é que quando eu me propus a assistir à Trapped, lá em 2016 para o primeiro #MêsDoHorror e humildemente apresentá-la por aqui, eu não imaginei que ela estaria disponível na Netflix pouco depois, com dublagem e tudo mais — eu assisti no idioma original, confiando cegamente nas legendas em inglês. Se você der uma passada lá no texto, verá comentários consideravelmente recentes e reafirmando a qualidade da produção.

Escondida no catálogo, a série islandesa cujos atores e personagens nós nunca aprenderemos a falar corretamente, nos traz o mesmo respiro que Close Your Eyes oferece, acima, de toda a produção tradicional e de língua inglesa. Há competência aqui em todos os sentidos, desde personagens cativantes e complexas a um roteiro inteligente e com um desfecho tão melancólico quanto bem-elaborado. Em resumo, é a história de um dorso que aparece no mar e, a princípio, de impossível identificação. Os detetives da cidade pequena e acobertada por uma tempestade precisam fazer o possível para descobrir o que ocorrera.

A maratona que eu fiz com Trapped, virando a madrugada, foi uma das mais divertidas e intrigantes do citado projeto de horror e mistério — e se você olhar a contagem de séries vistas lá no ranking, perceberá que é algo a se reconhecer. Assim, acredito que para os que estiverem dispostos a se aventurar por ela, comprometidos com um ritmo diferente, a recompensa se dará no desfecho, quando tudo fizer sentido, por mais doloroso que isso seja.

(Você pode ler mais sobre a série aqui)

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Se você, entretanto, quer aproveitar o tempo livre para testar o Amazon Prime, serviço de streaming da Amazon que oferece uma semana gratuita de degustação, eu tenho três recomendações para fazer:

Fleabag (2016-)

Se as recomendações anteriores te assustaram pela carga dramática ou mesmo pela duração de cada episódio, Fleabag é a solução. A comédia estreada pela fantástica Phoebe Waller-Bridge, da qual provavelmente ouviremos falarem muito no futuro, é para se assistir em uma tarde, devorando os seguimentos de pouco mais de vinte minutos sem moderação. O humor debochado, agressivo e melancólico é tão bem escrito e atuado que eu só poderia comparar a performance da protagonista ao trabalho de Julia Louis-Dreyfus. É bem construído e bem elaborado, mudando o tom de forma tão natural que não percebemos — ou talvez percebemos quando começamos a chorar.

Tendo visto a série completa três vezes, fico feliz que esteja disponível aqui no Brasil pela Amazon. Em resumo, a história acompanha uma jovem empreendedora que acabara de passar por uma situação traumática. Em seu dia a dia, ela lida com encontros casuais, com a irmã perfeita demais e com a madrasta (interpretada pela também excelente Olivia Colman). A história por trás da série também é bem interessante: é adaptada de um monólogo feito por Phoebe, no qual ela interpretava todos os papéis. Aqui, para levar a proximidade do teatro para a televisão, há uma constante quebra da quarta parede feita de forma invejável. Isso nos aproxima tanto da personagem e da atriz que é improvável que não sintamos sua falta quando o season finale tiver acabado.

(Leia mais sobre a série por aqui). 

I Love Dick (2017)

Sim, I Love Dick foi cancelada. Isso não muda em nada a recomendação. Mesmo que os destinos de suas personagens não tenham sido totalmente concluídos, foi bom vê-la se despedir porque ela provavelmente se perderia, a julgar pelo último episódio. Além disso, é uma série sobre a vida, feita de modo experimental e belo, mas com trama consideravelmente simples. Ou seja, não havia um grande mistério a ser resolvido que ficara pendente para o resto da história televisiva.

I Love Dick tem um ambicioso projeto que talvez demoremos a entender. Não estou sendo arrogante, eu mesmo só fui entender no sexto episódio. E quando a ficha cai, não dá para não achar genial. A série retrata a viagem de um casal a uma cidade pequena, onde Chris se apaixona por um artista chamado Dick — um minuto de silêncio pela impossibilidade de manter o trocadilho no português. A partir daí, ela fica obcecada por ele, e nós acompanhamos essa jornada. Como eu disse no recente top sobre músicas em séries, a recomendação vai para pessoas que gostam de arte em geral e de uma narrativa voltada ao desejo e percepção do feminino diante da vida. Talvez por conta desse último fator (não sejamos ingênuos), a série teve uma recepção morna e rendeu pouco em premiações. É uma pena porque Kathryn Hahn está maravilhosa.

(A conversa segue com textos sobre todos os episódios aqui). 

Philip K Dick’s Electric Dreams (2017-)

Como aqui trabalhamos com mais de uma opção de gênero, chegamos à ficção científica propriamente dita, tão em alta nos últimos anos — ou desde sempre, para falar a verdade. Se você é um leitor de livros dessa categoria, sabe que Philip K Dick é um autor essencial, e suas centenas de trabalhos não só rendem boas adaptações como questões interessantes e profecias assustadoras sobre nosso tempo. Pensando na riqueza dessa universo, o Channel 4 produziu uma antologia baseada em seus contos. Cada episódio adapta e dá uma mexida em um deles, mantendo as questões e o estranhamento proposto pelo escritor. O resultado: dez episódios interessantes, dramáticos e que rendem conversa até o próximo feriado.

A antologia conta com estrela como Anna Paquin e Bryan Cranston no elenco, fortalecendo um roteiro já sólido. O fato de que as histórias se concluem a cada cinquenta minutos também valoriza nossa experiência, e é uma das qualidades das antologias: se não gostamos de uma história ou uma personagem, é só passar para o próximo. Não acho que isso vá acontecer, e fica a recomendação para que seu período de degustação da Amazon seja voltado a esta série.

(Os textos de cada um dos episódios saem daqui a pouco, então se quiser ir assistindo e fazendo anotações para debatermos logo mais, fica o convite). 

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Muita gente não sabe, mas o serviço da GloboSat é gratuito desde que você tenha o canal em sua grade na operadora de televisão. Ou seja, se você não tem tempo de assistir à programação, pode baixar o aplicativo ou entrar no site deles e assistir no seu tempo. Tem bastante conteúdo bacana por lá. Separei três para que você, pelo menos considere:

And Then There Were None (2015)

Além de ler o livro à época, eu assisti a uma peça de teatro e a um filme baseado no romance de Agatha Christie — este, aliás, mais do que recomendado aos que gostam de histórias de mistério. A série da BBC One, com toda essa bagagem histórica do livro mais conhecido da autora, tinha a missão de acrescentar alguma coisa à narrativa e torná-la tão instigante quanto a obra. Os três episódios da minissérie de dezembro compõem um trabalho perfeito, à altura desse desafio. Elegante, charmosa, ousada e sombria, a produção investe nos defeitos de suas personagens para contar uma história desesperadora de pessoas que merecem alguma punição.

Dez pessoas se reúnem em uma casa na Ilha do Soldado, onde ficam presas por conta de uma tempestade. Até aí, apenas a natureza aprontando. Pouco a pouco, no entanto, elas vão sendo assassinadas de maneira misteriosa por alguém do grupo, que provavelmente elaborara o evento para concretizar seus planos. Vale a maratona por diversos motivos, desde a atuação dos atores às contribuições do roteiro de Sarah Phelps ao material original. Disponível de forma exclusiva no serviço, vale a pena experimentá-lo através dessa sofisticada produção — principalmente se quiser algo para assistir em grupo e brincar de descobrir quem é o assassino.

(Você pode ler mais sobre a série por aqui).

Bipolar Show (2015-)

Entre as séries listadas, Bipolar Show é a única em exibição, lançando toda terça-feira um novo episódio. Mas não se preocupe, trata-se de um “programa de entrevistas” (só assistindo para saber o porquê das aspas), e se começar agora, você terá mais de cinquenta episódios para ver. Em cada programa, Michel Melamed recebe um convidado artista e, basicamente, ambos improvisam esse encontro. Eles seguem alguns quadros do programa, que mudam conforme a temporada, e se comprometem às absurdas propostas do entrevistador.

Às vezes divertido, às vezes melancólico, sempre há uma rica abordagem da arte e do ser humano através de conversas que rapidamente mudam do informal para o sério demais. É contemplativo e íntimo, mesmo diante das câmeras, e não deixa de ser engraçado ver o incômodo de alguns convidados com a falta de uma estrutura mais tradicional, ou ver como Michel quase recua diante daqueles que invertem as regras e contribuem tanto para o encontro quanto ele.

São vinte e poucos minutos de programa, uma edição bem interessante e algumas abordagens do audiovisual tão inspiradoras que não deixa de ser uma aula em alguns momentos.

Les Revenants (2012-)

Mais outra série que pode ou não voltar um dia, Les Revenants possui duas temporadas e sua história se conclui satisfatoriamente na segunda. Não há respostas, porque, honestamente, em uma trama como essa, será que alguma resposta nos convenceria? Enfim, resta-nos agradecer e aproveitar a presença da produção francesa na GloboSat e maratonar com muita aflição os dezesseis episódios.

Para o segundo #MêsDoHorror em 2017 (que é como eu chamo o projeto de outubro, no qual falo, durante esse mês, sobre séries de horror e mistério), eu escrevi um artigo sobre a estética do grotesco, usada em situações que sequer percebemos. Muito presente no horror, esse artifício é usado para refletir sobre o estado degradante que o humano pode chegar, as coisas que pode fazer e aquilo que faz parte de sua natureza. (Para entender melhor, dê uma lida no artigo) Les Revenants é um ótimo exemplo do uso dessa estética na televisão. A história por si só é complicada, mas o sobrenatural aparece em cenas que abusam desse recurso e se tornam terríveis.

A história retrata uma cidade francesa pequena, onde algo perturbador ocorre: os mortos estão voltando à vida. E não é do jeito zombie, não (não totalmente), mas com o corpo e as memórias de sempre, procurando pela família e sem consciência de quanto tempo esteviveram fora. Isso gera conflitos impensáveis por nós, como a mulher casada e com filha que tem o reencontro com o ex-noivo, a garota que morrera em uma excursão de ônibus e retorna à casa dos pais ou mesmo um serial killer. É inquietante, mas bem produzida e levanta boas questões.

(Após se entregar ao mistério, você pode ler por aqui sobre a série, começando com esse texto sobre a primeira temporada).

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Também disponível no Brasil e também com um período de degustação, o serviço da HBO Go oferece diversas séries veteranas e recentes em seu catálogo. Dá tanto para ver as finalizadas e aclamadas (como Six Feet Under/A Sete Palmos) ou as recém-chegadas. Separei duas recomendações:

Insecure (2016-)

Que tal aproveitar o tempo livre e conhecer aquela série aclamada, mas adiada em sua watchlist até agora? Afinal, estar entre as dez temporadas mais bem avaliadas de 2017 não é para qualquer uma. A série criada, protagonizada e algumas vezes roteirizada por Issa Rae é aquilo que idealizamos assistir quando pensamos em uma comédia adulta. O nome já entrega bastante, e aqui o cômico é muitas vezes retirado de situações embaraçosas, nas quais nossas inseguranças ganham espaço.

A segunda temporada contou com oito episódios, assim como a primeira, e não deixou a energia cair em nenhum momento. Desde a divertida primeira cena à angustiante última, o trabalho cuidadoso realizado pelos criadores e amparado pelo elenco talentoso e charmoso é exaltado pela clássica boa produção de séries da HBO. Tudo é refinado e tratado com muita propriedade, sendo as escolhas musicais, os diálogos ou as decisões sobre como retratar as personagens femininas.

(Com textos para todos os episódios da segunda temporada, você pode começar sua jornada lendo mais sobre a primeira aqui).

Mosaic (2018)

A nova minissérie da HBO não aproveita a tecnologia que temos disponível apenas dentro da série e em sua história, mas antes de sua estreia. Explico: a história foi apresentada em forma de app de celular ou desktop (infelizmente indisponível no Brasil) interativos. O público era convidado a navegar no mistério escolhendo pontos de vista, lendo documentos e acompanhando o destino das personagens através de clipes. No total, a interação dura algumas horas e se encontra entre o videogame e um seriado na classificação.

Dois meses depois do lançamento do app, no final de janeiro, seis episódios chegaram à HBO em uma transmissão que durou uma semana e foi concluída no dia 26. Ou seja, é uma série bem recente, mas já elogiada pelo uso da tecnologia para ambientar seu público e da atuação de seu elenco, que conta com Sharon Stone retornando à tevê depois de alguns anos.

Não vou entregar muito da história, mas é o tradicional jogo de investigação no qual todos são suspeitos. O idelizador, que planeja outras séries nesse formato de interação, fez o possível para que a sensação do jogo fosse transportada para a tela. Como não podemos atestar o app, fica a série como alternativa para avaliar seu resultado.

(O texto de Mosaic sai daqui a pouco.)

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ps:

Se você tem mais alguma dica para pessoas que não sabem por onde começar suas maratonas, fique à vontade para trocar figurinhas nos comentários e indicar, principalmente, aquelas séries ótimas que estão escondidas em serviços de streaming por aí.

pps:

Deixo aqui meu obrigado a Marcus Vinícius da nossa equipe que gentilmente fez a capa desse post.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.