Alguns reencontros não deveriam ocorrer. O motivo varia, mas a consequência é sempre a mesma: decepção. Isso porque eles sempre aparecem na tentativa de prolongar algo que já teve fim. Para nós, consumidores de séries, o reencontro acontece naquele episódio perdido ou naquela nova temporada que em nada contribuiu para a série e que não deveria ter saído do papel. Levando para a vida, os exemplos são diversos. Um clássico é o reencontro entre estudantes ou amigos. Nada mais eficaz para perdoar as pessoas e seus defeitos do que o tempo. Este, quando se deixa escorrer, engana-nos se deixarmos. Alia-se à nostalgia para reviver histórias e pessoas deixadas para trás — muitas vezes por um bom motivo. Close Your Eyes Before It’s Dark fala sobre os perigos de se tentar reviver o passado.

Close Your Eyes Before It’s Dark
Close Your Eyes Before It’s Dark

Atualmente disponível na Netflix, a série estreou em dezembro de 2016 no canal TTV, emissora de Taiwan. A temporada foi dividida em sete longos episódios e terminou de ser exibida em fevereiro deste ano. A produção é da Q Place Creative Inc., produtora baseada em Taipé, e foi adquirida junto a diversas outras produções do país. Elas, que entraram no catálogo do serviço há alguns meses, fazem parte da chamada Q Series, programa do Ministério da Cultura taiwanês de produzir conteúdo original local. A iniciativa resultou em oito produções, que passeiam por diversos temas, como comédia, drama, horror e mistério.

No enredo, oito amigos decidem se reencontrar, após dez anos, e fazer uma viagem para desenterrar uma capsula do tempo com vídeos que haviam gravado enquanto ainda mantinham contato. No presente, cada um seguiu seu caminho e poucos se conservam nas vidas dos demais. A oportunidade do reencontro, além de assistir ao que esperavam do futuro, serve como acerto de contas. Isso porque o principal motivo para a separação foi o vazamento de fotos comprometedoras que envolviam um dos principais membros do grupo. Como nunca descobriram quem foi o responsável por aquilo, o rancor herdado pela história os distanciou.

Close Your Eyes Before It’s Dark
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No presente, a vida que levam se diferencia. Alguns são bem-sucedidos, outros casaram, outros têm problemas financeiros ou se tornaram estrelas. O reencontro tem um aspecto de estranhamento já por conta disso. Conforme os minutos passam e a pessoa responsável por agendar a viagem não aparece, os antigos amigos lidam com a possibilidade de que um deles não estava tão bem-intencionado quando aceitou participar da reunião. Presos na montanha onde a casa é localizada porque a estrada foi bloqueada, resultado de uma tempestade, eles terão que descobrir quem está por trás dos assassinatos que começam a ocorrer e por qual motivo.

É quando pensamos que o fato de terem aceitado o convite, na verdade, esconde uma intenção diferente da vontade de assistir às gravações feitas há uma década — isso é verdade, porque alguns planejam solucionar mistérios antigos. Como exemplo, dá para citar Xiao-Tong Hong (Jian Man Shu), aquela que foi humilhada diante da escola inteira por culpa do misterioso vazamento das fotos e cuja aparição na reunião surpreende a todos. Ela não está ali por acaso, e tem em seus planos desvendar quem fora o culpado pelo que acontecera no colégio.

Close Your Eyes Before It’s Dark
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Ao explicar parte (apenas parte) da trama, pode parecer que estamos falando sobre And Then There Were None, uma vez que a história de Agatha Christie envolve um grupo de pessoas não muito confiáveis preso em um local. Há influências perceptíveis, mas Close Your Eyes não se resume à comparação e adiciona elementos interessantes à premissa. Entre eles, o fato de que os mortos, quando postos, lado a lado, na sala separada para as vítimas, conversam entre si sobre a identidade de quem os matou. É algo que traz um lado cômico ou macabro para a série.

Outro ponto que destaco, tentando não entregar muito da trama, é a motivação por trás de todos os acontecimentos na história. Quando vamos descobrindo o que aconteceu, sempre um efeito dominó atrás do ouro, percebemos que são interesses complexos e bem estruturados, ligados ao amor, à fidelidade ou mesmo à ganância. Para que o “momento da explicação” não se torne oco, é essencial que qualquer série de mistério se preocupe com isso. Close o faz, criando detalhes que no começo parecem sem importância, mas que ajudam a fundamentar as justificativas quando elas surgem.

Close Your Eyes Before It’s Dark
Close Your Eyes Before It’s Dark

Os atores estão muito bem, dentro daquilo que a distância cultural me permite analisar, e conseguem transmitir o medo e o desespero da situação em que se encontram. O roteiro tem um papel de auxílio importante nessa questão, porque não nos entrega apenas personagens caricatas, mas pessoas com qualidades e defeitos e que tendem a escolhas questionáveis quando respondem ao instinto de autopreservação.

Destaque para o casal Lu Bo Cang (Zhang Shu Hao) e Liu Cheng Fang (Sun Ke Fang), casados e juntos desde o período da escola. Conforme a trama avança, percebemos que eles não são tão isolados em si quanto parece no primeiro momento. Lan Yi Cong, ex-namorado de Xiao-Tong na época do colégio, tenta se reaproximar dela, mas sua saga dentro da série tem desdobramentos inesperados que o impossibilitam disso. Xu Jun Hao (Li Zi Shuo), por outro lado, deixou um segredo gravado em sua fita, esperando que ele conseguisse se libertar daquilo nos dez anos que se passariam, o que não ocorre. É uma realidade bem próxima de nós e que nos faz ter empatia por sua situação.

Entre os defeitos da produção (ou que assim pode parecer), destaco a duração dos episódios. É complicado recomendar uma série dividida em sete episódios de mais de oitenta minutos cada. Mesmo assim, os episódios e a história são cativantes, então pode ser que isso não se torne um obstáculo. A bela fotografia auxilia no processo, além da forma como algumas cenas foram gravadas, nas quais há a repetição de algo que já vimos. Há uma investigação que tem um desfecho estranho, principalmente levando em conta a pessoa responsável por ela, mas isso não tem relevância ao ponto de incomodar.

Close Your Eyes Before It’s Dark
Close Your Eyes Before It’s Dark

O maior motivo para recomendar Close Your Eyes é o episódio exibido no dia 17 de fevereiro, o sétimo e último. Ele é, sem dúvidas, um dos melhores episódios de mistério exibidos na televisão esse ano. O desfecho, a explicação e as consequências são melancólicas e inesperadas. Retomamos a história e passamos novamente por diversos pontos, mas dessa vez observando fatos que pareciam sem importância. É quando percebemos que o jogo de manipulação e rancor sempre existiu entre essas pessoas, além da contínua provocação, competição e menção indireta ao poder que cada um tem. O último seguimento escancara as relações ocultas, os sentimentos não declarados e nos provoca diversos sentimentos contraditórios. São mais de oitenta minutos bem dirigidos, atuados e escritos: nada sobra ou falta.

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Close Your Eyes Before It’s Dark não é somente uma série de mistério, mas uma alegoria sobre a falsa crença que temos no amor, nas amizades e o quão frágeis são essas coisas, uma vez que se influenciam por tudo que as rodeiam. É uma história sobre a tragédia da vida adulta, que aborda o desencontro entre expectativa e realidade. Não só um jogo de vítimas e assassinos, mas uma fábula triste sobre oito pessoas presas no limbo, tendo que encarar os próprios rancores.

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Este post faz parte do segundo ano do #MêsDoHorror no Série Maníacos. O objetivo é falar, durante o mês de outubro, sobre séries de horror e mistério (ou que esbarram nesses dois gêneros) que não tiveram textos durante o ano — contemplado entre outubro de 2016 e setembro de 2017.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
close-your-eyes-before-its-dark-melhores-misteriosClose Your Eyes Before It’s Dark não é somente uma série de mistério, mas uma alegoria sobre a falsa crença que temos no amor, nas amizades e o quão frágeis são essas coisas, uma vez que se influenciam por tudo que as rodeiam.