Se a definição de privilégio se estende para mais de um significado, o contexto social em que vivemos trata de multiplicar esse número. Então, quando se fala de privilégio, está se falando de muita coisa, motivada por muita coisa e que resulta em muita coisa. Vou falar somente de um: o privilégio da ilusão infantil voltada ao mundo. Explico-me: conforme crescemos, percebemos como o mundo trata as pessoas de forma desigual e somos mergulhados em um mar de desigualdades. Alguns conseguem manter a ilusão do mundo enquanto são crianças. Até então, as coisas não parecem tão ruins. Isso eu chamo de um tipo de privilégio. Para outros, é preciso desde cedo aprender a lidar com o mundo, aprender as regras com as quais você terá de jogar. A protagonista de Insecure faz parte desse segundo grupo.
Não vou defini-la dessa forma, entretanto. Issa, que acompanhamos nos oito episódios que compuseram a primeira temporada, não é só uma mulher que conhece a hipocrisia e injustiça da sociedade em que vive, mas alguém capaz de tirar sarro dessa situação enquanto tenta mudar a realidade para outras pessoas. A ajuda que ela pretende fornecer é a partir da própria empresa em que trabalha, na qual há um programa de ajuda a crianças negras no ensino fundamental. Ela, que entende a dificuldade de crescer sem perspectiva, principalmente quando a sociedade já te empurra para certo caminho, compartilha suas experiências, sem muito sucesso a princípio.
O que encontramos nos primeiros episódios é uma mulher perto dos trinta anos e assustada não só com a idade, mas onde sua vida está. Ela mora com o namorado, atualmente desempregado, há anos, e há anos vai deixando de lado as coisas que realmente deseja fazer. Quando isso chega ao cume, ela começa a dar alguns passos em busca de mudança, em busca de uma nova postura, uma nova vida. Issa passa a ser aquela que se importa com tudo o que tem relação consigo, não a que não se importa com nada.
Como a série pretende investigar a vida da mulher negra norte-americana e seus relacionamentos, suas crises e dilemas, seria preciso investir em outras personagens para que estas ajudassem a cobrir um espaço maior no assunto. É quando somos apresentados a Molly (interpretada pela atriz Yvonne Orji), que é o oposto de Issa em diversos sentidos, algo que ambas sabem. Molly é advogada, sabe como se “encaixar” em ambientes corporativos e com os amigos. Seu único dilema é a busca sem fim de um namorado, o que sempre resulta em encontros ruins ou histórias engraçadas para dividir com as amigas.

É através das experiências dessas duas que a série faz uma observação na rotina que mesmo as séries que aspiram a falar sobre o mundo feminino deixam passar. A produção se encaixa na onda mais que bem-vinda de séries que abrem espaço para que os protagonistas de suas lutas não dependam de uma representatividade mesquinha para que suas histórias sejam contadas. Em Insecure, a atriz Issa Rae não só protagoniza a série, como é responsável por sua criação (em parceria com Larry Wilmore, produtor de Black-ish), assina o roteiro de três episódios e colabora na produção executiva. O envolvimento de pessoas que entendem sobre o que estão falando fica evidente conforme assistimos à temporada.
Aliás, se há uma coisa que podemos atestar depois de uma rápida maratona é isso: Issa compartilha experiências, divide um pouco de si com a personagem e sabe como tratar a questão racial de seu país. É tudo feito com respeito, principalmente porque é feito por alguém que é afetado pelos conflitos encontrados na série. A atriz divide suas inseguranças, que deixa transparecer em entrevistas, falando abertamente sobre isso. Inseguranças que foram exploradas na websérie Awkward Black Girl, responsável por lhe dar certa notoriedade no meio.

Durante os oito episódios, passeamos pela insegurança em diversos estágios, desde o questionamento à culpa. Enquanto Issa reflete sobre a vida que leva e Molly sabota os possíveis relacionamentos, percebemos que certos medos se fazem presentes em nossa vida por mais tempo do que esperávamos. O adulto não tem resposta para tudo.
Boa parte dos episódios se preocupa em explorar a trama das protagonistas, lembrando-nos muito de outras séries e de outras personagens. Quando Issa se sente tentada a deixar o relacionamento estável de anos por uma paixão do passado, por exemplo, outras personagens da ficção podem surgir em nossa memória para que estabeleçamos um paralelo. Sendo assim, algo que não valoriza a série é a despreocupação em diversos momentos em não procurar para si uma identidade. Esta aparece em esboço nos episódios que a criadora escreveu e deveria ser refletida no restante. O que acontece, porém, é que Insecure estabelece sua trama e dialoga com seus conflitos, entrando em fórmulas e receitas de outros seriados.
Deixando essa questão de lado, a qualidade na série se mostra presente justamente no tratamento de suas personagens e onde busca a comédia de seu roteiro. Isto é, na maioria do tempo, Insecure é divertida, mas não engraçada — ou talvez seja engraçada de acordo com o nível de identificação de cada um com as tramas abordadas. A observação não prejudica a série, entretanto: a série é uma comédia adulta e sabe que é uma comédia adulta, portanto não apela para o humor fácil que vemos por aí. E por mais que abuse de palavrões e uma linguagem nada acessível ao público livre (o que se estende para cenas de sexo), não é aí que habita a identidade adulta da produção. Eu diria que está no próprio tratamento das histórias, nos problemas apresentados e nas resoluções escolhidas para eles.

Outro destaque positivo é a química do elenco, que sabe aproveitar seu bom casting. Issa Rae e Yvonne Orji funcionam bem tanto separadas quanto juntas, fazendo-nos acreditar que há de fato uma amizade entre elas fora das telas. Jay Ellis, que aqui interpreta Lawrence Walker, namorado de longa data da protagonista, brinca com a dualidade da personalidade de sua personagem, criando durante muito tempo uma expectativa para um caminho e embarcando em outro quando o roteiro se permite uma reviravolta. Lisa Joyce também faz uma boa participação e eu gostaria que sua personagem fosse mais explorada, por mais que eu entenda o caminho escolhido.
Não tem como deixar de comentar a trilha sonora da série. É perceptível o esforço em encontrar músicas que conversem com o clima que a série tenta criar para si e suas personagens. Daria para facilmente fazer um TOP 10 de bons achados entre as músicas que o seriado nos apresenta.
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Insecure estreou em outubro do ano passado na HBO e não demorou muito para ser bem recebida pela crítica, embarcando em diversas listas entre as melhores séries do ano. Os críticos aplaudem a abordagem dos temas e suas conclusões. Além de racismo (sempre necessário para que o público se encare ou encare sua sociedade), a série fala sobre sexualidade feminina, solidão da mulher negra, amizade, relacionamentos e todos os temas que se interligam aos citados.

Com a segunda temporada estreando esse final de semana, dia 23, é a hora perfeita para ficar em dia com Issa e suas escolhas contraditórias, confusas e constrangedoras. Não poderiam ser de outra forma, afinal, Issa não é um pedaço de personagem estereotipada para ser representada em tela. Assim como a atriz representa esses idealizadores que escrevem, atuam e vendem suas séries, a personagem representa o mais perto que a ficção chega da realidade. E não se aproxima por acaso, mas porque quem escreve sabe sobre o que está falando — e com total segurança sobre isso.
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ps:
A HBO pretende liberar o primeiro episódio da segunda temporada durante certo período na HBO GO, então vale a pena ficar de olho, não só para conhecer essa série, mas para, de repente, experimentar o serviço.
















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