O Dia do Juízo, segundo a crença bíblica, é o dia em que todos prestarão contas sobre seus erros durante seu período na Terra. Não há como escapar da justiça divina, muitos dizem, mesmo quando a justiça dos homens é incapaz de tocar alguém. Sendo assim, é por esse dia que muitos esperam e é por esse dia que muitos oram. Naqueles que acreditam que na vida há equilíbrio e que o sujeito há de pagar, a paz se instala mais fácil. Mais cedo ou mais tarde, dizem. Para os outros, que não conseguem deixar o dia passar sem sentir que a falta de punição diante de alguns cidadãos é quase uma ofensa a si, bem, para esses só resta a amargura de conviver com muito desgosto em mundo tão de cabeça para baixo. Ou há de se planejar uma forma de punir os culpados quando todos se recusam a fazer isso. E é isso que a mente por trás de E Não Sobrou Nenhum decidiu fazer.

Há casos em que, dentro da lei, não há como provar a culpa de alguém. Fica claro para quem conviveu por perto a negligência e a intenção, mas, para a lei, a pessoa não fez nada que pudesse lhe incriminar. Encaixando-se nesse perfil, por mais que só saibam mais tarde, oito pessoas chegam a uma ilha como convidadas. Chegam pouco antes de uma tempestade, do clima piorar de vez e os isolar por ali. São desconhecidas entre si. Ouviram, talvez, uma ou outra coisa sobre outro convidado quando nomes são falados, mas nada muito íntimo.

“Não havia recantos sombrios nem painéis corrediços; o espaço era inundado de luz elétrica — tudo era novo, limpo e brilhante. Não havia nada escondido naquela casa, nada oculto. Não havia nada ali que lembrasse remotamente uma atmosfera sinistra.

De certa maneira, isso era o mais assustador de tudo…”

— trecho de E Não Sobrou Nenhum, Agatha Christie.

Foto promocional com todo o elenco da minissérie.
Foto promocional com todo o elenco da minissérie.

Foram parar ali a convite do Senhor Owen, que não está na casa para recebê-los, mas que logo estará presente… Ou pelo menos é o que diz o mordomo, que também nunca viu o próprio patrão. Acontece que mesmo os dois empregados, ele e a esposa, estão ali há uma semana e tudo fora arranjado por carta. Não estranharam, afinal, o dinheiro era muito, a casa, conhecida de todos: a mansão na Ilha do Soldado, palco de festas fantásticas e em posse de figuras polêmicas. Após o jantar, durante um café, uma voz no gramofone, uma gravação, pede silêncio e acusa a cada um dos dez de homicídio, citando o nome das vítimas, inclusive. O que a voz não diz, e aos poucos eles descobrem, é que a pretensão é que a vida tirada seja paga com outra vida, exemplo dos tempos bíblicos aplicados até hoje. Assim, um por um, cada um será ceifado pelo justiceiro entre eles.

A forma como cada um chega a um destino trágico não é aleatória: se encaixa em um poema infantil, que todos conhecem, no qual dez soldadinhos vão perecendo acidente após acidente, até que, como diz a música, não sobra nenhum.

“Dez soldadinhos saem para jantar, a fome os move;

Um deles se engasgou, e então sobraram nove.

Nove soldadinhos acordados até tarde, mas nenhum está afoito;

Um deles dormiu demais, e então sobraram oito.”

O Livro:

“Era como se, em busca de segurança, se agarrassem uns à companhia dos outros.” E Não Sobrou Nenhum, Agatha Christie, GloboLivros página 113.
“Era como se, em busca de segurança, se agarrassem uns à companhia dos outros.” E Não Sobrou Nenhum, Agatha Christie, GloboLivros página 113.

And Then There Were None (aqui no Brasil lançado pelos títulos: E Não Sobrou Nenhum, O Caso dos Dez Negrinhos e O Vingador Invisível), originalmente o polêmico título de Ten Little Niggers, é um livro de mistério escrito pela escritora mais famosa do gênero, Agatha Christie, e publicado em 1939. É considerado por muitos não só seu melhor livro como o melhor livro dessa categoria. Ele tem uma das melhores vendagens de livros em geral e é reeditado até hoje. As adaptações são diversas, desde cinema, passando por teatro, rádio, videogame e televisão. Recebido bem também pelos críticos, muitos apontam a engenhosidade na construção da trama, que é realmente um ponto que fica claro quando lemos o epílogo, onde está a explicação e o desfecho do mistério.

Além de ler e reler o livro, e assistir ao seriado raiz desse texto, pude assistir a uma peça, ano passado, encena em São Paulo. A adaptação, dirigida por Rafael Mallagutti, que também esteve no elenco, ficou em cartaz no Teatro Brigadeiro. Por mais que não conseguisse abraçar a complexidade do livro, e se tornar uma peça histérica em alguns momentos, foi uma experiência divertida e o texto de Agatha proporciona uma boa narrativa para se brincar em cena. A própria autora dramatizou seu livro em 1943.

Em 1945 houve a primeira adaptação norte-americana, em filme que hoje se encontra sobre domínio público, dirigida por René Clair. A película em preto e branco, aclamada mesmo atualmente pela crítica, não segue a seriedade da obra e deixa muito de seu tempo recaindo sobre a comédia, tanto em sua trilha sonora quanto no roteiro. Mesmo tendo tomado diversas liberdades no momento da adaptação, principalmente de acordo com o passado de cada personagem e com o final, o filme é considerado o melhor nesse sentido.

Imagem do filme And Then There Were None de 1945, primeira adaptação norte-americana para o cinema.
Imagem do filme And Then There Were None de 1945, primeira adaptação norte-americana para o cinema.

“Oito soldadinhos vão a Devon passear e comprar chiclete;

Um não quis mais voltar, e então sobraram sete.

Sete soldadinhos vão rachar lenha, mas eis

Que um deles cortou-se ao meio, e então sobraram seis.”

É perceptível para mim que há uma forte carga dramática e de terror psicológico no livro, e isso é reafirmado pelo epílogo. O filme de 45 não se aproveita disso, e acredito que esse tenha sido seu erro. Nesse caso, prefiro o seriado e as investidas visuais que ele faz para cobrir o papel do narrador, que tanto contribui no decorrer do enredo.

Os Suspeitos e Acusados:

Algo que é bem trabalhado no livro, mas se perde na série, é a boa divisão entre as dez pessoas na ilha. Não sentimos que há algum protagonista declarado. Todos têm a mesma importância ou falta de importância… O mesmo peso. São eles:

Os acusados: Thomars Rogers (Noah Taylor), Ethel Rogers (Anna Maxwell Martin), Lawrence Wargrave (Charles Dance) e William Blore (Burn Gorman)
Os acusados: Thomars Rogers (Noah Taylor), Ethel Rogers (Anna Maxwell Martin), Lawrence Wargrave (Charles Dance) e William Blore (Burn Gorman)

Anthony Marston, um rapaz bem de vida que vive sem medir as consequências dos próprios atos, responsável pelo atropelamento de dois jovens, para seu azar… Digo, para o azar deles. O juiz Wargrave, inteligente e prático, acusado de ter influenciado o júri para condenar um homem inocente à forca. Vera Claythorne, que chega à ilha contratada pelo Senhor Owen como secretária, sabe seu lugar no mundo e está sempre às ordens. Trabalha em uma escola para jovens depois de um incidente no seu antigo trabalho, quando um garoto se afogou e ela chegou tarde demais para salvá-lo. A senhorita Emily Brent, religiosa, séria e inalterável, sequer se prontifica a se defender. Estava correta ao abandonar aquela jovem que cometeu o absurdo de ficar grávida. Que ela tenha se suicidado após o abandono não é culpa sua.

Os acusados: Vera Claythorne (Maeve Dermody), Philip Lombard (Aidan Turner), Emily Brent (Miranda Richardson) e Anthony Marston (Douglas Booth)
Os acusados: Vera Claythorne (Maeve Dermody), Philip Lombard (Aidan Turner), Emily Brent (Miranda Richardson) e Anthony Marston (Douglas Booth)

William Blore, diferente do livro, aqui é acusado de espancar um homossexual até a morte. O general MacArthur, enquanto isso, teria mandado um soldado sobre seu comando a certo ponto, durante a guerra, que proporcionaria sua morte por conta de ser amante, à época, de sua falecida esposa. Philip Lombard teria matado mais de vinte homens na África, coisa que ele não nega assim que acusado. Foi homem, durante toda sua vida, que deu seu jeito para conseguir suas coisas e sobreviver: coisa que também pretende aqui.

Os acusados: Doutor Armstrong (Toby Stephens) e General MacArthur (Sam Neill)
Os acusados: Doutor Armstrong (Toby Stephens) e General MacArthur (Sam Neill)

O doutor Armstrong operou, segundo a voz, um paciente e, por estar bêbado, matou-o na cirurgia. Quanto aos mordomos, os Rogers, teriam se livrado da ex-patroa para ficar com o dinheiro que ela lhes deixara.

“Seis soldadinhos com a colmeia, brincando com afinco;

A abelha pica um, e então sobraram cinco.

Cinco soldadinhos vão ao tribunal, ver julgar o fato;

Um ficou em apuros, e então sobraram quatro.”

Tão presente no livro quanto na série, mas talvez mais perceptível nesta, é a falta de necessidade da história em criar heróis e alguém com quem possamos simpatizar. Quanto mais descobrimos, mais percebemos que não só eles são culpados, como qualquer um ali mataria a todos os outros se isso significasse que sairia vivo da ilha. As personagens têm diversas camadas, e vamos decifrando conforme os episódios passam. Isso beneficia a segunda leitura do livro também, quando, conhecendo-os mais a fundo, podemos ler a intenção por trás de algumas falas e ações. O perfil deles pode parecer raso, mas não é o caso. Acontece que Agatha, assim como não deixava sua narrativa muito mastigada, por mais que sua escrita fosse simples, não tinha intenção de usar muitas palavras para elaborar o caráter de suas personagens, que é um dos maiores erros dos escritores prolixos contemporâneos. Ter essas personagens de senso duvidoso também ajuda a história a ficar mais crível, honesta. Outra coisa que favorece o enredo é a falta de um dos detetives famosos de Agatha, o que nos deixa a ideia de que qualquer um está suscetível à morte.

A Minissérie: 

And Then There Were None, a aclamada minissérie dividida em três partes, foi ao ar entre os dias 26 e 28 do ano passado pela BBC, concebida como marca do 125º aniversário da autora. Ela foi adaptada por Sarah Phelps, também responsável pela versão televisiva de The Casual Vacancy, livro de J.K. Rowling. A direção ficou a cargo de Craig Viveiros.

“Quatro soldadinhos vão ao mar; um não teve vez,

Foi engolido pelo arenque defumado, e então sobraram três.

Três soldadinhos passeando no zoo, vendo leões e bois,

O urso abraçou um, e então sobraram dois.”

A escolha do elenco é ótima. Maeve Dermody (reconhecida por mim por Marcella, sobre a qual conversamos por aqui) consegue brilhar como Vera e passar as alterações que a personagem faz durante o seriado de forma natural. Quando o final se aproxima e ela decide propor o mais inimaginável para sobreviver, o público consegue comprar essa imagem dela, por mais que lhe deteste por isso. Anna Maxwell Martin (Midwinter of the Spirit, que também tem texto no site) está excelente. Charles Dance (o Tywin Lannister de Game of Thrones) talvez seja o rosto mais conhecido junto com Sam Neill de Jurassic Park.

A atriz Maeve Dermody (Vera) se destaca do elenco por conta de sua personagem e atuação crível.
A atriz Maeve Dermody (Vera) se destaca do elenco por conta de sua personagem e atuação crível.

Quando assisti à série, tive a impressão de que ela dava diversos passos para o horror e se distanciava do livro por isso. Isto é, há fantasmas pela casa, aparições e sonhos, todos combinados pela obscuridade do lugar. Ao reler o livro, entretanto, percebi que está tudo lá, desde o pesadelo às visões das personagens, mas, novamente, nem tudo é apontado pela autora em descrições muito óbvias.

“Dois soldadinhos brincando ao sol, sem medo algum;

Um deles se queimou, e então sobrou só um.

Um soldadinho fica sozinho, só resta um;

Ele se enforcou,

E não sobrou nenhum.”

And Then é elegante. Desde sua abertura, fica a sensação de sofisticação. O figurino é bom e a ambientação também. O roteiro é rebuscado e sabe o que utilizar da obra clássica. A direção e a fotografia exploram bem as instalações. O ritmo do seriado também é bom, sem que ele perca tempo excessivo com investigações, como acontece no livro e ponto que alguns apontaram como um senso de monotonia. Aqui a edição parece interessada em colocar a história em moldes de horror, o que a beneficia.

Quando o terceiro e último episódio começa, estamos com cinco soldados. Mesmo que dez pareça muito, chegamos nessa quantidade sem entender muito bem como, e conforme o número vai diminuindo só pensamos que a pessoa responsável por isso tem o dobro de astúcia do restante. Em pouco tempo, temos três. Em pouco tempo, temos dois. Os sobreviventes se entreolham, incrédulos, à espera do que irá acontecer. O que acontece é que a sobrevivência será prêmio do melhor — isto é, do pior deles. Há somente um ponto que é difícil digerir, no momento da explicação (assim como há no livro), mas dá para relevar. Às vezes melodramática, mas sempre corajosa, essa adaptação de Agatha foge em poucos momentos do material de origem. Na maior parte do tempo, arquiteta sua trama e seu elenco para lhe consagrar dentro da história do horror e mistério na tevê.

“Quando o mar se acalmar, barcos e homens virão da terra firme.

E encontrarão na ilha do Soldado dez cadáveres e um problema insolúvel.”

— trecho de E Não Sobrou Nenhum, Agatha Christie.

 

ps: os trechos utilizados aqui foram retirados da edição do livro de 2009 pela GloboLivros, na tradução de Renato Marques de Oliveira.

pps: acho And Then There Were None (E Não Sobrou Nenheum) infinitamente melhor ao título original.

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#MêsDoHorror

Esse post faz parte do projeto #MêsDoHorror que tem como objetivo falar, durante outubro, de séries de horror/mistério/fantasia que não tiveram textos aqui no SM no período de 01/10/2015 a 30/10/2016.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.