Muitas vezes, a loucura só precisa de um empurrãozinho.
Desde que adolescentes começaram a matar pessoas dentro de escolas americanas, que a mídia joga na roda das relevâncias uma série de discussões sobre o papel da educação nesse tipo de comportamento. As mazelas da cultura social dos EUA começaram a implodir a partir de Columbine, e com a ajuda de argumentações prontinhas para consumo (Michael Moore que o diga), tudo passou a ser uma discussão sobre o mal adquirido e não nato. O americano bélico, que caça, que age como o implacável predador, entendendo esses traços como imprescindíveis para a construção de uma “nação abençoada”… Mas, até que ponto a loucura é uma reação às pressões do mundo?
Desconfio que The Walking Dead quis colocar em Carol, a culpa por tudo de ruim que aconteceu essa semana na série. Sempre digo que fatores externos não são suficientes para acordar demônios, já que eles precisam existir para serem provocados. Ao mesmo tempo, não há nada mais perigoso do que associar o mal a uma deficiência fisiológica. Precisa haver culpados táteis ou os julgamentos perdem todo o sentido. É uma contradição agridoce, que faz uns penderam pra uma coisa mais do que pela outra, sem esquecer-se de levar em consideração que cada caso merece uma atenção focada e distinta.
Me forço a avaliar esse episódio esquecendo todas as nossas frustrações porque, enfim, ao menos esse teve algo a nos oferecer. Sinto que a forma como Lizzie e Mica interpretam a transformação dos walkers sempre foi desperdiçada pelos roteiros. A mim, sempre pareceu fantástica a ideia de ter crianças que apesar de tudo, não se libertaram do seu modo pouco prático de olhar para o mundo. Fazia sentido que algumas das crianças presentes no enredo, tivessem uma maneira particular e lúdica de lidar com tamanho horror. Histórias sobre infantes que se relacionaram, eventualmente, com “monstros”, estão aí aos montes pra gente ver.
Como sempre, entretanto, The Walking Dead derrapa na condução de seus dramas, esvaziando a importância de seus eventos com preguiças textuais indesculpáveis. Até o momento em que chegamos nessa nova (e outra) casa vazia, a inserção da metáfora da semana apareceu com certa sutileza. Mas, depois de uma conversa entre Carol e Mica em que a menina reafirma não poder assassinar nem mesmo um dos mordedores, o roteiro se atropela, arma uma situação tola, chapada, quase ridícula, somente para que ela dê um tiro.
Costumamos dizer no teatro que você não pode pular etapas na emoção e passar do tranquilo para o furioso em poucos segundos. Isso não torna as coisas verossímeis e então, a plateia não compra. Sendo assim, ainda que o conteúdo das cenas envolvendo Lizzie estivesse dentro do contexto justo, a forma era apressada, sem latência e apoiada apenas no descontrole. Sem usar cenas que preparassem o terreno, os momentos em que a menina se descontrolava acabavam ocos. Até Carol matar Griselda, estávamos sendo preparados para uma compreensão de como Lizzie pensava, algo que vinha sendo desenhado e era, eventualmente, esquecido. Nessa cena, pulamos várias etapas dessa compreensão, chegando a extremos histéricos que precisavam acontecer em poucos blocos, para justificar o grande momento que veríamos no último.
As coisas se complicam mais quando as contradições de Lizzie não são bem justificadas. Uma hora ela se aproxima dos walkers deliberadamente, como se sua opinião estivesse absolutamente formada. Em seguida, se assusta com eles, os teme e até os mata. Age para proteger a irmã de um deles, para em seguida querer transformá-la em um. Estamos no âmbito da loucura aqui? Estamos, isso é evidente, mas Lizzie foi conduzida a um extremo apoiado numa ideologia, que quando abandonada enfraquece, pra mim, essas motivações. Compreendo perfeitamente que muitos acreditarão que Lizzie ajudou a parar os walkers para que ela mesma agisse em seguida, segundo a própria organização, mas ainda acho que se a série tivesse sido mais atenta na construção da personagem (sem esquecê-la por semanas), essas contradições pudessem ser transmitidas com mais competência, sem espaço para dúvidas.
Usar a loucura como desculpa para certas atitudes é escorregadio. Quando Lizzie se descontrola porque Carol matou Griselda, está nos revelando seu estado terminal de consciência (ela viu, milhões de vezes, do que os walkers são capazes) e precisávamos sim, de muito mais tempo para compreender o que a leva a ignorar isso. Em um momento ela atira neles, no outro, mata a irmã para convencer os outros de que os walkers podem ser domados. Não ajuda quando ela é pega no ato do assassinato e Carol a convence a entrar na casa com Judith com argumentos toscos, típicos de quem precisa convencer um louco a soltar a arma. Lizzie conhece Carol o suficiente para saber que ela não deixaria Mica se transformar (inclusive apontando uma arma pra ela). Loucos podem ter lampejos de sanidade, mas os vislumbres de insanidade de Lizzie parecem muito mais a serviço da trajetória necessária, do que fruto de organicidade.
Estou sendo louco de cobrar coerência de uma menina desequilibrada? Claro que estou, e é aí que está a cartada irrefutável da série. Não existem argumentos viáveis quando o rebate vai ser: “A menina surtou, você queria o quê?”. Estou secando gelo aqui, porque nenhum desconforto com a condução da história vai resistir à invocação da loucura. Acho terrível a cena da morte de Lizzie “olhando para as flores”, numa marcação de cena desajeitada, sem sentido nenhum, ávida por poesia. Mas, sei que muita gente não vai questionar isso, porque, simplesmente, “a menina estava maluca”.
Preciso admitir que gosto do conceito desse episódio, acho que ele tem extremo potencial, e foi realmente angustiante. Mas não sou capaz de ignorar esses buracos conceituais que invocam uma expectativa que a série não entregou. Lizzie e Mica não eram o centro emocional dessa semana (Carol era), foram usadas como alegoria, mas se transmitiram numa exigência de força dramática que não condizia com a trajetória delas até aqui. No final das contas, as culpas veladamente atribuídas à Carol é que acabaram sendo definitivamente REAIS. Ela se endureceu, educou crianças para se protegerem (como sua filha não pode) e encontrou no caminho, uma que não foi influenciada da maneira mais segura. Se alguém se mata por amor, como Julieta, você não pode culpar Shakespeare. Mas esse foi um episódio sobre as culpas que Carol realmente tem, e as que ela insensatamente, se atribuiu.
De todos os episódios dessa leva pós-prisão, esse foi o mais impactante pra mim. Esse foi o que nos desafiou à análises menos superficiais, ainda que tenha tropeçado na preguiça de alguma conduções. Como sempre, The Walking Dead se apoia em fórmulas seguras, mas com vislumbres de alguma qualidade. Ao menos nessa semana, mais do que a velha “filosofia da casa vazia”, tivemos a alegoria do coração cheio. Cheio de medo, cheio de culpa, cheio de torpor, cheio de fantasia, cheio de loucura…
Random Bite: Crianças no elenco nunca sobrevivem e isso deve ter a ver com o problema da idade avançando num tempo muito desregulado do tempo da narrativa. Acho que já teriam matado o Carl se ele não fosse, enfim, o Carl.















![The Walking Dead: The Ones Who Live 1×06: The Last Time [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2024/04/img1-218x150.jpg)