Quando um bom episódio poderia ser ótimo.

Retornando após um considerável hiatus, TVD nos colocou no hoje sem nos explicar o ontem, ou melhor, sem nos explicar os três anos de ontens, substituindo os flashforwards pelos flashbacks, e deixando-nos no ponto de vista daquele que determinou todo o andamento do episódio: Damon. Todas essas perspectivas acabaram deixando o episódio bastante anti-didático e um pouco confuso em alguns momentos, mas, ainda assim, pareceu uma escolha acertada o fato de irmos descobrindo os acontecimentos do ponto de vista daquele que se absteve de se posicionar em meio ao caos, o que, por consequência, deu pouquíssimo espaço para reflexões e abriu um enorme precedente pra imediatidade.

A primeira e mais evidente falácia construída no episódio foi aquela que tentou subverter aquilo que tinha sido construído até então: a tal da conexão mística. Sob o argumento de uma ligação supernatural, Rayna adquiriu uma compaixão quase que instantânea por Stefan, e quem não adquire, né non minha gente? Moço cavalheiro, bem-apessoado, dos traços delicados e cheio das boas intenções – Stefan é tudo aquilo que uma mulher do mundo real não procura em um homem! Ou você vai me dizer que entre observar estrelas ou embaçar vidro de carro, essa hora você não estaria fazendo um bom uso do câmbio automático? Mas não é assim que funciona em TVD! Pois bem, se antes Rayna chegou até a dar umas voltas por New Orleans em busca de Stefan, exterminando um clã de bruxos que estava dando muito trabalho em The Originals, agora, ela sequer consegue se desvencilhar da tal conexão imbatível que adquiriu por Stefan, e dar um mera facadinha em Damon, tampouco consegue parar de ouvir umas tais vozes imperativas em sua cabeça. Conveniência de roteiro, ao molho nonsense.  Onde tava essa perversa conexão em todas as outras vezes que ela desviou seu caminho ou topou com outros vampiros? Três anos prisioneira mudaram a perspectiva da caçadora? Muito pelo contrário: se eu ficasse três anos assistindo a vida de Stefan, muito provavelmente, eu é que me marcaria. Ou, ao menos, teria certeza de que marquei a pessoa certa.

Nós estamos cansados de saber que Damon é um belo de um canalha, egoísta, nada empático e, portanto, mais que merecedor de passar mais alguns dias no pesadelo da Phoenix, mas, no contexto, isso não importava, ele não estava marcado, então, na lógica, bola pra frente, #partiuesfaquearStefan, e, se desse, passar o cerol no Damon pelo caminho. Mas não, não teria como a série não criar mais um dilema moral para Damon, mais uma tentativa de desconstruir tudo aquilo que ele construiu na presença de Elena, isto é, quando ele era dos de boas. Porque não deixar evidente, mais uma vez, que Stefan não é a prioridade de Damon? Porque não reforçar o quanto ele é melhor com Elena? Por outro lado, não poderiam, também, deixar apagar a figura do anti-herói que Damon representa, então, para contrabalancear, tinham que deixar claro que, enquanto Damon dormia, Rayna dormia também, ou seja, ele, em momento algum, deixou de ajudar o irmão, já que ele não passou por nenhum contratempo com a dublê de Elena. Tá perdoado! Agora vai lá e deixa seu irmão morrer de novo. Um perdão expresso àquele que relativiza o conceito de perdoar e, quase sempre, não respeita o limite do outro.

Bom, independentemente destas considerações arbitrárias de roteiro, não se pode deixar de lado que Rayna continua sendo aquilo que de melhor a série tem para oferecer. O fato da imortalidade da moça ter sido resguardada de todos os lados é o grande achado do roteiro: quando não lhe resta mais vidas do ritual, ela acaba se resguardando pelas marcas que causou e, na ausência delas, há o Arsenal e seu interesse em mantê-la viva para testes. Embora esse último caso ainda não tenha sido bem desenvolvido, é perceptível que, de algum modo, eles serão um empecilho à morte da vilã e, tantas garantias, aliadas à atual vulnerabilidade da vilã, acaba ampliando os possíveis caminhos de roteiro e dificultando desfechos preguiçosos como os que tiveram Kai e Julian.

Por fim, tivemos o último ato de Nora e Mary Lou. É engraçado como a morte acaba trazendo um pouco de sensibilidade e perdão desmedido às babaquices alheias, afinal, em qualquer outra situação eu estaria vibrando com as lágrimas de sangue do casal, mas, naquela conjuntura, o final da linha acaba trazendo uma importância aos personagens que eles nunca tiveram, e acaba, também, infeliz e literalmente, sendo esta a última impressão que fica. E mais do que isso, o tal sacrifício, muito provavelmente, será em vão. Não faria muito sentido se a dona da pedra phoenix retornasse das cinzas e a própria pedra não tivesse a mesma condição. Queimou, ressurge, é daí que vem o nome do mito do pássaro fênix. Além do mais, Stefan precisa voltar de algum modo, e seria mais coerente o retorno pela pedra do que algum tipo de magia tirada do bolso para solucionar mais esse problema.

Falando nisso, o que dizer do feitiço de transferência? O ápice do mau-caratismo criativo. Diversas vezes eu já comentei nas reviews que o fato de TVD tratar-se de uma série de teor fantástico acaba trazendo inúmeras possibilidades para seus plots, e que eles não se abstém de qualquer senso crível para utilizá-la, e esse é só mais um dos exemplos. Ok, o “x” pode ser transferido. Bola fora por si só. Então vamos transferir para o tio da fila do pão. Opa, espera, tem que ser difícil, e só pode para outro que possui laços familiares. E porque com Jo não funcionou assim? Ué, porque na época isso não era importante. E é exatamente a falta de constância que impede a série de crescer, de surpreender por inovar, e não por simplesmente empurrar aquilo que cabe no momento. Enfim, um bom episódio, mas que poderia, pelo dito, ter sido ótimo!

P.S.1: Conexão mística is the new imprinting, minha gente.

P.S.2: Quem não entendeu a referência acima, não tem nada a ver com a Dilma, mas com Crepúsculo. Jacob, Renesmee, vampiro, lobisomem. E o tanto que o moço Jacob engordou?

P.S.3: O P.S.2 foi patrocinado pelo EGO – Famosos e famosas do Brasil e do Mundo.

P.S.4: Matt tá todo bravinho com Stefan. Fez até Rayna prometer que perseguiria Stefan incansavelmente até colocá-lo na pedra phoenix. Mas, tipo, já não era isso que ela tava fazendo?

P.S.5: Caro Enzo, uma ligação envolvendo vampiros só não será trote se ela acontecer na cidade de Townsville. Melhore.

P.S.6: O P.S.5 é mais um publipost, agora patrocinado pelo Cartoon Network. Após 10 anos sem episódios novos, As Meninas Superpoderosas retornam às telinhas. Não percam!

P.S.7: Anuncie aqui.

P.S.8: Entre umas férias viajando com Stefan e ficar dissecando no caixão com Damon, alguém, por favor, pode me trazer um copo d’água?

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