Once Upon a Time não seria nada sem a presença de ótimos vilões.

Um dos aspectos mais fortes dentro de Once Upon a Time são os seus vilões e vilãs. Sempre interessantes e dificilmente unilaterais, os personagens que muitas vezes salvam ou prejudicam a trama central continuam tão importantes quanto o time de heróis e heroínas da série. O maior erro, porém, é não abusar da oportunidade de uma excelente Rebecca Mader, ou um extremamente competente Greg Germann e fazer da história algo deles. Quando existiu a promessa de uma temporada centralizada em um trio de “bruxas” a proposta me encantou, mas a entrega decepcionou profundamente. Exatamente por esse motivo Our Decay excede as expectativas, mas não por ter sido tão importante, e sim por ter saído de uma história que eu já não esperava mais nada. Divertido e extremamente emocional (e enervante), o décimo sexto episódio da quinta temporada de Once Upon a Time mostrou que ainda existe salvação, momentânea, para a trama dos personagens que sempre brilham na série, os antagonistas.

O meu grande problema com a produção e esse é um assunto recorrente desde que foi inserida a gravidez da Zelena, é a visão deturpada que os roteiristas e produtores de Once Upon a Time desenvolvem em seus episódios. Existiu um período em que a gravidez, o ser mãe, era o maior motivador da história. Tenha um filho e você encontrará a sua redenção, a sua felicidade, foram frases utilizadas no passado. Uma visão bem distante da realidade e da diversidade da figura feminina. Depois, quando necessário, moldaram a personalidade da Zelena de uma maneira que a única forma de manter a bebê Pistache a salvo seria excluindo-a totalmente da equação, mas a justificativa adotada para afastar uma mãe de sua filha foi a pior possível. Apenas quando a Zelena entrega de bom grado o trato de seu bebê para aquele time de chamados heróis, que a coisa realmente começa a fazer sentido. Todo o resto foi sádico, cruel, de partir o coração.

E então entramos em outra discussão extremamente válida: a posição do heroísmo em Once Upon a Time. Não é nenhuma novidade que estamos acompanhando personagens falhos. Na verdade as camadas existentes em Emma, Snow, Charming e agregados confere um status de humanidade muito grande para essas pessoas. Ninguém quer acompanhar o desdobramento da história de alguém que já tem a dita perfeição. Qual é a graça? O que atrai é a imperfeição. Lentamente a série incluiu características que quebram a imagem do herói preto no branco, com apenas duas interpretações do mundo, bom e mau. Só que tudo desmorona consideravelmente quando o antagonista demonstra mais humanidade que o herói.

A dualidade de seus vilões também é outra característica forte da série. Sempre existiu um jogo entre antagonista e protagonista, responsável por dividir o telespectador entre torcer a favor do mocinho e querer o bem do vilão. Regina é o melhor exemplo, mas não o único. Só que para atingir a divisão existe uma descaracterização muito forte. O texto preza sempre por demonstrar extremos para atingir o envolvimento emocional de quem consome aquele produto. Toda criação vive do engajamento sentimental, independente do material construído. Música, seriado, filme, game, livro e afins, sempre existe alguma força por trás para potencializar algo que você já está sentindo, ou movimentá-lo em direção ao que está sendo proposto. Em um filme, além das falas, existem outras peças utilizadas para atingir o objetivo idealizado, como por exemplo: música, iluminação etc. Estamos constantemente sendo “ensinados” a como nos sentir. Once Upon a Time não é diferente, mas escolhe, além dos pontos já mencionados, explodir a cena através de situações exageradas, que muitas vezes não representam o que já foi apresentado. Para que tanta crueldade, especialmente de uma mãe como Regina, que teve a guarda do filho questionada por não atingir as expectativas da sociedade “boa” de Storybrooke?

Toda a história do passado da Zelena serviu para inserir uma motivação apaixonada, além de posicionar a personagem como uma pessoa que lida diariamente com o trauma do abandono. Algo que apenas deixa mais claro, mais doloroso, o sofrimento em ter que abrir mão da própria filha. Só que a decisão precisava ser dela desde o começo. Aquela mulher não merecia chegar ao extremo de ter ferido a própria filha para perceber que não estava apta para cuidar dela – Exatamente porque tirando esse pequeno momento, não existiu nada no roteiro que a barrasse a esse ponto. Que mãe nunca cometeu um erro e acabou deixando o filho cair? Bater a cabeça? Se machucar?

Mesmo que o texto errado e equivocado tenha me deixado nervoso, compreendi a motivação central de Tze Chun e Dana Horgan ao escrever o episódio. É preciso questionar o próprio direcionamento da série em cima da personagem. Entender como a única maneira de humanizar uma agora quase vilã só poderia vir com debate e questionamento. E olha que é bem fácil gostar da Zelena. A bruxa má do Oeste é divertida, ácida e com um coração. O ponto a ser explorado aqui é que existiu uma força muito grande para tentar vender um produto que pode, futuramente, se transformar no verdadeiro e bem sucedido spin-off da série. Do desenvolvimento da Dority, já adulta e com um passado misterioso, para os anos de reinado da Bruxa Má do Oeste, fica até meio difícil não ver uma nova história paralela e com potencial sendo desenvolvida. Por mais calejado que eu esteja com Wonderland, ainda acredito que algo novo e bom poderá sair desta investida. Tudo depende, é claro, da equipe da série, que já demonstrou estar cansada demais para desenvolver algo bom para os seus personagens atuais.

Também ocorreu o desdobramento de um momento muito importante e que poderá fazer toda a diferença para o futuro de dois personagens. Dificilmente boas histórias saem do relacionamento entre Belle e Rumpelstiltskin, mas o motivo é sempre o mesmo, a parcialidade da senhora Dark One. Desde que a série propôs, na segunda temporada, a contar a história da personagem sem a conexão com o sua personalidade “real”, em Lacey, ficou bem claro que Belle é muito mais do que apenas uma menina inteligente e que gosta de devorar livros. Aquele lado menos compreensivo e mais cáustico, apaixonado pelo perigo, demonstrou um lado da personagem que dificilmente o roteiro explora. A fala do Rumpels para a parceira foi perfeitamente coerente com o lado dormente da sua esposa. Belle se apaixonou pela ‘Besta’ e idealizou através daquele homem instável, alguém que ela queria. Não é justo com nenhum dos dois, mas como ela adotou a postura de mocinha, sempre fomos levados a compreendê-la como o lado certo da história. A grande moral é que não existem certos e errados em Once Upon a Time, existem motivações e caminhos. Por isso, pela primeira vez em muito tempo, eu aprovei a trajetória apontada para ambos. Resta saber se o ideal irá sobrepor o imaginário. E considerando cinco anos de série, o caminho já está mais do que límpido para todos nós. O que você vê é o que você tem.

Our Decay é um ótimo episódio dentro de uma maré de instabilidade porque pondera exatamente o que faz a diferença dentro da recriação de histórias de personagens clássicos. Ao contrário do que muitos pensam, não estamos lidando com uma produção que não quer ser original, ao contrário, existe uma assinatura muito forte dentro do roteiro, mesmo que nem sempre o produto final seja condizente com o processo de criação. Acredito que o grande inimigo da equipe criativa é não conseguir passar exatamente aquilo que é idealizado na mesa de produção, após várias horas de discussão e muitas possibilidades. Enquanto capítulos como o décimo sexto deste já abatido quinto ano ainda existirem, a esperança de que ainda tem leite para extrair dessa pedra cresce. O grande e recorrente problema é que nem sempre é o suficiente para alimentar um arco completo, ou um telespectador esfomeado por qualidade.

PS1. Não contente em ter os piores efeitos especiais do mundo e de várias encarnações, Once Upon a Time decidiu criar (do zero) um espantalho, quando na verdade, um homem com palha saindo do peito teria sido a oportunidade de ouro para economizar para a pizza do final de semana e não passar vergonha, mais uma vez.

PS2. Por falar em passar vergonha, quanto será que é o pagamento do adolescente que faz os efeitos da série? Meu palpite é uma coxinha e meio copo de suco.

PS3. Quando o totó em uma cena é mais relevante que o Robin em duas temporadas.

PS4. Belle apareceu levando leite para as crianças e eu fiquei muito confuso. Pensei que ela tinha produzido mesmo sem saber que estava grávida. Acontece.

PS5. Zelena é uma personagem tão boa, que até varrendo o chão é debochada.

PS6. Já que a Disney ama musicais, já podem pegar Dança da Vassoura do Molejo e colocar os munchkins para arrasar na coreografia.

PS7. Estou imaginando o Hades cantando no ouvido da Zelena “É a nova dança da bicicletinha. Sobe encima dela e dá uma empurradinha”.

PS8. Henry está escrevendo no livro e casualmente se esquecendo de tudo momentos depois. Mas ninguém se preocupa com isso. Exploração infantil é tudo mesmo, né?

PS9. Snow e Charming fazendo assombração via telefone. Pior que está, fica.

PS10. Finalmente a série explicou como as crianças estão, para onde estão indo. E eu já até pensei que o plot da próxima temporada seria em cima do Velho do Saco. #MorriaDeMedo

PS11. Eu assistiria tranquilamente uma série com a Zelena e o Hades andando de bicicleta por Oz. Sério.

PS12. Para a bicicleta que eu quero descer. Henry está passando por uma fase complicada lá no submundo. Adolescente rebelde, cheio de hormônios… Será que o livro de histórias já está com páginas grudadas na sessão das sereias? Acontece. ¯\_(ツ)_/¯

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