A fonte de toda a angústia pode ser um pouco de esperança.
Havia um amor que não era correspondido, insistindo em permanecer dentro daquele coração. Era imenso e latente, e oferecia mais plenitudes do que se podia medir. Toda vez que aquele amor se declarava, ele não recebia um sim, mas tampouco recebia um não. Baseado nessa ideia de que um coração vago é um coração acessível, destruiu-se o orgulho e a autoestima de quem pretendia preenchê-lo. O processo da conquista pode ser devastador para a dignidade daqueles que pedem para serem amados… Enquanto houver a expectativa da resposta, da superação da alma, jamais seremos capazes de seguir em frente, olhando pra saída.
Se na semana passada falamos sobre a culpa de ter permanecido, nesse intenso episódio 6 de The Leftovers, falamos sobre a visceral necessidade de preservar a dor. E isso porque livrar-se da dor seria o mesmo que trair a memória daqueles que foram. Nora Durst então, preserva a dela. Ela vai até a escola onde trabalha a mulher com quem o marido lhe traíra e a observa. Ela faz compras para os assentos vazios na mesa de jantar, substituindo os alimentos que já ficaram podres, por outros novinhos. Ela interroga estranhos com os próprios olhos refletindo sua dor… e ela busca pela sensação de morte, porque no caso de o arrebatamento ter sido realmente divino, um suicídio pode acabar representando um afastamento definitivo. Não é como se apenas a sensação bastasse, mas aquele colete que Nora usa na poderosa sequência de abertura, é como a barreira para a coisa mais devastadora que existe dentro dela: a esperança.
Foi um episódio incrível… E se daqui a duas semanas tivermos outro episódio focado num só personagem, também teremos encontrado um padrão em The Leftovers. Primeiro, o caos. E então, a aparente aleatoriedade dos eventos converge num relato cheio de intensidade, que reforça ainda mais o quanto a Partida Repentina derrubou os parâmetros da sociedade. Sim, porque o maior dos efeitos da partida é a desestabilização da instituição social. Um evento como o arrebatamento traz a dúvida, e é a dúvida – tal qual a esperança – que impede o ser humano de se mover nas direções certas. Cheios de dúvida, os indivíduos veem sumir a força das organizações pré-estabelecidas. Porém, esperançosos de um retorno ou de uma resposta, se recusam a deixar a vida voltar ao seu eixo primordial.
Tudo isso ficou muito claro quando a série decidiu – ainda bem – nos dar uma pequena porção de amplitude, nos levando para a cidade grande, nos mostrando que se é a melancolia que reina em Mapleton, é o caos que habita nos corações das metrópoles. Conspirações, seitas, cultos, oportunistas, tudo acontecendo ao mesmo tempo. E o roteiro não poderia ter sido mais acertado quando resolveu revelar esse mundo pelos olhos de Nora, que além de ter perdido toda a família, luta internamente com a incerteza de qual protocolo precisa ser seguido numa situação como essa. Ela sofre intensamente, ouve dos outros que precisa tentar superar, aceita isso ao se envolver com a DROP, mas ao mesmo tempo, acha que jamais será possível ignorar tudo que a consome, porque qualquer pessoa que passasse por algo assim, precisaria, sem dúvida, corroer-se numa tristeza sem fim.
Então, ela chega à conferência e alguém roubou seu crachá. Isso traz um certo conforto, porque não ser Nora durante algum tempo pode ser mais divertido. Apesar do choque inicial provocar certa indignação, logo a ideia passa a ser sedutora. Muitos ali não tem a compreensão exata do que aconteceu (como a estúpida mulher que fala sobre o padrão do cereal), mas quando vira “A Convidada”, Nora ganha o direito de não precisar saber também.
Esse é o pontapé inicial para que um pedaço amorfo de como Nora vê a si mesma, venha à tona. Esse pedaço se dá o direito de divertir-se e superar-se. Movida pelo álcool, ela se distorce, se transfigura; e ao lado do representante da Entes Queridos (ideia de gênio do roteiro), chega ao ponto de cavalgar numa cópia fria e mórbida, que, ironicamente, é de uma pessoa viva (o próprio vendedor)… do mesmo jeito como ainda parecem vivos – e apenas parecem – todos os que desapareceram sem nenhuma explicação. Somente ela, “A Convidada”, seria capaz de um deboche como esse. Um beijo transfigurado, ao som de Don’t Dream It’s Over, que não coincidentemente, diz em sua letra:
Há liberdade por dentro, há liberdade por fora (…) E estou contando os passos até a porta do teu coração. Apenas as sombras à frente, mal clareando o teto, descobrindo assim a sensação de libertação e alívio”
O problema todo aqui é que mesmo confusa, Nora não pode abdicar-se de si mesma. O episódio passa muito tempo nos dando uma sensação de que a razão pela qual a identidade foi roubada, tem alguma coisa a ver com o mistério. Mas, o mistério aqui não importa – como já disse muito – e Nora foi substituída apenas por mais uma lunática. E assim que isso acontece, a velha função ordinária lhe acomete com força total… Ali está ela, apenas Nora, aquela que perdeu toda a família e que precisa sofrer por isso. É o contrário do escritor que aparece no caminho dela, que perdeu a família, mas que não sofre mais, apenas finge, atuando para as multidões no personagem que esperam dele. É isso que enfurece Nora, porque ela se condena à sua sensação de morte todos os dias.
Enfim, o resultado definitivo… Sinto dizer aos que não estão curtindo a série, mas Guest é um episódio tão bom, mas tão bom, que fica difícil ser um hater. E digo isso porque até mesmo a fraca posição de Santo Wayne dentro da mitologia esse episódio conseguiu ajustar. Já considero a atuação de Carrie Coon como uma das mais poderosas do ano; e nas sequências que a levam até Wayne, vi um potencial dramático em The Leftovers que realmente me intriga. Não só pela direção já marcada, sempre melancólica, arranjada com pianinhos suaves que sempre disfarçam a escuridão dos personagens que ilustra; como também pela capacidade nada pretensiosa de convergência. Ou seja, Nora encontrar Wayne não é nenhuma virada inesperada e eloquente, mas é um movimento seguro, preocupado com explorações de camadas que podem ser discretas, mas que também são catárticas.
Comovido pela linda condução do episódio, quase perdi o momento em que a trama dessa semana se justifica: “Sua maior fraqueza é a sua esperança”. Não sabemos se o abraço de Wayne funciona ou se ele apenas diz a coisa certa da forma certa. A questão é que a esperança que Nora insistia em rejeitar quando brotava de si, Kevin já está querendo abraçar e isso só torna esse encontro dos dois ainda mais fantástico. Ele “perdeu” a família na Partida Repentina. Ela PERDEU a família na Partida Repentina. E agora, talvez, os dois estejam prontos para reconhecer os benefícios do significado de “recomeçar”.
Ainda que oportunista, o escritor que Nora encontra diz a verdade: “Não se pode culpar-se por voltar a ter vontade de sorrir”. É cedo para uma personagem como Nora ganhar essa compreensão? Não sei. De certa forma, me sinto mais instigado ainda a prosseguir e ver como Damon Lindelof vai lidar com uma redenção tão aparentemente antecipada.
Se havia um amor não correspondido que aniquilava um indivíduo pela esperança de ser refletido, podemos dizer que a certeza da impossibilidade liberta a alma da responsabilidade da espera. Não há nada a seguir. “O nada é a próxima coisa”; e ter a certeza do que não vem, impede a expectativa doentia. Quando isso se estabelece em Nora, também fica visível nela. Antes, a pergunta 121 era respondida com um “sim”, porque aquele “sim” era endereçado para ela, a própria entrevistadora. As pessoas diziam que acreditavam que os levados foram para um lugar melhor, porque queriam consolá-la. Em resumo, não há lugar melhor. Basta entender e lidar com isso, para que o curso da vida recupere algum sentido e a angústia da esperança pelos que foram, se transforme no benefício simples e puro, de não ter ido.
Levanto os meus olhos para os montes e pergunto: De onde me vem o socorro? (…) O Senhor o protegerá de todo o mal, protegerá a sua vida. O Senhor protegerá a sua saída e a sua chegada, desde agora e para sempre”
Salmo 121
As Sobras: A trilha sonora da série continua bastante sagaz, não só pelos arranjos instrumentais tão minimalistas, como pela boa escolha de canções já conhecidas do público, e que sempre dialogam com as cenas.
As Sobras 2: Os Remanescentes Culpados também atuam na cidade grande.
As Sobras 3: Deu vontade de comentar cada um dos cartazes vistos no meio da multidão… Essa visão panorâmica do 14 de Outubro foi simplesmente deliciosa.
As Sobras 4: Santo Wayne, a nova incógnita irresistível de The Leftovers.















