Você acredita no Arrebatamento?

Calma! Esse não é um texto de conteúdo Gospel e se você não sabe o que é esse tal “Arrebatamento”, eu explico: O “Arrebatamento” – bem a grosso modo – seria um evento religioso interpretado na bíblia como a ocasião em que os seres humanos justos e que tenham aceito Jesus como seu único salvador, desapareceriam da Terra, subindo aos céus, antes da Segunda Vinda de Cristo. Esse seria um dos sinais do fim dos tempos e quem aí conviveu com dogmas religiosos de muito perto, viu muitas vezes as representações visuais chocantes desse fenômeno.

Imagina então, se um dia, as pessoas realmente desaparecessem? Imagina que você tá aí, lendo esse texto com um amigo ao lado, com seu namorado… e de repente, essa pessoa desaparece. Pois bem… No dia 14 de Outubro de um ano não-informado, 2% da população mundial desapareceu diante dos olhos das pessoas, exatamente onde estavam. E depois desse dia, nada mais foi como era antes.

Tô aqui pra falar pra vocês sobre os 10 anos da série The Leftovers, aquele que considero o melhor drama da história da televisão. Se você já conhece, fica aqui comigo pra celebrar… e se não conhece, esse texto vai ter dar motivos pra querer conhecer.

Era uma vez um roteirista chamado Damon Lindelof. Entre 2004 e 2010, ele foi o principal responsável por uma série que transformou a televisão e o jeito de se contar histórias: o nome dessa série era Lost.

O sucesso de Lost se devia a duas coisas: personagens muito bem escritos e uma trama de mistério que ia ficando mais e mais complexa a cada temporada. As expectativas criadas eram tantas, a ansiedade dos fãs era tamanha, que seria impossível atender todos eles: Damon tomou a decisão de encerrar Lost em seus termos; e mesmo sendo um GRANDE defensor daquele final, é loucura não reconhecer que a frustração das pessoas foi maior que a defesa. Damon ficou conhecido como o roteiristas-que-não-sabia-resolver-mistérios.

Obviamente, então, que quando a HBO anunciou que o nome por trás da adaptação de The Leftovers seria Damon Lindelof, ficou todo mundo sem entender nada: Então o cara que falou tanto do trauma que foi ser acusado de não resolver mistérios, tinha escolhido outra série de mistério para criar?

The Leftovers foi baseada no livro homônimo de Tom Perrota; que aqui no Brasil foi traduzido com o título de “Os Deixados Para Trás” (não confundir com uma série de livros gospel que se chama “Deixados Para Trás”). Eu gosto mais do título em Inglês, que numa tradução literal seria chamado de “As Sobras”.

O livro de Perrota foi lançado em 2011 e nunca foi muito popular. A história, contudo, era inspirada: Na pequena cidade de Mapleton, em Nova York, conhecemos a família de Kevin Garvey. Kevin é o xerife da cidade, é casado com Laurie e tem dois filhos; Tom, que é seu enteado; e Jill, a filha biológica dos dois. Tudo parecia perfeito para essa família, até que chega o dia 14 de Outubro.

Nesse dia, pela manhã, 2% da população mundial desaparece como poeira no ar. Imediatamente, o mundo todo pensa que se trata do Arrebetamento religioso. Mas, muito rápido, as pessoas começam a perceber que dentro desses 2% estão todo tipo de pessoa e não só os “justos” que já tinham lugar garantido segundo os dogmas religiosos.

O primeiro bug da sociedade vem com o próprio fenômeno. Do nada, o mundo está diante de uma evidência inegável de que existe algo fantástico, divino ou sobrenatural entre nós. O bug número 2 vem quando a sociedade descobre que a escolha dessa força sobrenatural pode ter sido aleatória. Se foi Deus quem fez isso, por que ele levou assassinos, psicopatas e estupradores? E se não foi Deus, quem foi? Qualquer possibilidade era assustadora.

E então, vem o bug número 3: o 14 de Outubro acontece, enlouquece o planeta, desmonta todos os pilares da vida em sociedade, ficam todos esperando pelo que vem depois e… não vem NADA. Os dias passam, passam… e nada acontece. Um ano se passa, dois anos se passam, três anos se passam… e nada. A vida dessas “sobras” – de todos os que ficaram –  precisa tentar voltar ao normal.  Mas, como se “volta ao normal” depois de um fenômeno gigantesco como esse? Como restabelecer a rotina sem saber para onde as pessoas foram, por quê elas foram e – principalmente – por quê eu não fui levado também? Por que EU sobrei?

A série The Leftovers começa no dia em que o fenômeno chamado de A Partida Repentina faz seu terceiro aniversário. Kevin Garvey, o xerife, teve o que podemos chamar de “sorte”: ninguém da família dele foi levado no dia 14 de Outubro. Contudo, a primeira grande sacada da série é que mesmo sem ter tido nenhum membro da família levado naquele dia, Kevin perdeu tudo. Quando o terceiro aniversário vem, ele mora apenas com a filha Jill, mas os dois não tem nenhuma relação de intimidade; há um muro entre eles. O enteado Tom se juntou ao guru religioso Santo Wayne; e sua esposa, Laurie, foi embora de casa para se juntar a um culto chamado Os Remanescentes Culpados.

Os Remanescentes Culpados foram um ponto de controvérsia entre os espectadores na época em que The Leftovers estreou. O grupo só usava branco, não falava; e aparecia fumando do lado de fora de estabelecimentos e pelas ruas da cidade. Muita gente que assistiu a série e abandonou, apontava a dificuldade de entendimento sobre o culto como um dos fatores que levou à desistência. O que queriam aquelas pessoas?

A resposta sempre foi simples: Quando o 14 de Outubro acontece, ele devasta as pessoas porque elas perdem seus entes queridos e nunca têm uma revelação sobre o que aconteceu com eles. Se os laços de afeto não existirem mais na sociedade, um novo fenômeno como aquele, se acontecesse, não afetaria ninguém. Os Remanescentes, então, convidam pessoas a renunciarem a tudo que constitui suas identidades sociais: família, amigos, emprego, preferências… até a própria voz. O intuito era que todos virassem telas em branco, sem história, sem memória, sem humanidade.

Laurie, a esposa de Kevin, se junta a esse culto. Meg, outra personagem importante, também eventualmente se junta ao grupo. O grupo, enfim, é liderado por uma mulher chamada Patti.

Do outro lado dessa trama está Nora Durst.

Nora é uma espécie de celebridade da Partida Repentina; não só em Mapleton, mas nos EUA inteiro. Nora é a única pessoa do país a ter perdido absolutamente TODA a família no dia 14 de Outubro: seu marido e seus dois filhos foram levados. Ela vive sozinha, comparece a um monte de palestras e eventos, se envolve numa comissão que investiga padrões entre os desaparecidos… e eventualmente paga pessoas para atirarem em seu peito enquanto veste um colete.

Kevin, aquele homem que não perdeu a família para a Partida Repentina, mas está sozinho… e Nora, essa mulher que perdeu toda a família para a Partida Repentina, e está sozinha… Eles vão se conhecer. E então, uma nova grande mudança começa a se desenrolar.

Your Pain Doesn’t Matter

A estreia de The Leftovers não foi fácil para a HBO. Talvez por achar que a psique de todos aqueles personagens estava completamente devastada, Damon Lindelof decidiu dar à série um tom excessivamente dramático e sombrio; além de um texto denso demais para uma estreia. A sequência de abertura já começava chutando, estridente aos ouvidos, numa composição poderosa de Max Richter; com os créditos flutuando em uma representação assustadora do Arrebatamento no teto de uma capela secular.

O piloto era excêntrico, chocante… mas, como era de se esperar vindo de Lindelof, impossível de despertar indiferença. O showrunner, se aproveitando da chancela da HBO, não poupou complexidade e não teve nenhuma preocupação em ser claro e objetivo. The Leftovers tinha um mistério em seu plot central, mas logo no primeiro episódio ficou claro que o investimento das sequências seria em desenvolvimento de personagem. Para isso, Damon investiu pesado em referências, analogias, metáforas e alegorias. Ele estava decidido a criar uma série substancial… e conseguiu.

Para o elenco envolvido, a série era um deleite dramático. Justin Theroux transformou Kevin Garvey em um dos personagens mais sinceros e perturbados da TV naquela época. Sua principal parceira de cena, Carrie Coon, se tornou uma referência ao dar vida e dor para Nora Durst. Amy Brenneman precisou despir-se de tudo para conseguir imprimir todos os conflitos de Laurie, sem poder imprimir os conflitos no rosto de Laurie. Christopher Ecleston fazia o irmão de Nora, o Padre Matt, que sofria por achar que Deus estava envolvido no fenômeno, mas enviando a ele mensagens contraditórias. O elenco principal se fechava com Ann Dowd, vivendo a emblemática líder dos Remanescentes e Liv Tyler, que através de Meg mostrava ao público a transição entre alguém que está tentando se reajustar no mundo Pós-Partida, mas não consegue.

A primeira temporada cobriu todo o livro em que se baseou a série (o próprio Tom Perrota esteve de perto, como co-criador). As mudanças com relação ao original foram poucas e se aqueles que foram atrás do livro se zangaram por ele jamais dar nenhuma resposta sobre o mistério; para Damon aquele era o cenário perfeito: para uma segunda temporada, ele poderia ir para onde quisesse.

You Understand

… e ele foi, para Jarden.

Com uma audiência baixíssima, mas estável; a HBO deu sinal verde para a segunda temporada. Contudo, Damon resolveu levar em consideração algumas das críticas feitas ao primeiro ano e conseguiu um outro feito: estrear a segunda temporada com um episódio TOTALMENTE fora-da-casinha e ao mesmo tempo, deixar claro que o tom das coisas havia mudado. A começar pela sequência de abertura, que voltou completamente diferente; leve, mas ainda muitíssimo poderosa. Na canção de Iris Dement, Lindelof encontrava o verso que resumia seus intentos com a série: “Todo mundo quer saber pra onde eles vão quando a coisa toda acabar. Ninguém sabe ao certo e eu também penso desse jeito. Acho então que só vou deixar o mistério ser um mistério”.

A coragem e inteligência de Damon quando está conduzindo uma narrativa são inegáveis. The Leftovers abre sua segunda temporada com uma sequência que se passa na pré-história e fala de uma das coisas mais essenciais acerca daquele grupo de personagens: eles seriam capazes de aceitar o que é simplesmente aleatório? Além daquela impressionante sequência de abertura, esse primeiro episódio da segunda temporada não mostra NENHUM personagem central por quase 40 minutos.

Descobrimos que o cenário dessa nova temporada é a cidade de Jarden, que após a Partida Repentina trocou de nome e agora se chama Miracle. A razão é maravilhosa: aquela foi a única cidade em todos os EUA em que nenhuma pessoa foi levada. Ela se torna, então, uma espécie de Terra Prometida, onde todos querem morar, mas que mantém até mesmo cercas e portões separando suas fronteiras do resto do mundo.

Em Jarden tudo gira em torno dessa fama de “solo milagroso” e lá mora a Família Murphy. John Murphy é vivido por Kevin Carroll. John não está no seu melhor momento pessoal e nem vivendo o melhor dos casamentos com a esposa Erika, que traz Regina King em uma atuação deslumbrante. O casal tem dois filhos, o jovem Michael, cheio de esperança e fé; e Evie, vivida por ninguém menos que Jasmin Savoy Brown, uma das final girls da nova fase da franquia Pânico.

Durante os 39 minutos do primeiro episódio em que apenas eles estão em cena, é possível ver que todo o otimismo vendido por Jarden, esconde comportamentos secretos de todos os membros da família Murphy. Ninguém fala sobre eles, mas eles estão lá. É então que – nos últimos 15 minutos – Kevin e seu comboio chegam à Jarden para morar… e no mesmo dia em que eles chegam, a jovem Evie Murphy (e mais duas amigas) desaparece. Depois de anos se gabando de ninguém ter sido levado na Partida, a cidade de Jarden/Miracle agora tem três moças que ninguém sabe onde estão.

É totalmente seguro dizer que os 10 episódios do segundo ano de The Leftovers representam a PERFEIÇÃO NARRATIVA. Você pode questionar muita coisa no primeiro ano e algumas coisas no terceiro, mas o segundo ano beira o assustador de tão bem escrito, bem dirigido e bem atuado. Em uma reverberação constante de detalhes enriquecedores, a série pega os antigos personagens e os novos personagens e dá a eles uma profundidade e uma trilha de motivações que desnorteia o espectador; ao mesmo tempo em que o fascina.

Títulos de episódio, canções, pinturas, nomes de personagens, correlações… tudo que The Leftovers pode fazer para aumentar o alcance do espectador em direção à epítome dos acontecimentos, ela faz. O exercício de perceber e investigar referências fez dessa série um gigante do que o professor e teórico Claus Cluver um dia chamou de “iluminação mútua das artes”. Foi trabalhando com essa iluminação que escrevi as críticas de todos os episódios da série; um trabalho que me traz muito carinho até hoje e que é o centro dos meus estudos de Mestrado.

O que Damon Lindelof fez em episódios como International Assassin é o que faz com que The Leftovers seja esse testemunho dramatúrgico que ela é.

Let The Mystery Be

Algumas vezes na história das produções seriadas, uma série ficou no ar por alguns anos apenas por causa de sua reputação. A HBO foi o canal que abriu essa porta e o faz até hoje, dando às suas produções ao menos duas temporadas antes de recorrer ao cancelamento. The Leftovers esteve na mira do fim desde o hiato da primeira temporada para a segunda. O ano 2 foi aprovado acredito que de forma protocolar; aquilo já era o que eles costumavam fazer. Já a terceira temporada foi claramente uma decisão artística, que existiu para privilegiar e reconhecer a dedicação dos fãs e o empenho da crítica.

Durante seus três anos de vida, a série teve poucas indicações aos prêmios principais do circuito americano. As razões para isso têm mais a ver com a HBO, que sempre tomou a decisão calculada de não submeter a série aos votantes para aumentar as chances de outras produções da rede, mais caras e que dependiam mais de reconhecimento. Tive o privilégio de entrevistar Tom Perrota aqui para o site logo depois do fim da série e ele mesmo não entendia por que The Leftovers não aparecia entre indicações. A crítica especializada, contudo, estava aos pés da série e em seu comunicado agradecendo pela renovação do terceiro e último ano, Damon Lindelof citou o imenso apoio que críticos dos maiores veículos do mundo estavam dando ao show.

Essa terceira e última temporada teve apenas 8 episódios e se encerrou em 4 de Junho de 2017. Não vou dar muitos detalhes sobre ela porque não quero interferir em nada caso alguém queira assistir. Mas, posso dizer que ela aumentou as especulações sobre o mistério em torno da Partida Repentina e colocou mais uma dúzia de cenas entre as melhores que a teledramaturgia americana já produziu.

O que é mais importante dizer, entretanto, é que a última temporada invade o delicado terreno da fé; e fala sobre um dos males mais perigosos da humanidade: a doença da significação. Lindelof veio de Lost, onde tudo era sobre significar alguma coisa… e numa escala menor, procurar significados em tudo atrapalhou a experiência para aqueles que exigem o enquadramento da verdade. Em uma escala maior e mais filosófica, a vida pode ser terrivelmente dolorosa para quem precisa estar 24 horas por dia atento aos “sinais”. E se não houver sinal nenhum? E se não for um sinal?

Um dia, Roland Barthes disse que precisávamos “matar o autor” para ter acesso ao texto sem a opressão de suas “intenções”. Me arrisco a dizer que Damon Lindelof promoveu sua ressurreição; escrevendo uma série inteira para provar um ponto de vista: o mistério não importa e eu vou mostrar isso a vocês.

Finalmente, eu pergunto: a quem importa o mistério da Partida Repentina? Nem a mim e nem a você. No final das contas a gente não queria que os personagens encontrassem respostas. A gente queria mesmo era que eles entendessem que não é preciso viver eternamente em sofrimento pelo que ninguém é capaz de mudar. A gente queria que eles fossem felizes com o que ficou… e só lembrassem com carinho do que se foi; não importando como, por quê, para onde ou se um dia iria voltar.

A lição que o estupendo Series Finale deixou é que as coisas que vão não podem ser mudadas. Esse privilégio – quem diria – é reservado às sobras.

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