Prólogo: Um dia de cada vez
A jornada de autodescobrimento de um ser humano é sempre solitária, cheia de indagações, reviravoltas e aprendizado, mas isso não impede que no meio do caminho apareçam pessoas que invariavelmente possam suavizar essa trajetória. Assim foi a jornada de Isak na terceira temporada de Skam em busca do autodescobrimento e aceitação, contando com a ajuda dos amigos mais próximos e de pessoas improváveis como Sana, sua colega de Biologia.
Desde a primeira temporada, Skam deu amostras de que a história de Isak tinha mais camadas do que se imaginava. O rapaz aparentemente nutria uma paixão secreta pela sua amiga Eva, só que mais tarde ficamos sabendo que o alvo do seu desejo poderia ser Jonas e não a linda Eva como pensávamos. Na segunda temporada, as especulações davam conta de que ele estava mantendo algum tipo de colóquio secreto com Chris, mas no final, Isak foi flagrado usando nas calças um cinto do Eskild, o que gerou um baita clifhanger e muitas teorias foram formuladas em torno da série.
Acho muito engraçado quando penso que Isak só entrou para o grupo Kose (aconchego) por conta da chantagem que a Sana fez com ele por causa das drogas e que foi a partir daí que ele teve a chance de estreitar laços com Even e toda a história do Ship Evak pode se desenrolar em atos tal qual uma peça de teatro na que é considerada, nos fóruns de discussão na internet, como a melhor temporada de Skam.
1º Ato: Isak e Even.

Nos três primeiros episódios dessa temporada, o que vimos foi Isak se envolvendo e sendo envolvido por Even, um rapaz bonito, simpático, mas com uma namorada. Isak não conseguia entender ao certo o que estava acontecendo com ele e por essa razão acabou tendo algumas atitudes confusas, como mentir para o Squad masculino ou fazer testes na internet para saber se realmente era gay. O que ele não imaginava é que estava se apaixonando por uma pessoa instável e acometida de um transtorno psicológico, a bipolaridade.
A causa exata do Transtorno Bipolar ainda é desconhecida, mas ele é um problema em que as pessoas alternam entre períodos de muito bom humor e períodos de irritação ou depressão. As chamadas “oscilações de humor” entre a mania e a depressão podem ser muito rápidas e podem ocorrer com muita ou pouca frequência. A pessoa diagnosticada com esse tipo de transtorno precisa fazer tratamento e terapia para evitar a alternância de humor, os episódios de crise e a hospitalização. Magnus fez um ótimo relato para o Squad masculino sobre o estado de ânimo da sua mãe, também bipolar, quando em crise.
O jogo de gato e rato entre Even e Isak foi interessante de acompanhar, mas percebíamos que algumas atitudes do rapaz eram movidas por imensa euforia, como foi o caso da invasão da casa com piscina ou a noite no hotel. Apesar da mão do Ship tremer ao ver Evak em ação, vide a cena em que Isak estava tendo problemas para abrir o armário e Even o ajudou a abrir – seria essa cena uma metáfora para que o rapaz “saísse do armário” com a ajuda do Even? -, sabíamos que havia mais camadas ali do que somente um romance adolescente.
Creio que a mensagem mais significativa que Isak e Even passaram em tão poucos episódios enquanto parceiros, foi a importância de se aceitar do jeito que é. Sei que Isak sofreu bastante ao ver Even com a namorada, ou quando foi surpreendido por um dos episódios de bipolaridade do rapaz, quando teve que se abrir para os amigos ou mesmo quando foi confrontado por Sonja, mas tudo isso o tornou mais forte para tomar decisões mais razoáveis e maduras no final da temporada. Não foi fácil para ele estar na igreja com os pais, refletir sobre as suas escolhas e sobre o que realmente importava naquele momento da sua vida. Por conta de todo esse emaranhado de possibilidades, esse foi o meu casal favorito em Skam.
2º Ato: Eskild: O melhor amigo que você respeita.

Sei que só quem passou ou está passando pela situação do Isak, tem propriedade para descrever quão devastador e confuso deve ser esse processo de autodescobrimento e aceitação, principalmente quando se é tão jovem quanto é o nosso protagonista. No entanto, me coloquei no lugar do Eskild, que eu avaliei anteriormente como sendo o melhor personagem de Skam através das temporadas, e percebi que a jornada dele também não havia sido fácil, mas ele havia chegado a um local onde ele já conseguia se aceitar e se entender. A conversa dele com Isak só me fez amá-lo mais ainda e vale a pena transcrever um trecho onde percebemos como Eskild é consciente e maduro dentro das suas convicções:
– Isak: Eu respeito você com o seu lance gay!
– Eskild: Não existe lance gay nenhum! Eu só tento ser eu mesmo, Isak.
– Isak: Porque não é como se eu fosse usar rímel, calças apertadas e me juntar a parada gay só porque eu gosto do Even.
– Eskild: Preciso te dizer uma coisa sobre essas pessoas que você não quer se associar, Isak. Sobre os que usaram rímel, calças justas e saíram para lutar pelo direito de serem quem são. São pessoas que escolheram suportar abuso e ódio, que apanharam e foram mortas e não porque querem muito ser diferentes. Porque preferiram morrer do que fingir ser quem não eram. Isso requer coragem em um nível que a maioria dos seres humanos não entenderiam (…) então você pode sentar aí e pensar no que eu disse.
Esse texto é um dos textos mais bonitos dessa temporada. Até acho que a reaproximação de Eskild e de Isak se deu muito por causa do entendimento que o primeiro teve sobre a condição momentânea do segundo. Eskild percebeu que não se tratava de um argumento preconceituoso por parte de Isak e sim um argumento advindo da ignorância e do desconhecimento da sua própria orientação. Eskild esteve ao lado de Eva em momentos importantes, vivenciou os dramas de Noora dentro das duas últimas temporadas, trafegou entre os diversos personagens de Skam e por fim acabou sendo uma espécie de referencial para um Isak carente de definições e conceitos, dessa forma eu só posso afirmar que de fato ele é o melhor amigo que você respeita.
3º Ato: Isak, Jonas e o Squad Masculino.

A minha relação com Jonas sempre foi conturbada e sempre oscilou entre o amor e o ódio. Se em boa parte da primeira temporada antipatizei com ele por causa das suas atitudes para com a Eva, da metade até o final da temporada já admirava o rapaz e a sua capacidade de tentar compreender a namorada, mesmo diante da inconsistência da moça. Mas foi somente nessa temporada que pude perceber como Jonas era um amigo bacana e compreensivo. Quando Isak foi aconselhado pela hilária doutora a conversar com alguém no intuito de desabafar, ele não pensou duas vezes e elegeu Jonas como seu confidente. Ambos foram lanchar na Bislett kebab house, uma kebaberia que fica no centro velho de Oslo, muito frequentada por estudantes que procuram um lanche barato e wi-fi grátis – adoro essa contextualização de Skam!
Mas o que se seguiu a partir daí, foi um dos diálogos mais fluidos e simples entre os dois amigos. A naturalidade com que Jonas tratou a revelação do amigo foi muito surpreendente para nós brasileiros que, infelizmente, ainda saboreamos o gosto agridoce da intolerância, do ódio gratuito e da não aceitação, mas para os noruegueses que já observam as particularidades com um olhar de maior entendimento, resiliência e aceitação desse fato, já não é tão surpreendente assim.
Um ponto alto a se destacar nessa temporada foi a ascensão e a importância do Squad masculino. Se a amizade entre Jonas e Isak já nos deixava felizes, Magnus e Mahdi foram ótimas aquisições e se mostraram muito participativos e solidários no romance Evak. A cena em que eles ajudam Isak a mandar uma mensagem de texto dando um ultimato ao Even, é extremamente engraçada e mostra o tamanho da união desses quatro rapazes. Mas além do comprometimento desse quarteto, também observei que Skam não perde a chance de apresentar os hábitos noruegueses. Um costume muito comum na Noruega, é o de retirar os sapatos ao adentrar a casa de alguém, isso acontece por conta da umidade da neve trazida da rua ou por causa da sujeira do degelo. Percebi que a série manteve esse hábito quando vi o Squad masculino descalço saindo apressado do apartamento do Isak caçando os casacos e os sapatos. Um outro hábito local que Skam preservou, é o da reciclagem. Vemos os garotos saindo e levando as latas e garrafas que trouxeram consigo, fato corriqueiro entre os jovens noruegueses. Notei também na segunda temporada quando Noora viu que Eskild usou todo o seu macarrão, ela desmonta a caixa do produto para colocá-la na sacola de reciclagem, que oportunamente será levada ao supermercado para a troca por cupons de desconto, vale de compras ou dinheiro.
4º Ato: Isak e Sana, a sua colega de Biologia.

Enquanto o Squad masculino esteve em alta, o grupo das garotas não encontrou tanto espaço como era esperado por nós. Se não nos identificamos com o pouco espaço que Eva teve ao longo dessa temporada, se não gostamos do aparente encurtamento nas falas da Chris e da Vilde e se detestamos a separação da Noora e do William, o mesmo não podemos falar sobre Sana, que justamente acabou se tornando colega do nosso protagonista na turma de Biologia.
Sana é daqueles personagens que a gente começa odiando, depois vai se simpatizando e finalmente a gente se descobre amando forte essa garota e o seu hijab mágico. Gostaria muito que a próxima temporada de Skam mostrasse um pouco mais da Sana, do Magnus e também do Eskild, os três renderiam ótimas narrativas. Gostei bastante dos diálogos travados entre a Sana e Isak sobre a Teoria da Evolução e o gene morto, mas o que mais me agradou foi a humildade que a garota teve ao admitir para o novo amigo, em uma fala belíssima, que estava errada nas suas conclusões sobre os homossexuais: “Todos os humanos nesse mundo são igualmente importantes. Então se ouvir alguém usando religião para argumentar seu ódio não escute. Porque ódio não vem de religião, vem do medo!” Sana, Rainha!!!
Epílogo: Livet er nå – A Vida é agora.

O desfecho da terceira temporada de Skam causou em mim uma reação que até então eu só havia experimentado quando Person of Interest chegou ao seu derradeiro capítulo. Uma ausência tão grande, uma necessidade de ver um pouco mais, não porque a season finale tenha sido incompleta, muito pelo contrário, mas é que a sensação de imersão nos capítulos de Skam sob a ótica de Isak, foi muito emocional, identificatória e arrebatadora. A maratona passou em um piscar de olhos e quando me dei conta, já não havia mais nada para ver e a história tinha cumprido a sua trajetória de começo, meio e fim.
A conversa entre Isak e Sonja foi necessária e significativa. O nosso protagonista precisava se sentir isento da responsabilidade pela eclosão do transtorno recorrente do Even e precisava ouvir aquelas palavras libertadoras de alguém que já conhecia intimamente o histórico do rapaz ao longo dos anos: “Você só precisa estar ali para ele. E quando tudo parecer sem esperança, só leve um dia de cada vez. E se um dia parecer demais, leve uma hora de cada vez. E se uma hora for demais, leve um minuto de cada vez”. Automaticamente associei toda aquela conversa entre o Isak e a Sonja à música “Via Láctea”, do Renato Russo, que apresenta em uma das suas estrofes uma mensagem poderosa de otimismo e esperança no futuro: “Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho. Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz… Amanhã é um outro dia, não é?”. E foi exatamente essa postura de viver momento por momento que o Isak adotou em relação ao seu parceiro, mesmo que o Even se recusasse a ser observado como alguém que precisasse de ajuda, o seu jovem namorado estava ali para ele e por ele.
Compreendo o medo que Even sentiu de acabar machucando Isak por conta do seu transtorno psicológico, mas, afinal, o que sabemos sobre o futuro? Praticamente quase nada! Já que praticamente não sabemos quase nada sobre o futuro, o que nos resta é viver o hoje. Achei bacana Isak ter criado uma rede de ajuda para o seu amado envolvendo o Eskild, a Linn e todos os seus amigos mais próximos. Tanto é que a Vilde sugeriu que a festa do grupo Kose fosse na casa do Isak e ele aceitou de imediato ao perceber que seria um bom momento para estreitar os laços entre os seus amigos e o seu namorado. Um outro ponto positivo foi ele ter feito as pazes com a Emma de forma tão simples e prática.
Achei bem divertida a sequência do Squad masculino fazendo a votação para saber a ordem cronológica de com quem o Isak ficaria naquele grupo caso quisesse namorar um deles. Claro que Magnus ficou em último lugar! Por falar em Magnus, ele foi uma grata surpresa nessa temporada e já quero ver um pouco mais sobre o último garoto virgem da Noruega – se bem que a Vilde está bem ali para ajudar o rapaz a inaugurar a sua “lojinha”. Gostei bastante de ver Isak apresentado Sana ao Even como sua parceira de biologia e amiga, até já posso especular que se a próxima temporada for sobre ela, nós teremos vária lindas sequências entre ambos. E acredito que também teremos mais cenas entre Isak e Eva, já que ambos se reaproximaram depois que ele lhe pediu desculpas por ter agido de maneira errada no ano anterior com ela. Mas foi durante essa conversa com Eva que Isak reconheceu que antes ele era uma figura falsa, que vivia uma vida baseada em mentiras e chatices e que não importava se a pessoa acreditava em Jesus, Allah ou na Teoria da Evolução o que importava era o agora. Assim concluímos lindamente a jornada de Isak rumo ao autodescobrimento e a aceitação lembrando que tudo é amor.

Tudo é Amor!
Deixo aqui uma menção honrosa para a atuação verossímil e convincente do jovem ator Tarjei Sandvik Moe, interprete do Isak.
> Logan é o Melhor Filme do Universo Marvel?
Gratidão por vocês terem nos acompanhado nessas três temporadas de Skam através desses longos textos que são um apanhado geral de cada uma dessas incríveis histórias sobre pessoas e para pessoas.
Nos vemos na quarta temporada!
Beijão!















![Skam Itália 4×01: Episódio 01 [Season Premiere]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2020/05/Skam-Itália-4x01-1-218x150.jpg)
