De forma surpreendente, Druck/Skam Alemanha consolidou a sua trajetória e pavimentou o caminho para nos contar em sua quarta temporada a história de Amira (Touka El-Fawwal), estudante muçulmana inserida na comunidade juvenil alemã. Ao nos apresentar em sua primeira temporada as idas e vindas do casal Hanna e Jonas, a série apostou as suas cartas na atuação intimista do seu casal de protagonistas, o que foi um grande acerto, já que a narrativa e a forma de divulgação da série foram muito falhas, no entanto, esses equívocos foram ajustados durante a segunda temporada, o que nos possibilitou acompanhar a bonita jornada  de Mia e Alexander tentando se relacionar em meio as suas próprias dificuldades emocionais; já a terceira temporada foi bastante densa, madura e corajosa ao desconstruir não só os arquétipos padronizados esperados para  Matteo e David, casal de protagonistas, como também por desnudá-los psicologicamente episódio após episódio, como nenhum remake de Skam foi capaz de fazer. Talvez o grande trunfo da versão alemã, igualmente à italiana, seja a ampla capacidade técnica do seu jovem elenco. Após essa montanha-russa emocional ao longo das suas três temporadas, Druck/Skam Alemanha se colocou em uma difícil encruzilhada, tendo que responder a seguinte questão: Como contar a história de uma estudante muçulmana de forma leve e esperançosa diante da crescente onda de islamofobia na Alemanha atual sem parecer fantasiosa, alienada ou sufocante demais? Uma outra questão permeia a série alemã: É possível contar a história de Amira tão bem quanto a dos demais protagonistas de temporada, quando sabemos que dentro em breve esse elenco estará cedendo espaço para uma nova geração? Bem, esse texto (um pouco atrasado), é uma análise da quarta temporada da série alemã, onde veremos os principais aspectos envolvendo Amira e as suas circunstâncias, mas também tentaremos concluir se a série conseguiu ou não responder as suas questões em apenas dez episódios.

Druck/Skam Alemanha em sua quarta temporada criou, até certo ponto, um bonito arco para a sua protagonista, emparelhando-a com o seu núcleo familiar (dois irmãos, o pai e a mãe), com os seus pares sociais (squad das garotas, squad dos garotos, turma do box e as amigas muçulmanas) e com aquele que iria passar a morar em seu coração, Mohammed, o jovem sem fé. A série adolescente entregou também os fechamentos das tramas pendentes dos casais remanescentes deste a primeira temporada. No entanto, a versão alemã errou tentando acertar. O seu primeiro erro foi simplificar o debate filosófico envolvendo Amira e Mohammed, reduzindo-o a uma simplória decisão de tentar ou não tentar estar juntos, quando na verdade muito debate poderia ter sido trazido à tona enquanto o casal tentava se acertar. Seu segundo erro ocorreu quando ao copiar o modelo de vídeos com finalizações de histórias utilizado de forma acertada pela série de origem fragmentou o protagonismo de Amira, comprometendo o desenvolvimento do arco da personagem. O fato desse modelo ter funcionado perfeitamente bem em Skam, não quer dizer que surtiria o mesmo efeito em Druck/Skam Alemanha. O resultado, apesar de muito bonito e delicado, pulverizou de forma grosseira o que poderia ter sido a linda história de Amira, claro que nem de longe esse fato se assemelhou com o ocorrido com Imane de Skam France em sua temporada, mesmo assim pesaram a mão demais.

Não quero dizer com isso que a temporada foi ruim ou que a atriz Touka El-Fawwal (Amira) não tenha dado conta do recado ao reencenar uma das protagonistas mais carismáticas dessa franquia, a Sana. Muito pelo contrário, foi perceptível a entrega de El-Fawwal na condução da sua personagem, que se utilizou de uma habilidade particular, o boxe, para mostrar a raiva, a confusão e a dor acumuladas ao longo de anos de convivência com regras, expectativas e limites impostos. Druck/Skam Alemanha fez o que sabe fazer de melhor, ao colocar em cena a boa atuação de El-Fawwal, aliada a uma trilha sonora incrivelmente agradável e uma fotografia que dispensa comentários, contudo, pecou diante da urgência em finalizar a sua trajetória – já que uma possível quinta temporada será composta por uma nova geração -, falhou ao entregar menos que o necessário para a conclusão da história da sua protagonista e errou ao nos dar intermináveis vídeos envolvendo Mia e Alex; Matteo e David; Hanna e Stefan ou Jonas, quando queríamos ver Amira. Queríamos ver até Amira e Matteo, por exemplo, essa amizade teve um bom desenvolvimento na terceira temporada, mas foi completamente esquecida aqui; queríamos ver mais interações de Amira com Mia depois do seu retorno ou mesmo mais sequências com Mohammed, principal alvo do conflito da estudante. É inegável que a conclusão de todas essas histórias foi um prato cheio para nós que acompanhamos as quatro temporadas dessa série, todavia, muito tempo de tela que deveria ter sido destinado a Amira foi roubado para que todas essas conclusões acontecessem e isso, em minha opinião, é imperdoável.

Diante da possibilidade de uma nova geração assumir o comando da série a partir da quinta temporada, os roteiristas encontraram-se às voltas com a necessidade do fechamento das suas tramas pretéritas, creio que vídeos curtos desvinculados da trama central poderiam ter sido o melhor caminho para o fechamento das pendências de todos os demais personagens sem comprometer a narrativa da temporada em curso. Não entendo como Druck/Skam Alemanha, que sempre foi tão audaciosa, pioneira e organizada, teve a capacidade de falhar tanto em seu planejamento de temporada ao ponto de praticamente destinar um de seus episódios com maior minutagem para Mia e Alex, que já tiveram uma temporada só para eles. Embarcamos nesse trem porque queríamos viajar com Amira, queríamos ver as paisagens através da sua perspectiva e não essa solução diluída em água, que torna tudo fraco, onde a cada momento a perspectiva era alternada entre um personagem e outro, nos impedindo de focar no cerne da questão e nos impondo uma narrativa descompromissada com a história da protagonista. Um grande exemplo dessa estratégia equivocada de fechamento das pendências das temporadas anteriores a todo custo, foi o pouco tempo restante para mostrar mais sobre Kiki, que teve uma trajetória ascendente belíssima, saindo da futilidade e dos comentários rasos e preconceituosos, para o amadurecimento enquanto mulher, amiga e alguém com seus próprios dramas. Kiki merecia mais tempo de tela, com certeza. Além do plot do apartamento, talvez fosse interessante mostrar um pouco da sua dinâmica familiar e da sua convivência com uma mãe dependente, porém, priorizaram os protagonistas das temporadas anteriores.

Dito isso, adentremos nos principais acontecimentos dos episódios.

Apesar do excesso de informações, o episódio inaugural funcionou muito bem e conseguiu nos situar sobre o local de cada personagem nessa trama, ainda de bônus introduziu os irmãos de Amira (Omar/ Samy Abdel Fattah e Essam/ Hussein Eliraqui) e Mohammed (Hassan Kello), amigo dos seus irmãos e sua paixão secreta. Mais algumas informações importantes sobre o status dos demais personagens foram dadas no decorrer do episódio, dessa forma, ficamos sabendo que Kiki e Carlos pretendiam morar juntos em um apartamento caindo aos pedaços; Jonas era o aniversariante da vez, por isso, uma festa surpresa foi organizada pelas garotas, onde Matteo e David conseguiram surpreendê-lo chegando mais cedo da viagem de férias; com Mia e Alexander fora do país, coube a Sam se encantar por Mohammed e quase atravessar o caminho de Amira. O segundo episódio teve um sabor agridoce para Amira, a começar por sua mãe tecendo comentário negativos sobre a sua futura viagem para a Austrália. Abro um parêntese para exaltar a contemporaneidade dessa série ao evocar o atentado terrorista de Christchurch, na Nova Zelândia, cometido em 2019 por um cidadão australiano, que ocasionou a morte de 51 muçulmanos em duas mesquitas. Após esse crime de ódio ter ocorrido na história recente do mundo, é totalmente compreensível o pavor observado nos olhos da mãe de Amira. Como também é compreensível que os anseios de Amira não sejam os mesmos da sua amiga Nádia, prestes a se casar. A chegada de Kiki na reunião de Nádia e Amira provou outro ponto interessante: nem sempre as pessoas são más porque querem ser, as vezes é apenas fruto da pura ignorância mesmo. Kiki desconhece completamente os aspectos culturais que permeiam as vidas dessas duas jovens muçulmanas e, por isso, teceu comentários infelizes e até caricatos sobre os casamentos realizados pela comunidade muçulmana. No outro extremo do episódio tivemos Sam, em uma relação aberta com Abdi, sentindo-se livre para flertar com Mohammed.

Os episódios três, quatro e cinco, serviram de preenchimento para introduzir Mohammed na vida de Amira, mostrando que o rapaz além de agradável e gentil era muito charmoso. Ele começou a ganhar pontos quando protegeu a porta do depósito para que ninguém entrasse enquanto Amira estava orando. Mais tarde assumiu a responsabilidade pela bebida alcoólica encontrada pela mãe de Amira na casa dela, já que Essam, infantilmente foi incapaz de se responsabilizar pela embriaguez. Achei a atitude de Carlos bem desproporcional, como se Kiki não soubesse se defender por conta própria das investidas de Essam. A mãe de Amira, por outro lado, pareceu perceber que a responsabilidade real pela bebida encontrada na casa não foi de Mohammed, mesmo assim, repreendeu a filha severamente. Tivemos um rápido vislumbre de Jonas e a sua eterna história com Hanna; de Matteo e David, as voltas com o projeto de cinema; e de Mia, que através de chamada de vídeo foi a primeira a saber sobre a paixão secreta de Amira. Mais tarde, através desse mesmo mecanismo descobrimos que as coisas entre Mia e Alex estavam desmoronando. Um pouco mais adiante, ao revelar a Kiki e Sam os seus sentimentos por Mohammed, Amira colocou a situação em um nível diferente do proposto na série de origem, evitando um futuro mal-entendido envolvendo as suas amigas e o seu crush. Adorei essa decisão de acabar com esse plot chato da traição.

Voltando a Mohammed, a troca constante de mensagens com Amira, as músicas compartilhadas, o primeiro encontro, foi tudo tão mágico, bonito e puro, mas ao se confessar não religioso, o rapaz jogou uma pá de cal em cima dos sentimentos de Amira. Por mais que já tenhamos visto esse plot antes, nunca estamos suficientemente preparados para esse momento de ruptura entre o ideal e o real. Essa confusão toda gerou um dos diálogos mais importantes travados por esse casal envolvendo escolhas religiosas, achei incrivelmente autêntico o momento que Amira diz a Mohammed que ele não tem que orar para agradá-la ou para fazer o que ela faz, isso tem que ser uma escolha dele, um momento entre ele e Alá. Aliás, Mohammed se mostrou muito maduro e certo em suas escolhas durante toda a temporada. O que se viu depois disso foi a desorganização emocional de Amira falando por ela, a garota se colocou em rota de colisão durante a briga na praia, onde foi insultada de forma racista; se desequilibrou durante o treino de boxe, mas nada se comparou ao seu ataque de fúria durante a despedida de solteira de Nádia.

Uma coisa que senti muita falta durante essa temporada foi de uma maior proximidade entre Amira e o squad das garotas ou então com Matteo. Ela passou a maior parte da temporada sozinha com os seus conflitos, sem muito espaço para se abrir. Mia, depois que retornou de viagem, estava muito focada no seu drama com Alex; Hanna estava dividida entre terminar com Stefan, retomar sua relação com Jonas e encontrar um estágio; Sam estava em uma fase de relacionamento aberto com Abdi e experimentação da sua sexualidade e a própria Kiki, que esteve mais próxima e se mostrou uma amiga valiosa para Amira, estava as voltas com os seus dramas com Carlos, com o apartamento novo para ajeitar e com a dependência da mãe. Sobrou pouco espaço para o squad interagir com Amira, que em alguns momentos era muito refratária por não saber como compartilhar a sua situação, mas em outros era quase invisível aos olhos dessas pessoas.

A partir desse ponto precisamos falar sobre o elefante no meio da sala.

Amira teve um bonito encontro com Mohammed no parque após a guerra fria estabelecida entre eles, nesse encontro eles conversaram, esclareceram as coisas e decidiram se tornar um casal. Pronto, esse foi o final da história de Amira. Não teve mais debates filosóficos nem nada, Amira sequer chegou a conversar com a sua mãe sobre esse tema. Depois disso ainda vimos o novo casal na festa de inauguração do apartamento de Kiki e na festa de despedida de Amira, mas foi só isso mesmo. Amira, foi criada dentro das bases filosóficas severas da fé Islã, essa fé move a sua vida e valida todas as suas decisões, tanto é que ela se desculpou por ter agredido a garota na festa de Nádia, mostrando que ela poderia ser bem melhor do que o que mostrou na festa. Amira sempre foi guiada pela razão, por isso buscou o perdão de Kiki após a sua explosão na fatídica festa, como também ponderou não se relacionar com Mohammed exatamente por ele ser um sem fé. No entanto toda a situação dela com Mohammed foi reduzida a alguma forma de arranjo/tentativa de namoro que não perpassasse por esse viés. Como assim? Ficamos sem respostas e sem o devido debate filosófico exatamente em uma série que se passa na Alemanha, palco da crescente onda islamofóbica atual. Perderam a melhor forma de aprofundamento real da personagem, nos deixando com um imenso elefante no meio da na sala.

O capítulo de Jonas e Hanna foi muito bonito e não me incomodou o fato deles terem reatado. Ambos caminharam bastante, erraram, amadureceram e tiveram outras experiências até concluírem que valia a pena tentar outra vez, acho bastante aceitável e compreensível o desfecho deles. Mas o capítulo de Mia e Alex foi bem inesperado e controverso depois de uma temporada tão intensa quanto a deles. Compreendo claramente que Mia já havia falado que não estava feliz e bem sabemos que nada é para sempre, mas arrastar esse drama da separação para essa reta final não foi uma das melhores decisões, muito menos terem introduzido Victoria de forma tão aleatória como fizeram. Ambos os plots sendo finalizados foram artifícios interessantes enquanto desfecho da série, mas, em minha humilde opinião, não cabiam nesse pequeno recorte chamado quarta temporada.

Essas decisões apressadas e duvidosas não diminuem o legado de Druck/Skam Alemanha e não apagam o histórico de versão caprichada nos detalhes, ousada nas decisões e de vanguarda nos emparelhamentos, também não invalidam todo o investimento que a série fez no seu jovem elenco, na sua estética e na sua delicada direção. Mesmo com todas as ressalvas que fiz sobre essas decisões questionáveis, a série alemã deixa a importante marca de desconstrução de arquétipos, muito bem retratada no seu emocionante vídeo final. O lamentável mesmo é que as suas questões de encruzilhadas sequer foram arranhadas e, com isso, Druck/Skam Alemanha finaliza a história da sua primeira geração com um sabor agridoce, sem fazer justiça à protagonista da quarta temporada, entregando bem menos do que ela merecia.

REVISÃO GERAL
Nota:
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