Primeira temporada da Drag Race UK termina previsível, mas ao menos com algumas doses de polêmica.

Primeiro de tudo: essa review está extremamente atrasada, mas cheia de boas intenções. A essa altura do campeonato não adianta tentar falar de tudo que aconteceu na corrida passo a passo. Muitas tarefas me levaram a precisar protelar esse texto, mas podemos falar aqui sobre as impressões gerais da finale e da temporada como um todo. A versão UK da Drag Race foi exatamente tudo aquilo que eu achei que ela seria, inclusive com as discrepâncias do humor e dos desempenhos, em comparação com a versão americana. Infelizmente, nesse primeiro momento, com apenas uma temporada no ar, essas comparações são inevitáveis.

Por quase todo o tempo útil da temporada, a versão UK revelou uma personalidade dois tons abaixo do que estamos acostumados a ver. Nada foi exatamente intenso, ficando no campo do ensaio e saindo dele em raras ocasiões. Não tivemos uma grande vilã, por exemplo. The Vivienne demonstrou arrogância e antipatia em alguns momentos, mas nada o suficiente para que merecesse o título. Em parte, essa falta de vilania se dava pela incapacidade de encontrarmos um tipo exato de opressão. Adoramos defender oprimidos, mas esse não foi o caso. Não havia inocentes no elenco, mas tampouco as participantes estavam interessadas em conflitos.

O mesmo aconteceu com o desempenho individual. No começo da temporada a sensação foi de estarmos vendo uma Drag Race só com iniciantes, participantes que não sabiam desfilar, não sabiam se vestir, não sabiam atuar… Mas, como é de se esperar de um reality de habilidades, quem não podia entregar o exigido foi eliminado. A questão é que uma competição como essa não se segura só com talento, ela precisa de resposta humana imediata, muitas vezes irracional, porque faz parte do que se espera do gênero. A primeira temporada da Drag Race UK não foi inesquecível como queríamos, mas foi correta como esperado.

Bagaça 

Na reta final, contudo, tivemos um pouco do que a corrida é capaz de fazer quando todo mundo se compromete. O episódio do makeover foi um exemplo cabal de que sempre há material substancial nesse tipo de elevação emocional. A chegada das mães e irmãs das participantes gerou um grande burburinho nas redes, mais do que na temporada toda, porque todo mundo tinha alguma coisa a dizer sobre o comportamento de Baga diante da chegada da mãe. Foi ótimo para esquentar as coisas e para preparar o terreno para a finale. Serviu também para estabelecer a rivalidade soberana entre Vivienne e Divina, deixando Baga para escanteio.

Após aquele episódio muito se disse sobre Baga e ela mesma fez questão de esclarecer que a relação com a mãe não é o mar de rosas que deveria. Não sabemos como é feita a escolha de participações em episódios como esse, se é a produção que escolhe o familiar, se é a família que elege quem vai… O fato é que ainda que a mãe de Baga venha a ser uma megera, a corredora não foi inteligente na forma como conduziu o trabalho, jogando a culpa de tudo na mãe, transformando-a numa vítima inevitável e ficando com o cargo de desnaturada.

Foi o melhor caminho para a finale, já que a péssima repercussão do comportamento de Baga jogou-a para escanteio imediato, isolando Divina e Vivienne na posição de rivais intocadas. E foi o melhor caminho, enfim. Divina e The Vivienne tinham força estética e um histórico de mágoas de antes da corrida, que dava o colorido necessário. Mais humilde e um pouco perseguida, Divina seria o underdog mais óbvio para ser defendido pelas massas. Mas, a fragilidade dessa narrativa paralela acabou ajudando Vivienne a não ser ofuscada.

Divinas 

Pessoalmente, acredito que a trajetória de Divina na corrida foi mais vulnerável e crescente, o que combinaria muito bem com uma bela coroa. Contudo, assim como a primeira temporada da Drag Race US privilegiou uma rainha segura, experiente e ligeiramente esnobe, Ru preferiu coroar The Vivienne para que assim se estabelecesse uma base para os anos seguintes. Talvez, no ano 2, venha a hora de prestar atenção numa expressão mais jovial, tal qual Ru fez ao coroar Tyra no lugar de Raven. Olhando para trás, essa decisão de coroar Tyra acabou sendo uma pedra no sapato de Ru, mas fazia sentido naquele momento, porque a apresentadora queria pensar no futuro e ao fazê-lo, alcançou o estrelato.

Não se pode negar, entretanto, que a vitória de The Vivienne foi bastante justa. Semana após semana ela tentava encontrar maneiras de surpreender e mostrar looks e performances que buscassem excelência. Mesmo no desafio do single Break Up – em que ela não estava 100% – a versão que ela produziu foi a melhor. Sua personalidade não é das mais amigáveis, mas provavelmente por ter visto o programa, sua energia no especial That’s a Wrap já era completamente diferente. O especial, em si, não apresentou nada de novo, mas foi uma forma bacana de apresentar ao público a reação diante do anúncio da vencedora, algo que na versão US só vê quem vai atrás do vídeo que é disponibilizado no You Tube. Que torne-se uma tradição.

Enfim, olhando em retrospectiva foi uma boa temporada e um ótimo começo para a produção de uma série que está por vir. Divina, ao receber um abraço da vencedora, diz para ela: Tudo bem, eu ganho o All Stars. Seja onde for, a corrida é preciosa para todo nós. Precisamos torcer muito para que a versão UK reprise o sucesso do original, para que muitas temporadas venham, para que um All Stars seja esperado e assim, quem sabe, a profecia de Divina se realize e vejamos a vitória de quem aqueceu um pouco mais nosso coração.

REVISÃO GERAL
Nota:
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