Toda história precisa de uma vilã; seja ela autodeclarada ou não.

Os defensores do reality show de raízes originais não gostam muito quando se fala em “narrativa”; e por uma razão muito simples: se você fala em narrativa, traz consigo elementos inerentes, como os papeis antagônicos e o maniqueísmo. Se isso nunca se aplicou a formatos como o Survivor e o Big Brother USA, não se pode dizer o mesmo da Drag Race. A corrida de RuPaul é um dos realities mais apegados ao senso de dramaturgia do gênero; com heroínas, underdogs e vilãs impressas da forma mais óbvia possível. As temporadas boas – diriam os fãs – foram aquelas em que esses papeis eram muito bem definidos.

Na história da Drag Race, algumas vezes esses personagens apareciam quase imediatamente: Phi Phi, Roxxxy, Gia… Em outras vezes, as características vilanescas eram ignoradas por RuPaul (Tyra, Raja, Kandy Muse…). Havia também aquelas ocasiões em que a vilania nem era exatamente caracterizável (Derrick, Aja, Valentina…), mas ganhava destaque na sua complexidade jocosa. De fato, volta e meia a corrida elegia uma participante odiada pelas outras. Por ser jovem demais, por ser bonita demais, por ser focada demais, ou pelo simples fato de existir. De Rebbeca Glasscock, passando pela já citada Valentina, até chegar em Aidan Zane, mais recentemente. Nessa primeira temporada da Drag Race Brasil tudo ficou meio pelo caminho; e a porção vilanesca do elenco não poderia fugir à regra. Curiosamente, há uma participante que precisou dobrar suas funções, sendo, ao mesmo tempo, a rejeitada e a vilanizada.

Naza não é uma vilã, mas ela é tratada pelas colegas como se fosse; porque, de fato, ela é o mais próximo disso que essa edição poderia conseguir. Naza não confronta, não briga, não se indispõe. Mas, por alguma razão, joga sozinha desde a primeira semana. Ninguém fala bem dela, ninguém se importa com ela; mas ela não faz a linha ressentida. Para uma vilã, Naza é sorridente e pacífica até demais. Porém, para criar o mínimo possível da tal “narrativa”, ela era extremamente necessária.

I’m NOT your Puppet

Na edição inicial do episódio 7, tudo era sobre Naza. Todas queriam vê-la pelas costas e não fizeram a menor cerimônia quando ela ficou. Hellena parecia que tinha perdido um parente, aliás. Na Season 9 da corrida original – fazendo um pequeno flashback – não tínhamos a mesma visão sobre Valentina que as queens que conviveram com ela tiveram. A edição, é claro, não podia mostrar o comportamento da mascarada off-câmera. Mas, no Reunion ficou claro como Valentina era desprezada pelas outras. Esse talvez seja o caso de Naza.

Contudo, tentar acusa-la de falta de talento vai ser, no mínimo, problematizável. Em alguns momentos, parece que nenhuma delas alcança certos aspectos que são cobrados dentro da estrutura do programa. Um ótimo exemplo disso foi o minichallenge dos fantoches. Ru não faz o teatrinho de bonecos há tempos, mas ele é um clássico, por onde algumas meninas passam incólumes e outras não se dão muito bem. Entretanto, alguma participante sempre se salva; alguma piada sempre se destaca; as coisas não são perdidas totalmente. Na Drag Race Brasil, infelizmente, alguns dos desafios que mais exigem sagacidade delas, dão perda total. Esse foi um deles.

Foi penoso. A produção não se preocupou nem em tirar do texto de Grag a frase que citava o “Glory Hole” típico da corrida original (o buraco por onde as meninas retiravam os bonecos); uma vez que, evidentemente, não havia nenhum “Glory Hole” por perto (elas puxavam os bonecos por trás de uma mesa). E lá estavam as piadas sem graça, a falta de timing, a completa incapacidade de improviso (o que, dentro da cultura da Drag Race, é inaceitável).

Naza foi uma das maiores decepções nesse sentido, aliás. A desenvoltura que ela demonstra nos confessionals nunca aparece nos desafios de comédia. Existe sobre ela uma confiança um pouco delusional, que não permite que ela quebre diante das emanações negativas das outras. Esse é seu mecanismo de defesa; o que não significa que ela não sinta o peso. Ela tem carisma, mas não segura os desafios de atuação. Ela tem boas ideias, mas não segura os looks… Talvez crua demais para o momento – um argumento que teria mais peso caso estivéssemos diante de um elenco coeso, o que não é o caso.

Salva nesse episódio, Naza ficou sozinha no Untucked, brincando com a câmera, cheia de potencial e tão incerta disso. É estranho ver as outras falando dela, quando temos Shannon usando um bojo de peito que parecia que tinha saído de uma boneca, tão pequeno e murcho que era; e, de novo, ninguém se manifestando a respeito. Ela ao menos foi para o bottom com Dallas, que finalmente foi chamada à atenção depois de usar o vigésimo look com a mesma silhueta e o mesmo conceito. Me soa assoberbante que não haja um jurado sequer para apontar o fato de que Dallas era tão obcecada pela própria estética que sacrificou Carmem Miranda no processo.

E se podemos destacar um look nesse episódio seria o look de Miranda, que sempre tem um toque de humor refinado (pelo menos na passarela). O detalhe da coriza no nariz foi muito inteligente.

Maracatu, Maracatu, Maracatu, Maracatu…

No episódio 8, mais um minichallenge conturbado. O ensaio fotográfico veio na reta final; mas, sem orçamento, o máximo que a produção conseguiu foi jogar um balde de água na cabeça delas. Às vezes a água caía muito para fora e o objetivo se perdia; às vezes ficava evidente que era possível ver o balde sendo colocado acima delas; e entre poucas reações convincentes, lá vinha Hellena Malditta imitando Narcisa pela enésima vez. Gata, a gente já te elogiou bastante por isso; já está bom, já entendemos. Enfim, a coisa toda no limite do artesanal… Constrangedor.

As meninas têm as melhores intenções do mundo, mas elas carecem de eloquência. Elas têm problemas de autenticidade, repetem frases feitas e com isso, superficializam até mesmo os momentos em que falam de questões importantes para o país. Numa passarela com temas tão bons, faltou um mergulho dialético nesses três universos. Temos um pouco de referências sobre os bate-bolas (uma arte que vem perdendo força com o tempo sobretudo no sudeste) e também sobre Parintins (graças ao boom de mídia que veio alguns anos atrás). Mas, me arrisco a dizer que o resto do Brasil sabe bem pouco sobre o Maracatu (que para a maioria das pessoas se resume à Maria Fernanda Cândido correndo na abertura de A Indomada).

O Maracatu é belíssimo; faz parte da tradição pernambucana e pode ter parte de suas influências reconhecidas no que o resto do país conhece como Bumba Meu Boi. Os festejos datam da época da escravidão e misturam a cultura africana, indígena e portuguesa. Os figurinos extravagantes, feitos de brilho, retalhos e patchworks, se alternam em máscaras, perucas e roupas gigantes; que acompanham um cortejo de instrumentos, loas e sambas. A figura do Caboclo de Lança respeita rituais específicos, tem raízes no candomblé e sua vestimenta pôde ser vista em partes na passarela do episódio, como no estandarte de mão e nas flores presas nas bocas de algumas delas. Foi lindo.

No que diz respeito à brasilidade necessária para a credibilidade da nossa versão, os esforços estavam ali. Mas, apesar das queens chegarem com looks bons em sua maioria; os jurados ainda têm problemas para dar apontamentos específicos. É difícil prever até mesmo quem estará no bottom ou no top. A edição – provavelmente por orientação superior – evita comentários negativos e fica aquela atmosfera meio Bambuluá, excessivamente positiva e, é claro, negligente. Insisto que para haver evolução é preciso haver a realização dos limites. Se tudo é bom, como elas aprendem alguma coisa?

Mesmo assim, sem apontamentos diretos, o bottom era mesmo claro entre Naza e Hellena. Naza já não apresenta bons looks desde o começo; talvez os jurados agora só estejam começam a perceber.

Betina – também extremamente irregular – conseguiu sua primeira vitória em meio a uma disputa notória com Organzza, que só não vence essa temporada se Grag vier com um lipsync for the crown de última hora. A passarela foi ótima, rica, brasileira, criativa… a crescente discrepância entre o verbo e a imagem. O que não aguento mais ouvir são os comentários genéricos da Bruna: “chegou grandona”, “a gata sempre entrega”, “chegou pisando fofo”... É enervante.

Naza – nossa vilã de sorriso largo –  pisou na passarela com um conjunto de looks pobríssimo. Não dava mais para ignorar e nem perdoar a ignorância. Contudo, não acho que o lipsync era de Hellena (por mais que isso acorde a fúria de alguns de vocês). Achei Naza mais esforçada, mesmo que nesse caso o histórico possa ter contado mais a favor de Hellena. Com apenas mais quatro episódios pela frente (a conta de episódios e queens não casa perfeitamente, o que indica algum double safe ou twist que leve apenas três até a finale, em 15 de Novembro), dava para se despedir de Naza sem que isso causasse danos maiores à temporada. E Naza fez um discurso emocionado, humano… Há algo sobre ela que ainda precisa ser desvendado. Mas, quem sabe… Talvez no All Stars?

Agora já acho possível dizer que as próximas eliminadas poderiam ser Shannon e Betina (que considero as mais irregulares até aqui); deixando o Top 3 formado por Organzza, Hellena e Miranda. Nesse caso, Organzza venceria pelo conjunto da obra; embora Hellena também fosse fazer uma vitória mais surpreendente e mais aquecida pela imperfeição de sua trajetória. Miranda funcionaria como uma espécie de Ginger Minj, sempre bacana, mas não o suficiente para ofuscar as outras duas (deixando claro que até mesmo uma vitória dela seria justíssima). Na cabeça delas, a ameaça maior era Naza (por menos ameaçadora que fosse)… e Naza, como acontece com todo assunto sobre o qual ninguém quer problematizar, foi “varrida para debaixo do tapete”.

Tá acabando… Tá acabando…

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