Este tardio texto é para dizer que o começo e o final foram ruins, mas o miolo foi bom.
A primeira temporada da Drag Race USA não foi a coisa mais bem produzida do mundo. Na verdade, talvez tenha sido o reality show que foi para o ar mais despreparado para isso em termos de produção. O famoso filtro que deixava tudo borrado foi uma saída, inclusive, para minimizar a sensação de amadorismo que cenários e acessórios provocavam. Contudo, o Reunion desse primeiro ano foi um dos melhores.
Vou começar esse texto falando de Reunions porque acho que o Reunion da Drag Race Brasil foi uma espécie de epítome dessa estreia como um todo. Quem acompanha realities pelo mundo sabe como Reunions são importantes para fechar questões abertas nos episódios. Os da franquia The Real Housewives são bombásticos; enquanto os de Survivor costumam sempre tentar amenizar tensões. É a hora de ver tudo que ficou pendente e entender como a exibição da temporada afetou os envolvidos.
No Reunion número 1 da Drag Race USA, Shannel admitiu ter deixado o arranjo de cabeça cair de propósito e Tammie Brown entrou num embate verbal com RuPaul que foi bastante acalorado. Isso só para citar alguns exemplos. Na segunda e terceira temporadas, o modelo se repetiu e nos ofereceu momentos de entretenimento televisivo que ficaram para a história. Estamos falando de Reality Show, gente. Essas coisas importam, porque são elas, essencialmente, que mantém o valor de “realismo” em uma vigência mínima.
Na temporada 4 as coisas mudaram. RuPaul adotou uma postura meio Jeff Probst: tudo era conciliação. Isso nos custou belos Reunions que abordariam as tensões entre Phi Phi e Sharon; Willam e o resto do mundo; Jinkx e Roxxxy; de uma maneira muito mais completa. E a produção sabia disso, porque até um encontro off set entre Laganja e Adore eles arranjaram. Contudo, foi somente na temporada 9 que retomamos o Reunion num episódio à parte… e seguimos assim até hoje. São 15 temporadas e 10 Reunions. O All Stars só teve o da temporada 2 – e infelizmente – porque teria sido muito bom ter visto um da temporada 3 (depois do fiasco do júri). O mais importante: TODOS eles filmados depois da temporada ir ao ar.
E eis que aqui fora, logo depois do episódio 10, uma confusão entre Organzza e Hellena se instaurou. Vejam bem, “explorar conflitos” entre participantes de um reality show é parte da receita. Dito assim, pode parecer inconsequente; mas isso pode ser feito com cuidado suficiente para ser mencionado sem ser instigado. Sobretudo, porque, uma das razões para fazer um Reunion é também resolver esses conflitos. Daquele jeito, na TV, aproveitando para dar voz a quem precisa e calar outras que tagarelam.
Das decisões estranhas que a produção da versão Brasil tomou, esse Reunion gravado antes da temporada ir ao ar é o que faz mais sentido do ponto de vista financeiro. Mas, também é a mais difícil de engolir. Fui avisado no X que ultimamente os Reunions estrangeiros têm sido filmados do mesmo jeito, o que é uma lástima. Soa como o cumprimento de um protocolo e não uma dedicação verdadeira ao que o programa representa. E isso aconteceu em vários momentos dessa estreia do Brasil no formato. Coisas como editar mini-challenges com 10 minutos; descuidar de roteiros que dizem “retirem o boneco do Glory Hole” quando não tem Glory Hole; não mostrar preparação de dança para desafios de dança (porque claramente os profissionais não são brasileiros)… e por aí vai. Todas questões que são explicadas com “mas foi filmado na Colômbia”; numa proliferação indiscriminada do formato, sem preocupação com qualidade e sim com quantidade.
E lá estamos com um Reunion penoso, chato, que era mais um Recap da temporada que uma conversa sobre o que aconteceu (e a produção não tem nem o cuidado de exigir que as queens não votem em si mesmas na hora de escolher a Miss Simpatia; um comando básico; que sem ter sido feito, resulta numa vitória sem pé nem cabeça). O que vimos acontecer durante os episódios não se reflete na conversa, porque elas ainda não viram e não sabem que Naza foi protagonista por um longo tempo; que Betina veio numa ascendência surpreendente; que Organzza fez confessionals polêmicos… Nada se reflete no papo, porque ninguém tem condições de fazê-lo.

E temos uma Rainha…
No episódio final, mais elipses que escondiam processos de criação do número final. Grag Queen fez conforme a cartilha, com desafio grande, entrevistas individuais e quadro de criança para emocionar as participantes. A final, contudo, se desenvolveu da mesma maneira pouco autêntica que marcou tanto os primeiros episódios. Esse foi, de fato, um problema recorrente, que inexplicavelmente atravessava os problemas de edição e alcançava a maneira como as queens se expressavam.
A Drag Race Brasil foi um pouco decepcionante nos detalhes. Não tivemos bordões, taglines, cenas engraçadas que se tornam icônicas… nada. O mais perto que chegamos disso foi Shannon tentando usar como assinatura o tongue pop que já é marca registrada de Alyssa. O lance do chuchu também não deu em nada. Talvez o que mais fique marcado na memória das pessoas seja o fortíssimo Snatch Game de Hellena Malditta.
Há algo no discurso das queens que também sempre soa ensaiado. Acho que o ponto é esse mesmo… Realities tem um “roteiro” de atividades, mas nunca um roteiro textual. A impressão que tive em vários momentos, foi que muita coisa no programa soava dirigida, cênica. As tentativas de humor eram genéricas; os discursos políticos eram genéricos; as queens pareciam a Britney Spears dando entrevistas: até mesmo nos assuntos fora da curva, as colocações eram curvilíneas. O único momento em que elas escapavam disso era quando havia o mínimo de conflitos ou quando elas contavam dramas pessoais.
E enfim, mesmo com o comportamento lamentável de Organzza e Hellena aqui fora, a vitória refletiu o desempenho. Organzza foi a queen mais bem colocada na temporada – e com poucas exceções, era a que entrou melhor preparada. A treta toda borrou gravemente essa reta final; deu um certo dissabor para essa vitória… Mas, foi uma vitória justa; e com uma boa assessoria, Organzza será uma primeira vencedora à altura do que a franquia representa.
Apesar dos problemas, torço muito para uma segunda temporada e torço muito para que o programa dê visibilidade para todas as queens que se dedicaram a compor esse primeiro elenco. Elas foram corajosas e abriram o caminho para que as drags brasileiras também se tornem estrelas mundiais. Um grande e largo amém pra isso.
A forma se corrige… desde que o coração esteja no lugar certo.
Nos vemos no retorno.
PS: Como faço sempre, aqui abaixo está o vídeo da verdadeira reação de Organzza ao resultado.
PS2: a razão pela qual esse texto está saindo tão atrasado é justíssima. Na semana da coroação eu realizei meu sonho de conhecer Nova York.
















