Melhorando a cada semana, a Drag Race Brasil fez um dos melhores Snatch Games da história da corrida.

Toda vez que a Drag Race chega até o episódio do Snatch Game, ouvimos alguém dizer nos Confessionals que “agora saberemos quem é mesmo boa de verdade”. Esse é uma cultura interna que a corrida construiu durante os anos por conta dos resultados das primeiras temporadas. A vencedora da segunda temporada foi Tatianna e a da terceira foi Stacy Layne Matthews; participantes que não foram consideradas através dos anos como participantes conhecidas por talento para interpretação (Tatianna melhorou isso quando voltou no All Stars 2, mesmo com um Snatch Game ruim).

Foi somente a partir da temporada 4 que essa fama de soberania do desafio começou a se estabelecer, com a vitória de Chad Michaels. Ouso até mesmo dizer que foi com a vitória de Jinkx na quinta temporada, que veio a engrenagem principal. Jinkx era considerada uma underdog e foi vivendo Little Edie que ela se impôs diante do time de bulliespresidido por Roxxxy. Bianca Del Rio e Ben DeLaCreme disputaram a vitória na temporada seguinte e fortaleceram a mitologia.

Na sétima temporada, Kennedy venceu (junto com Ginger) e flexibilizou a regra que só permitia personificações de figuras femininas. Bob The Drag Queen manteve a reputação do desafio subindo. Alexis Michelle brilhou no Snatch da nona temporada e como chegou muito perto do Top 4, não desnivelou a lista. Daí para frente, as vencedoras eram sempre queens que ou venceram ou estiveram no Top 4: Aquaria (10), Silk (11), Gigi (12) e Gotmik (13). O Snatch Game só sofreu um baque gigantesco na temporada 14, quanto todas fizeram trabalhos péssimos e Deja venceu por pura falta de concorrência. Loosey LaDuca, que venceu a temporada desse ano, fez um ótimo trabalho, mas passou a temporada 15 inteira sendo ridicularizada.

Ao redor do mundo, há momentos interessantes nas temporadas UK (Baga fazendo Kathy Bates em Mysery é inacreditável), mas o fato de não estarmos tão familiarizados com a cultura local acabava atrapalhando um pouco a experiência. Essa é uma sensação que foi sacramentada quando nos deparamos com o NOSSO Snatch Game, que de Inês Brasil a Narcisa, era constituído por uma lista de celebridades que – graças a Deus – são só nossas. Aliás, se até agora o Brasil da Drag Race tinha se contentado com palmeiras e um carnaval capenga, no episódio dessa semana o que vimos foi a cultura pop nacional explodindo deliciosamente diante dos nossos olhos.

E foi logo de cara, quando vimos que a Grávida de Taubaté seria o tema do minichallenge.  O minichallenge, inclusive, era completamente estúpido, mas daquele modo proposital, intelectualizado, como uma vitrine apenas para que muitas piadas com a situação (e com Cris Flores) fossem feitas. Foi o primeiro glimpse de um episódio que parece ter sido planejado para ser uma celebração do que é o nosso país, sem que nada fosse “encapado” por uma neutralidade vendável ao redor do globo.

Snatch Game

As escolhas das queens foram as melhores possíveis, mesmo que nem todas tenham dado certo.

Narcisa: Hellena entregou uma interpretação como Narcisa que talvez seja uma das melhores de todos os Snatches do mundo. Ela estudou a personagem, acertou no look, estava afiada para as respostas e parecia estar se divertindo num imenso playground. Foi um orgulho.

Inês Brasil: Acho que quando se falava no Snatch brasileiro tudo mundo citava o nome de Inês como uma certeza. Inês é uma figura inacreditável, impressionante, mas exatamente por isso que fazê-la pode ser dificílimo. Shannon parecia um membro da banda Kiss e só queria saber de colocar a língua para fora. Inês tem a maior contagem de memes e bordões do século; e Shannon perdeu TODOS. Foi, para mim, a maior decepção desse episódio.

Dilma: Outro desbunde de competência. Dallas fez um trabalho com Dilma que também já está no hall das genialidades do quadro. Ela não só tinha o look e a voz, como tinha os gestos, a cadência e um domínio incrível das digressões características da nossa querida e injustiçada ex-presidenta.

Marília Gabriela: Meu Deus do céu, que tristeza. Digamos isso: quando Grag dizia “por que?” imitando a Gabi, conseguia ser melhor que a performance inteira de Rubi.

Marcia Sensitiva: Naza desponta como uma daquelas queens meio Rebbeca Glasscock, que todas as outras queens detestam, mas que vai ficando porque se garante na confiança. Ela é necessária demais para a saúde dos dramas, mas claramente não tem nenhum senso crítico. Sua Marcia foi tudo, menos sensitiva.

Maria Bethânia: É difícil para quem conheceu a Maria Botânica do Terça Insana se envolver com qualquer outra interpretação da cantora. Mas, Organzza fez um trabalho decente, suficiente para salvá-la.

Paola Carosella: Miranda apareceu com uma Paola que não é Paola nem aqui e nem na Shopee. Ela não se preocupou nem 2% com a caracterização, com o sotaque, com o ritmo… Mas, não ficou calada um segundo, foi para a sapatonice; e acreditava em tudo que dizia. Fez um bom trabalho de timing, o suficiente para não ser horrível, horrível e nos fazer mal.

Regina Rouca: Resumida em uma palavra: TÉDIO.

O que me deixou mais feliz foi ver como a produção pensou em inserir o nosso mundo não só nas escolhas das participantes, mas também nas perguntas. Fiquei emocionado com Grag citando Marcia Pantera, Silvetty Montilla; sabendo que o mundo inteiro vai ter acesso a isso. Até a Bruna fez bonito, com a ótima resposta citando a treta entre Fábio Porchat e GKay. Mesmo quando a bola caía para alguém, vinha Dilma ou Narcisa e subia de volta (a hora que Narcisa manda um “tá mais travada que eu” eu gritei). Enfim, foi maravilhoso, foi um despertar.

A escolha de homenagear Carmen Miranda na passarela também foi muito acertada; e a maioria dos looks foi bastante interessante. Nesse ponto, precisamos falar sobre a bancada de jurados, que até já se parece com a da corrida original; tomando decisões estranhas e tecendo críticas contraditórias. Me soa preocupante que a edição mostre Organzza e outras queens cobrando que os looks permaneçam dentro do tema, enquanto a bancada ignora desvios imperdoáveis, como o de Dallas. A roupa era linda, mas estava tão longe de qualquer referência à Carmem Miranda, que soava desrespeitoso com as regras do programa. A bancada está ali para isso. Se não fala nada, está até mesmo impedindo que uma das meninas tenha as instruções de evolução que precisa.

Quando, enfim, chegamos ao lipsync, Naza veio com uma performance desesperada e bem pouco precisa. Hellena definiu bem: era visível ali quem estava tendo uma abordagem artística. Manter a Naza é importante, porque é graças aos poucos pontos de conflito que as meninas começaram a parecer mais naturais diante das câmeras. Rubi também não era o tipo de corredora que rendia bons cortes de edição. Contudo, aquele lipsync era dela; por mais que Naza estivesse batendo cabelo e dando cambalhotas (ao som da primeira canção em inglês da temporada, cantada por uma brasileira).

Com resultados injustos ou não, essa foi o episódio que tornou a Drag Race Brasil um braço finalmente reconhecível da franquia; com doses cavalares da nossa cultura pop e um clima real de competição própria. Quando a gente “brincava” de Drag Race no quintal da nossa cabeça, era sempre assim que imaginávamos a corrida: Narcisas gargalhando, Inêses, Montillas, pitadas de lendas de barriga gigante e o melhor do que faz do nosso país o mais doido e mais alegre do mundo.

Estou muito orgulhoso. Muito.

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