Na reta final da corrida o Roast é nos bastidores, mas o enredo dos makeovers até que tinha harmonia.
Uma das minhas curiosidades a respeito da Drag Race original tem a ver com a preparação para os Reading Challenges. Depois que as temporadas superaram os gongos pré-fabricados (“eu não vou te gongar, a vida já fez isso”), vimos as participantes apresentarem uma profunda capacidade de tirar gongos da manga que impressionavam em humor e rapidez de raciocínio. Sempre me perguntei: será que elas vão treinando os gongos ao longo da temporada e acessam no dia do episódio? E no caso do All Stars, será que elas já sabem quem vai e já chegam com os gongos prontos?
Só isso explicaria, por exemplo, o histórico Reading Challenge do All Stars 2, quando Katya chegou com a piada hilária sobre Roxxxy e o ponto de ônibus… quando Alaska zerou tudo com a piada sobre a dieta de ódio contra Jinkx Moonson… Era tudo tão sofisticado e certeiro que não podia ser improvisado. Grande parte do poder da arte Drag passa exatamente por esse lugar: o da sagacidade. Curiosamente, as queens tem assado umas às outras muito mais aqui fora que lá dentro.
Essa sagacidade mencionada nem sempre é do verbo. É curioso falar sobre isso, porque no desafio seguinte – o dos makeovers – está impressa a disponibilidade das queens em compartilhar talentos. A Drag Race Brasil sofre um pouco com a distância do nosso território, mas se sublinha uma falha ao não escolher cobaias que dialogassem com o tema da passarela (o carnaval), demonstra sua sagacidade ao ser aquela que confirma – pela primeira vez – que existe sim a imprevisibilidade nas eliminações duplas ou nos salvamentos duplos. Isso é importante… e já já chegaremos lá.

Assados
Seguindo a tradição dos finais de temporada da corrida original, chegamos até o episódio em que as queens precisam fazer gongação entre elas (ou com algum convidado especial). Diferente do Reading Challenge – em que o improviso é suposto – aqui precisa haver planejamento (caso você não queira fazer a Jasmine Masters). E é por causa disso que o desafio do Roast quase sempre funciona da mesma maneira: algumas queens se saindo bem porque tem o talento para escrever e outras indo mal porque falta o dom da graça calculada.
Aqui é necessário abordar novamente a questão “Bruna Braga”. Me sinto seguro em dizer que para a maioria do público, Grag Queen e Dudu já parecem mais à vontade com suas posições (além de nós estarmos mais à vontade com eles também). Contudo, embora pareça ser uma pessoa bacana e talentosa, Bruna segue tendo dificuldades de marcar seu lugar na bancada.
Ex-maquiadora, humorista, comunicadora… As credenciais e qualificações são inegáveis. Mas, além de um bom currículo, um jurado de reality show precisa ter um tipo específico de carisma e de postura. Bruna claramente quer fazer as vezes de uma jurada mais amorosa, mas demonstra uma dificuldade notória de sair dos mesmos comentários genéricos que em nada ajudam na evolução das queens que estão ali na passarela. De fato, soa emblemático que ela não tenha aparecido para ser a mentora do desafio das gongadas. Não seria uma escolha óbvia? Nem mesmo Júnior Chicó apareceu ocupando essa função (o que teria acontecido na versão original).
Talvez uma plateia tivesse deixado o ambiente mais acalorado. Contudo, o Roast funcionou como já estamos acostumados a ver: algumas se saindo bem e outras mal. O ritmo (mais conhecido como timing, foi a maior deficiência). O set de Betina era realmente o mais completo e havia coisas inteligentes nas outras queens (como a plaquinha de RISOS de Miranda e a boa piada de Hellena sobre não saber quem era Júnior e ter que fingir uma reação).
Alarmante mesmo foi ver Organzza indo muito mal tanto no desafio quanto na passarela. Organzza apelou para piadas prontas, vistas na Drag Race há milênios… acompanhada de Shannon, que cismou em usar as tongue pops de Alyssa Edwards como seu branding na temporada (como alguém não chega e avisa: olha, escolha uma marca só sua). O bottom entre elas foi justíssimo, sobretudo porque, na passarela, Shannon apareceu de novo com um bojo murcho e Organzza com seu primeiro grande look inacabado da temporada.

Mas aí veio o lipsync… Manas, que lipsync! Organzza sabia que deixou a desejar e Shannon estava querendo engolir as outras que disseram o nome dela na passarela. Embora eu ache que Organzza soe um pouquinho forçada quando problematiza até “Festa”, da Ivete Sangalo; nada justifica o hate que ela vem sofrendo por ser claramente e categoricamente TALENTOSA. Shannon e ela entregaram energia, humor, sincronia e muita catarse. Organzza é a favorita a vencer esse prêmio e essa é uma posição que ela conquistou com trabalho e dedicação. Mesmo em seu erro, conseguiu extrair uma narrativa redentora e junto com Shannon, produzir um double safe que não estava nos planos da produção. Isso é para poucas. Não adianta espernear.
Já o que vem acontecendo nas redes sociais… lamentável.
Carnival
Não é incomum encontrar nas redes quem diga que não é um problema que a Drag Race Brasil seja filmada na Colômbia. Contudo, episódios como o do makeover evidenciam que algumas questões são complexas sim. Na história da corrida, os makeovers geralmente recebem pessoas que tematizam a semana. Tivemos veteranos de guerra, influencers, noivos, membros da família… Era de se esperar, então, que numa passarela de carnaval, as “cobaias” para a transformação fossem ser pessoas ligadas à festa de alguma maneira. Não eram.
Ao menos eram todos brasileiros; e embora a distribuição deles para cada uma das meninas não tenha sido como deveria ser (estratégica), eles eram figuras interessantes e muito disponíveis. Foi muito bacana também ver que o double safe da semana do Roast não havia mesmo sido planejado, o que fez com que a produção precisasse escolher alguém entre eles como um quinto elemento para o makeover. O responsável pelas entrevistas do confessional parecia uma escolha óbvia, mesmo porque, é bem possível que ele seja um dos poucos do set que fala português.
Foi um desafio muito bem calculado, porque tivemos até mesmo o participante que era soropositivo e resolveu falar abertamente sobre isso no programa (os fãs se lembrarão do querido Dave, da quinta temporada do original). A Drag responsável por ele era Shannon, mas aqui do lado de fora, esse tópico ganhou dimensões bastante desagradáveis, depois que Organzza e Hellena se engajaram em uma briga pública que foi iniciada por conta de ataques à Organzza durante apresentações ao vivo. Aparentemente os ataques vieram de fãs de Hellena; que foi dizer que os fãs de Organzza estavam sendo sorofóbicos; levando Organzza a se declarar também soropositivo porque Hellena estaria “obrigando-a” a isso.
Um fuzuê desnecessário que teria sido evitado com uma boa assessoria. Curiosamente, ao mesmo tempo em que dizem que o hate na internet é inadmissível, cada vez que uma vai para a rede reclamar da outra, alimenta e direciona mais hate, mantendo a roda em alta velocidade. Organzza – que foi pega em tweets antigos acusando Juliette de se vitimizar – acabou piorando muitos as coisas ao atribuir à Hellena uma responsabilidade que ela não tinha: Organzza falou sobre seu status porque quis. Hellena, por sua vez, deveria entender a sensibilidade desse tópico já que Organzza confidenciou esse status apenas a ela. Ter escrito aquele tweet com mais cuidado não custaria nada a ninguém. As duas caíram na armadilha da comunicação via hate, mas sinto que a situação toda vai ferir a reputação de Organzza muito mais.
E tudo isso começou com a queen vencendo o desafio de makeover. Os fãs adoram usar a palavra “cotada” para desmerecer o talento de quem está no favoritismo (quando esse favorito não é o seu). Hellena ganhou muita popularidade nos últimos episódios e no makeover fez um look mais seguro, o que fez parte da audiência julgar sua transformação como a mais “bonita”. Isso é totalmente subjetivo; e no final das contas, quem foi mais forte foi para a final.

Nesse Top 4, Organzza tem a frente pelo número de vitórias. Hellena virou sua rival direta, mas somente aqui fora. Lá, ela e Miranda estão sempre oscilando. Em ascensão mesmo, só Betina. Com essa confusão causada nas redes sociais, a vitória dela seria não só justa como imparcial. Considerando que o Reunion vem aí e o clipe mostrou que Organzza comprará mais briga, o resultado da coroação pode sofrer ainda mais mudanças. Foi-se o tempo em que isso não contava… Nos dias de hoje, depois de seu comportamento irascível no ateliê, Tyra Sanchez poderia não ser coroada.
Por fim, agora é uma questão de você aí decidir o que pesa para você. Se achar que a justiça das vitórias prevalece, Organzza venceria. Se achar que Hellena e Miranda ofereceram mais complexidade, a vitória seria delas. Se achar que é importante premiar evolução e escapar das confusões externas, então Betina seria a vencedora.
E aí? Quem vence?
PS: Mauro Sousa; esse lindo (dizem que eu e ele somos muito parecidos)
















