A Drag Race Brasil começa, finalmente, a encontrar o ritmo do formato (para o bem e para o mal).
Quando a Drag Race começou – lá nos primórdios dos tempos – a produção do programa organizava os desafios de forma que eles pudessem cumprir demandas não só de talento como também de questões sócio-políticas. O primeiro desafio dessa natureza se chamava VIVA Glam e talvez tenha sido responsável por colocar a corrida – definitivamente – no radar daquela modesta audiência. Ongina declarou ser soro positiva nesse episódio, conquistando os corações dos fãs e se tornando um dos primeiros marcos da mitologia do programa.
O desafio se repetiu algumas vezes depois, mas suas marcas mais profundas ficaram por ali, naquele começo. Essa talvez tenha sido a razão pela qual a produção da versão Brasil tenha escolhido algo parecido para ilustrar essa primeira temporada. As competidoras também tiveram que criar um anúncio de 30 segundos e falar de alguma questão sócio-política; de preferência colocando na frente dessa criação algum traço pessoal que demonstrasse sua vulnerabilidade.
A própria existência da Drag Race já é o maior brado político que a comunidade poderia estabelecer; mas, a gente entende que como estamos falando de um programa de TV, é necessário forçar a porta para que o conteúdo necessário escorra dela. Temos sempre as conversas do espelho na hora da maquiagem, mas a proposta desse tipo de anúncio é falar para um eventual espectador que não tenha sido tão educado a respeito de questões importantes acerca de minorias e diversidade. Isso não significa, é claro, que isso é feito da maneira mais efetiva.
Por limitações de tempo e abordagem, o resultado desse tipo de desafio (seja na corrida original ou não) acaba sempre sendo superficial. Os textos montados pelas meninas ficam rasos, as declarações ficam com cara de atuação; e emoções são bombeadas por uma edição que não tem tempo de sublinhar progressões. Drags muito talentosas conseguem fazer humor com a situação ou mesmo parecer extremamente naturais. Esse é o tipo de desafio que depende exclusivamente do elenco; e isso é preocupante porque várias delas ainda não saíram completamente da Stranjavention.
Sentindo coisas
Finalmente o minichallenge foi mini. As meninas na corrida original já tiveram que decorar bolos, bonecas, caixas, arranjos de cabelo… enfim; estamos familiarizados. Depois que essa bobeira toda acabou, cada uma das queens teve que sortear de uma caixa uma palavra que serviria de inspiração para criação de seu roteiro de vídeo.
E aí, é aquilo… Para conseguir se envolver com o episódio, você precisa entender que frases feitas que parecem aquelas atribuídas a Jô Soares ou Clarice Lispector, vão ficar pipocando pelo episódio o tempo todo. Se você não deixar o cinismo numa gaveta por uma horinha, vai passar o episódio todo revirando os olhos; porque, é claro, todas elas querem demonstrar que são conscientes e informadas. Nem tudo aí consegue passar da etapa das boas intenções.
A edição pode ter cortado o passeio de Grag pelo ateliê; ou ele simplesmente não existiu. Sinto falta dessa conversa pré-desafio, porque ela não só ajuda as meninas, como é o momento em que o apresentador mostra seu diferencial. São nesses momentos que Ru fica mais humano, o que é sempre ótimo para o episódio e para as competidoras. Grag andou soltando boas piadas e comentários de passarela nos últimos dois episódios, mas seu alcance enquanto mentora do elenco ainda deixa muito a desejar. Não adianta forçar a cada vez que chama as gatas de “minhas filhas”; porque, de fato, elas são “sisters” e isso é só um estabelecimento natural, não é culpa de Grag e nem algo em que ela devesse pensar antes de aceitar o convite. Uma vez que acharam que ela era a melhor opção, ela tinha MESMO que agarrar com unhas e dentes.
A gravação dos vídeos foi monocórdia. O valor de produção dos cenários também segue constrangedor. A edição fez bem em valorizar os momentos em que houve emoção. Ela não necessariamente foi eficiente em apontar storylines de quem foi bem ou foi mal; mas seguiu de forma decente, dando espaço para que o público conheça mais de cada uma delas. Esse não é um elenco bem articulado, mas as drags brasileiras AINDA não são donas do mercado principal do entretenimento e falar bem depende de experiência (e leitura). Mais uma vez: aqui não tem nenhuma intenção de “shade”. É um apontamento de quem está torcendo para que muitas e muitas temporadas venham, o que vai polir o talento e o verbo do nosso nicho (assim como aconteceu lá no original).
Foi interessante, aliás, ver as meninas falando sobre o fato de que as drag brasileiras abrem os shows das queens que vem de fora. Eu estive em shows da Alaska, Yvie, Brooklyn… e é muito notório como existe uma linguagem diferente. A questão é que a linguagem que vem de lá também não é a mesma que teria sido antes de 2009, quando a corrida ainda não existia. A Drag Race mudou a arte drag por lá, várias queens viraram queens por causa do programa, várias tiveram que evoluir junto… É evidente que se as nossas meninas parecem um pouco para trás nesse circuito é porque sempre fomos espectadoras da corrida e não potenciais participantes. Agora sim, as queens do Brasil podem entrar no formato, o que também vai impulsionar o mercado e, consequentemente, as habilidades de cada uma.

A passarela foi bem interessante; já os vídeos, nem tanto. Aquarela precisa de MUITO mais tempo de experiência para ser forte numa competição dessas. E ela não vê isso, o que vai atrapalhar muito sua evolução. Betina estava com um look forte, mas Dudu tinha razão quando falou que ele não tinha shape. Hellena estava muito bonita, mas no vídeo ela parecia morta por dentro.
No vídeo de Rubi Ocean ela fez Shakespeare, só faltou um crânio na mão da gata. Já o da Shannon era triste, pessimista… Contudo, os discursos dos jurados para ela foram o ponto sentimental alto da passarela. Ainda acho que Shannon não deu o tom certo nem no vídeo e nem na fala da passarela (havia um certo assistencialismo no tom), mas os jurados ajudaram bastante a dar mais força para o momento. Os looks dessa leva estavam, para mim, quase todos bons (com o de Rubi um pouco aquém dos demais).
Naza e Organzza foram espertas e tentaram fazer um pouco de humor. Os tons de voz estavam mais para cima, mais otimistas; o que é importante nesse tipo de mensagem. Miranda também não fez feio; e com aquele look ela deixou todo o resto nublado. Foi uma interpretação realmente inteligente do tema da passarela. Organzza, ao que parece, vai ganhar essa bagaça. O look da cobra estava deslumbrante (e como disse Esse Menino, ela soube como usá-lo). A cereja veio na piada ótima do Dudu usando a palavra “cobra” para fazer joguinhos. A bancada essa semana estava muito boa, muito espirituosa e comprometida. Aliás, Esse Menino seria um jurado bem melhor que a Bruna (ela veio grandona, mas não veio… ela é perfeita, mas não é… Bruna não se encontrou ali ainda).
Outra coisa, é que o desafio principal ainda continua desconexo do resto do que acontece no episódio. A passarela não tinha nada a ver com os vídeos e nada a ver com o minichallenge. Não consigo entender a dificuldade de estabelecer unidade no episódio, mas vá lá… só podemos torcer para que isso também vá melhorando com o tempo. Quando as coisas funcionam minimante, a gente vai perdoando esse tipo de coisa. O riso é a salvação de qualquer limite.
O lipsync foi digno, bem daquele jeito Drag Race. O reveal de Dallas foi meio desengonçado, mas ela se preparou; ponto para ela. Aquarela já deveria ter saído antes. Ela ainda está verde e não aceita críticas muito bem. Foi uma saída justa e Dallas, para mim, nem deveria estar naquele bottom. Acho que Rubi fez um look não tão bacana quanto o de Dallas e o vídeo foi tão ruim quanto o dela. Mesmo assim, foi por pouco; e saiu quem deveria ter saído mesmo.
Semana que vem teremos o Snatch Game e as primeiras promos, com Narcisa e Dilma, me deixaram bastante otimista. A hora de saber do que a Drag Race Brasil é capaz chegou. Não só veremos quais queens realmente foram para ganhar, como veremos também a edição alcançar o seu maior nível de exigências. Ritmo, humor, sagacidade… Tudo isso precisa estar impresso no próximo episódio. É nele que saberemos que sucesso potencial é esse que temos nas mãos.
















