Novas regras, mesma diversão. O All Stars finalmente – e felizmente – voltou.

Desde que o formato do All Stars mudou, lá na icônica segunda temporada, que a Drag Race alcançou, para mim, o seu auge. As temporadas regulares ainda são mais importantes, porque nos apresentam novas meninas, novas possibilidades e tem um título mais relevante no mercado. Mas, o All Stars esquentou a competição como as temporadas regulares raramente conseguem fazer e desde então, se tornou a versão mais divertida de toda a franquia comandada por Mama Ru. Com a estreia do adiadíssimo quinto ano, só comprovamos que no quesito drama, intriga, talento e rivalidade, o All Stars é soberano.

Mas, nem só de tensão vive o programa. O All Stars também é uma valiosa chance de redenção. Seja para corrigir uma postura errada, seja para demonstrar uma evolução conceitual… O All Stars é um reboot na própria reputação, o que pode ser positivo para algumas e consternador para outras. Há meninas que conseguiram reverter um pouco da encrenca em que se meteram nas temporadas regulares, como Roxxxy. Há outras que só aumentaram sua já ótima reputação como Alyssa e Dela. E outras que perderam pontos nas carteiras, como Latrice, Valentina e Chi Chi. A seleção de casting, inclusive, procura sempre seguir uma mínima linha de racíocínio nesse sentido, chamando meninas que tenham algo a provar ou comprovar (e às vezes chamando quem aceita mesmo).

A seleção dessa quinta temporada tem algumas posições providenciais, por exemplo. Shea e Jujubee quase venceram suas temporadas e assim como Alaska, estão buscando outra rota para o próprio destino. Cracker era muito popular. Mayhem tinha uma grande reputação e falhou. Ru também está dando para as meninas do All Stars 1 a chance de deixar aquela edição horrorosa para trás (Chad, contudo, jamais viverá essa glória)… Enfim, a vontade de reescrever a história é concreta. Porém, Derrick Barry, eliminado nessa primeira semana, foi o exemplo maior de que muitas vezes a história se recusa a ser reescrita.

Mas, vamos falar sobre esse time e sobre como cada uma se saiu individualmente, da entrada ao show.

Shea: Quando ela citou a frustração que sentiu ao ver Sasha revelar as pétalas da peruca, eu tive vontade de dizer: “quem sabe você não poderia ter pensado: essa canção não é para ser dublada com cara de tesão e roupa de couro”. Shea entrou poderosa como sempre, ela é definitivamente uma presença. Mas, se aquele lipsync com Sasha sempre me faz lembrar que ela cometeu um grande erro sim, nesse primeiro episódio a dança do Pole Dance me deixou com mais um pé atrás. Eu esperava bem mais. Contudo, já ganhou pontos por ter tentado algo que nenhuma menina tinha feito antes.

Cracker: Uma querida. Se os looks da entrada e da passarela não eram tão inventivos, a letra da música que ela dublou no palco era. Cracker tem uma vibe ótima, dá declarações sempre divertidas e aqui tem a chance de sair da sombra de Aquaria, o que a atrapalhou bastante em sua temporada. A coisa toda do “oh, ela tentava ser muito perfeita”, para mim, foi o mínimo adicional na conta de sua eliminação.

Alexis: Alexis foi a primeira do All Stars 1 a entrar, confirmando que Ru quer deixar aquela temporada para trás mesmo. Alexis é sempre competente, sempre comprometida e fiel às suas raízes (o que foi ótimo considerando a presença de Ricky Martin). Ela ainda faz a mesmíssima drag de dez anos atrás, sem absolutamente nenhuma evolução (até agora). Mas, ao menos faz bem feito. Sua apresentação no palco foi enérgica e divertida. Se não se livrarem dela rápido, ela vai longe.

Blair: Tomou um suco de frutas gummy e chegou fazendo a femme fatale. Não soou muito natural para mim (embora a cortada no read que Alexis mandou para ela tenha sido sensacional). Blair teve uma daquelas eliminações muito criticadas pelo fandom e é magrinha, menininha e branquinha, o que é garantia de uma defesa passional de boa parte dos espectadores (sabemos bem). Se fosse eu na bancada, ela tinha ido para o bottom na mesma hora. Sorry, mas apesar do look estar incrível, ela não canta bem.

Mariah: Uma escalação que não conseguirei entender. Mariah para mim sempre foi uma participante meio “filler” e não tenho nenhuma grande recordação dela em sua temporada. O look de entrada me pareceu meio confuso e a apresentação no palco, embora elogiada por Ricky Martin, teve sua dramaticidade atrapalhada pela voz. A voz de Mariah não consegue imprimir nuances, sempre foi assim. É uma espécie de Síndrome de Tyra.

India: Foi a entrada que mais me chocou. Dez anos se passaram e India continua com uma maquiagem ruim e um gosto para looks que está além do péssimo. Aquela entrada foi uma tristeza, porque ela não está nem remodelada, nem remasterizada e nem 2.0. Ela está mais para 0.2. Se o look de entrada era horrível, o que ela usou para seu bate cabelo no palco era pior ainda. E quando achamos que não poderia piorar, na hora da dublagem ela apareceu com uma roupa que doía nos olhos. Para mim, sua vitória foi apenas uma busca pelo drama.

Jujubee: Mais uma remanescente do All Stars 1 que veio para corrigir o curso dos acontecimentos. Segurem aí que Raven, Chanell, Yara, Nina, Mimi e Pandora ainda têm chances. Jujubee foi consistente e entrou de novo com mais um look bem simples, mas, dessa vez, polido. Sua apresentação foi ótima para colocar em comparação com Blair, que não cantou com nem 2% do talento da colega.

Derrick: Talvez de todas as competidoras, Derrick seja a que tinha mais o que provar. Sem a mesma experiência que Chad, lutou muito para conseguir se desvencilhar de Britney e falhou. Eu me compadeço da luta de Derrick porque imagino como sua cabeça não deve fervilhar com o conflito constante entre ser bem sucedido fazendo Britney e, ao mesmo tempo, precisar cumprir as expectativas de quem espera que ele a abandone. No show de talentos, por exemplo, seu raciocínio foi “meu talento é imitar, mas vou provar que imitar para mim vai além de Britney”. Foi a pior decisão, porque aquele era um show que pedia Britney. Derrick poderia ter sido salvo. Mas, enfim… Vamos falar um pouco mais disso lá na frente.

Mayhem: A eterna promessa que nunca se cumpre. Mayhem tem uma vibe superpositiva, mas ela está cristalizada e está na hora de aceitar isso. Ali não há mais para onde ir. Ela parece Jasmine, dizendo sempre que vai arrasar e ficando sempre entre os piores.

Ongina: As pessoas sempre pedindo Ongina no All Stars e eu dizendo “deixa isso quieto”… Algo me dizia que era melhor ficarmos com as lembranças que tínhamos dela. A entrada de Ongina já me aborreceu. Ela parecia um Cavaleiro do Zodíaco. Na apresentação de palco, puxou saco de RuPaul e fez uns passos de dança que vamos combinar… O bottom com Mayhem e Derrick foi merecido, mas Ongina e Blair também mereciam a posição.

Manter Mayhem na competição não foi uma decisão que vai resultar em entretenimento. Em apenas um episódio, Derrick já arrumou um drama com India que merecíamos ver estendido por mais algumas semanas. Além disso, realmente acho que Derrick tem razão quando diz que não importa o que ela vista ou faça, as pessoas nunca olharão para ela com atenção e boa vontade. Dizer que ela sempre será Britney é o caminho mais fácil e mais injusto. A perspectiva de viver com cobranças pelo seu “verdadeiro eu” é terrível. Do ponto de vista identitário e existencial, há uma imensa crueldade que ronda Derrick, já que ninguém, absolutamente ninguém, se esforça para enxergar além do que já está estabelecido. Barry, para mim, deu muitas provas em sua temporada de que não era só uma reprodução de Britney (e acho que Bob The Drag Queen, no desafio que fizeram juntas, concordaria com isso).

A nova regra de eliminação aumenta as tensões no grupo, que agora pode até mesmo se organizar em torno de um objetivo comum. O acúmulo do dinheiro também é um incentivo que garante boas dublagens. Acho que, em parte, quando deu a vitória do lipsync para Yvie, Ru estava tentando impedir que Derrick fosse eliminada, o que, em sua cabeça, poderia ser uma certeza se India vencesse. A decisão do grupo de manter Mayhem também é estratégica, já que ela é uma certeza de bottom e pode sempre ser usada como coringa na arrumação das peças do jogo. Elas foram espertas, mas quem perdeu com isso fomos nós.

Fica a frustração por ver Derrick sair primeiro, mas fica também aquele lipsync “allstarniano” de Ivye. A estreia dessa edição foi tudo aquilo que eu queria e precisava tanto. Só de saber que teremos dez semanas de pura diversão pela frente, já me sinto capaz de enfrentar mais isolamento. Espero de verdade que esse ano ainda seja possível gravarem o All Stars 6, porque esse é o reality número um de qualquer grade e diversão agora é um direito e um dever. Em meio a tanta tristeza e mazela, em meio a lembretes constantes de que estamos cercados de dor e ignorância, a arte ganhou uma importância essencial para o acalento do nosso espírito. Eu critico porque é meu dever, meu trabalho, minha paixão. Mas, tudo na Drag Race é alegria e contentamento. Qualquer uma hora do dia imerso em fantasia e riso, é ouro pra mim.

Nota do Untucked: Sim, nós temos um Untucked. Eu decididamente não esperava, tanto que a review foi publicada sem que eu tivesse alguma preocupação com isso. E eis que a edição cresceu tanto que ganhou seu próprio programa de bastidores. E definitivamente acho que o modelo do All Stars tem que ser mantido nas temporadas regulares. Além de um maior senso de bastidores, a mensagem da família para a eliminada é uma ideia emocional e reconfortante. Não muito no caso de Derrick, que meio que desprezou a mensagem dos maridos. Mas, é uma boa ideia. Além disso, tirar as meninas salvas do palco e impedi-las de ouvir as críticas dos jurados é mais uma forma de provocar o caos e eu não poderia ficar mais contente. Também foi interessante ver como Ongina ficou na berlinda principalmente segundo a avaliação de Cracker. Mas, ainda que a posição de Derrick tenha sido questionada, quase todas acabaram votando em Mayhem, que soa cada vez mais a Roxxxy e a Chichi da competição, aquela que todo mundo vai mantendo “só porque é legal”. E sabendo dessa novidade do Untucked fiquei esperando Ru aparecer para falar do Ruvenge. Será que vão abrir mão desse clássico?

REVISÃO GERAL
Nota:
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