Alguém vence; os fãs respondem com críticas intermináveis, zombaria ou ódio declarado; as queens criticam o fandom; o fandom fala sobre o quão horrível é o fandom… O “problema” da Drag Race seria mesmo o simples “favoritismo”? 

Qualquer fã de reality show com mais de 30 anos de idade sabe que quando o formato surgiu, veio junto com ele a mais cristalina desconfiança. Para grande parte do público, programas desse tipo eram “jogos de cartas marcadas”; e foi preciso um longo caminho para que parte desse público entendesse que as “cartas marcadas” mudam de estratégia conforme as narrativas se desenvolvem. 

A sensacional primeira temporada da série UnReal encenou um pouco de como essas engrenagens funcionam. Os produtores escalam um grupo de participantes tendo já uma boa ideia de quem vai ocupar determinadas posições. Contudo, com o passar dos episódios, o fator imprevisibilidade pode desvirtuar esse plano, o que obriga os responsáveis pelo programa a recalcularem a rota. 

Por exemplo: é perfeitamente possível que RuPaul e a World of Wonder tenham considerado Bebe como uma vencedora provável para a primeira temporada. O mesmo deve ter acontecido quando escalaram Raja para a season 3. Mas, duvido fortemente que Tyra fosse uma favorita para eles quando o segundo ano foi decidido. Outro grande exemplo foi a ascensão de Jinkx na temporada 5; com a ajuda do antagonismo de Roxxxy; o que é uma loucura, porque, provavelmente, os produtores deviam achar que Roxxxy seria uma vencedora muito mais iminente. 

E embora nunca tenha havido uma admissão a respeito do All Stars 1, a criação dele e a vitória de Chad pareceram uma “manutenção de danos”, considerando o grande problema comercial que a coroação de Sharon tinha causado. Coroação essa, aliás, movida essencialmente pela opinião pública. Contudo, nem Bebe, nem Tyra, nem Raja, nem Sharon e nem Jinkx foram menos merecedoras de suas temporadas. Os produtores de um reality criam as cordas, mas nem sempre elas aceitam ir para onde eles puxam; sendo a vitória de Sasha Velour e a vitória de Trixie Mattel o argumento definitivo a respeito. Eles não têm o controle de tudo. 

É seguro dizer que desde os problemas causados por Tyra e Sharon; começou a haver uma preocupação maior com quem iria seguir com o legado da corrida. Conforme a relação das participantes com a WoW foi se desgastando, foi ficando mais importante para a empresa coroar queens que não confrontassem o sistema. Valia mais para eles a segurança de coroar uma queen que eles tivessem certeza que seguiria com uma postura discreta em relação ao sistema que a coroou, do que uma queen imprevisível que poderia se tornar um entrave no futuro. Marcos da Drag Race nunca serão os mesmos depois que Tyra, Sharon e até Alaska foram banidas, impedindo reuniões e especiais focados em vencedoras. 

Acredito que a escalação de Ginger não foi a única escolha estratégica. Para cada grupo desse formato do All Stars 10, deveria haver alguém mais “seguro” para absorver a coroa da maneira que eles precisam que ela seja absorvida. Aposto em Aja, Ginger e Jorgeus, porque foram elas as mais celebradas pela edição dos episódios. Mas, também havia segundas opções caso o plano A falhasse. Se Ginger entra e começa a errar demais, dificilmente a edição conseguiria salvá-la completamente. Mas, se ela conseguisse ir bem (com a ajuda deles, claro, escolhendo desafios e atalhos que facilitassem seu desempenho), a coroação seria coerente mesmo que o favoritismo fosse notado. 

E Ginger foi bem. Tenho reservas quanto a seu estilo de lipsync, mas isso tem muito mais a ver com gosto pessoal do que com tecnicalidade. Toda queen dubla quase sempre do mesmo jeito e seria injusto apontar problemas nos métodos de Ginger quando os de Jorgeus, por exemplo, também são sempre os mesmos (apenas mais acrobáticos). E também precisamos considerar que Miss Minj já passou pela corrida outras três vezes, e em uma delas (All Stars 2) teve um desempenho fraquíssimo. Ela passou por todos os terrores de ser uma participante; o que faz com que essa vitória seja tudo, menos “fácil”. 

O All Stars 10 conseguiu se destacar depois de muito tempo derrapando na busca por um novo formato. Agora alheia a confrontos, RuPaul acabou com Reunions e com o formato do batom, entregando o programa ao tédio absoluto. Por sorte, essa percepção também chegou até as queens e algumas delas já estão entrando na corrida dispostas a recuperar parte do drama de outrora. Nessa edição, tivemos desde a vilania “soft” de Nicole até o exagero completo de Mistress. Mas, sobretudo, tivemos conflito. 

Tenho pavor de Mistress. Existe um tipo de vilã divertida, como Plane Jane e Willam, que pode ser a alma de um reality. Existem vilãs dissimuladas, como Phi Phi e Dawn, que estão sempre no limiar da maldade. Existem vilãs delusionals, como Kandy Muse e Lux, que nos tiram do sério, mas são midiaticamente performáticas. Mas… Mistress conseguiu o feito de dar a volta na agradabilidade da vilania e se tornar apenas insuportável; como uma attention whore que quando não está desesperada para estar na TV, está desesperada para manter o status conquistado na TV. 

Juntar-se com Jorgeous para enganar Nicole e Kerry foi difícil para quem estava no programa, mas nem tanto para a audiência. Foi um movimento digno de um reality show que se preza como peça marcante do gênero. O problema, enfim, foi a incapacidade de Mistress de reconhecer a hora de equilibrar as coisas. Seu retorno na união dos grupos foi marcado por interações bisonhas e provocações gratuitas. Além disso, para ser uma vilã soberana e não sair por aí com fama de maluca, é preciso ser muito boa nos desafios. O shade sem a competência como escudo soa absolutamente ridículo. 

Mas, sim… o formato funciona. Ainda é uma pena que queens que passaram pelo programa no passado mais remoto – como Phoenix e Nicole – tenham tido pouco reconhecimento; ou que queens muito mais maduras artisticamente – como Tina, Bosco e Denali – tenham perdido espaço. O All Stars também serve para evidenciar realidades que podem ser duras para as participantes, como Aja transparecendo uma inconsistência coerente com sua dificuldade de reajuste pessoal; ou mesmo como a evidência de que Cynthia Lee não é uma queen que se entende bem com a competição. 

O Tournament All Stars foi muito positivo para Bosco, Irene, Tina, Lidia, Kerry, Acid e também para Jorgeous e Ginger; formando uma reconstrução de reputações condizente com a proposta do spin-off. No final das contas, importa muito pouco vencer a coroa quando falamos de quantias. A insistência de Ginger estava muito mais ligada a uma questão pessoal, a uma busca pela reafirmação. E não será uma surpresa caso ela reapareça numa nova temporada All Winners. Miss Minj sempre foi esperta e manteve sob cuidadosa manutenção sua relação com a World of Wonder. 

De fato, não está no favoritismo dela o centro das fraquezas da corrida. Não me importaria nem um pouco em engolir uma participante cotada se os desafios fossem cada vez mais desafiadores, se os jurados fossem mais severos e se a edição fosse menos vanilla

Quanto mais RuPaul “elegantiza” o formato para continuar elegível para o mainstream, mais o programa perde o fator “reality” que ajuda a melhorar o “show”

RuNotes:

  • Ginger perdeu bastante peso entre as filmagens, fazendo com que a primeira Big Girl a vencer a corrida fosse, enfim,  elusiva. 
  • Lidia anunciando a si mesma como “filha de Mistress” foi um dos motivos que a fizeram menos interessante para mim. Parecia um coadjuvante de filme adolescente que vira capanga do grande valentão do colégio só para ficar protegido. 
  • Nicole Paige Brooks: como não amar a péssima estética e o maravilhoso delusional? 
  • Ariana Grande e Cynthia Erivo como juradas: <3.
  • Aja ENGOLINDO Irene em um dos lipsyncs. 
  • Bosco retirando o acessório de cabeça e transformando nos leques burlescos ficará para sempre na minha memória. 
  • Cynthia jamais deveria ter seguido para as semifinais. 
  • “Eu nunca perdi uma dublagem na Drag Race”.
  • Deixo vocês com o vídeo que mostra a verdadeira reação da vencedora do All Stars 10.

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