O episódio mais fraco de Quantico.
Quando se tem um bom ponto de partida e já se sabe aonde quer chegar com sua história, reservar um momento para descansar dos acontecimentos e trabalhar a dinâmica e relacionamento entre as personagens é uma boa ferramenta para a construção de um bom roteiro e de uma trama bem fundamentada. Quando, pelo contrário, a percepção é de que mal estabelecemos o enredo central e já estamos desviando do assunto para correr através de outras veias descendentes da história principal, a única coisa evidente é a incapacidade dos roteiristas de manter sua trama interessante, tendo que recorrer a diversos recursos sem os quais mal conseguiria preencher os quarenta e cinco minutos em tela. Algumas séries sofrem por penar nessa segunda categoria, mas fazem isso de forma tão nivelada que mal percebemos. Ou às vezes conseguem desviar do assunto com subtramas que não acrescentam em nada ao desenvolvimento da produção, mas que são interessantes de acompanhar. Quantico não consegue fazer isso. Quantico falha grosseiramente ao fazer isso.
Ainda nessa brincadeira de transitar entre o passado e o presente, a série se perde na proposta de se levar a sério. O atentado, que deveria ser o mais importante dentre todos os acontecimentos mostrados e todas as narrativas que a produção se propõe a seguir, fica como pano de fundo e é diminuído diante dos dramas adolescentes e questões que destoam totalmente do tom que a série tenta dar a si. Comparando com o que aconteceria caso a situação da série fosse real, sabemos que deveria existir na investigação um tom de urgência e tensão que não ocorre no decorrer das cenas.
Um problema muito evidente em Quantico é a vontade de dar espaço a subtramas que sequer deveriam existir e não focar na real razão da série de ser. É sempre gasto muito para mastigar momentos e cenas que não levam a lugar algum e dão voltas com suas personagens. Deve-se diferir ritmo lento, como ocorreu semana passada, com o qual não tenho problema, de apenas parar a série e não dar passo algum, zombando da capacidade do público de distinção nesse processo. É muito mais interessante, por exemplo, a forma como Ryan parece tanto um antagonista quanto um mocinho quando toma decisões controvérsias (ter acusado Alex de ter lhe dado um tiro, por exemplo, alegando que isso iria lhe proteger), do que essas brigas intermináveis e sem cabimento que envolvem confiança entre eles.
A série tem usado o recurso de apresentar no presente uma personagem já como suspeita, mas depois desconstruir isso da maneira mais absurda possível. Isso já se tornou cansativo, e, após esse episódio, aparentemente lidaremos com o envolvimento das gêmeas no atentado, para descobrir, mais tarde, que elas nada fizeram e que a culpa pode ser dessa nova personagem avulsa que colocaram para fazer par com Shelby – ou até de Natalie. Se houvesse, de fato, um jogo de intrigas bem fundamentado que brincasse com nossas suspeitas e atiçasse nosso lado Holmes, não haveria reclamação alguma de minha parte. O problema é que a série está apenas se ocupando de jogar a culpa em uma pessoa por episódio, mesmo quando já sabemos que obviamente aquela pista é falsa.
As personagens se traem muito na história, bem mal desenvolvidas por sinal. Já gastamos muito tempo falando de como Alex não é a melhor protagonista do mundo, e eu ainda culpo o roteiro, não a atriz, mas o resto da turma não está muito distante. Após descobrir uma câmera no quarto do filho de Miranda, Liam não é sequer capaz de suspeitar das intenções da bizarra lição que fora dada aos recrutas para investigarem a vida da professora. Um exercício totalmente inverossímil e que só fora colocado na série para introduzir a cena em que Alex descobre a verdade sobre Ryan. Não havia maneira mais boba de isso acontecer. A série tem necessidade que as coisas aconteçam em seu enredo e faz de tudo para isso, mesmo que o resultado seja o mais inacreditável possível. O envolvimento das gêmeas, uma delas, mas vou ficar devendo qual, com Simon na semana seguinte àquela que se comprometeram fielmente com a sua missão não cabe ali também. Será que ela achou realmente que havia alguma chance de isso dar certo? Esse vício de Quantico em reviravoltas faz seus episódios padecerem de falta de coerência e se perderem sem rumos.
“God.” é o episódio mais fraco de Quantico a ser exibido nesse curto histórico da série. Torço para que ele não seja um indício do que presenciaremos no restante da temporada. Talvez pela necessidade de preencher alguns furos, a série tenha se dado o direito de descansar nesse domingo. Espero que minhas esperanças não sejam tão fantasiosas quanto o atentado que a série tenta tão mal retratar. Sigamos.















