E a trama finalmente se adensa.
Uma das características mais marcantes de Fargo é sua imprevisibilidade. Cada vez que temos a certeza convicta de que a trama está caminhando para um determinado lugar, tudo muda e nos pegamos perplexos e encantados ao mesmo tempo. E ainda que de forma mais sutil, é exatamente o que acontece nesse ótimo Fear and Trembling. O que esse o episódio consegue fazer com maestria é dar uma virada na trama, ao mesmo tempo que isso ocorre de forma tão natural que mal percebemos, como se os acontecimentos fossem simples passos lógicos e não houvesse outra solução senão a apresentada.
Se na review passada fiquei indagando como a trama da Peggy iria para a frente, descobrimos essa semana que os rastros não foram tão bem apagados como fomos levados a acreditar, e logo Hanzee e Lou já descobrem o destino de Rye. As possibilidades continuam em aberto, principalmente porque os dois lados da história já sabem e embora seja praticamente uma questão de quem vai alcançar seu objetivo primeiro, estou confiante que a narrativa sempre dará uma forma de surpreender o público. É certo que por um lado soa extremamente apressado a conclusão, tanto por parte de Lou quanto de Hanzee. O primeiro por não ter tanto subsídio para tal, no máximo pistas circunstanciais. Já o segundo sim, num trabalho que deixaria Sherlock Holmes orgulhoso, consegue refazer os passos do casal desde o atropelamento, sendo que a forma como ele encontra as pistas soa demasiado simplista, entretanto, nada que prejudique a qualidade do episódio como um todo.
Outro plot que foi bem desenvolvido foi o da família Gerhardt e seus negócios com o pessoal de Kansas City. A cena da matriarca sobre não aceitar a proposta foi muito bem executada, conseguindo mesclar bem vários elementos, como a tensão, desconfiança e ainda assim polidez de ambos os lados, algo necessário para uma negociação tão densa. E agora que a guerra está declarada, devemos ver banhos de sangue escorrendo nas neves de Fargo, como a cena do hospital nos deu uma pequena mostra.
Para não dizer que o episódio foi perfeito, algo me incomodou. A trama da Peggy e Ed sobre ir ao seminário ou comprar o açougue é, até o presente momento, extremamente desinteressante. Talvez esse seja o estopim para um desentendimento maior entre o casal, e talvez o seminário sirva para mexer de algum jeito com Peggy, e que talvez “melhore” o lado criminal da moça que começou a aflorar, mas até lá esse plot é simplesmente “blah”, além de ter “talvez” demais nessa história. Claro que ele ajuda a trazer algumas questões sociais, principalmente pela época em que se passa a história, como exalta a patroa de Peggy no auge de seu feminismo, ainda assim essa questão sexista que é discutida até os dias de hoje não ajuda a deixar a coisa toda mais interessante. Se não me falha a memória, tem um episódio da temporada anterior em que o Lou cita um massacre que aconteceu em Sioux Falls, então também é possível que quando chegar o famigerado seminário da Peggy, algo saia errado, e aí vejamos muitas mortes por lá. Agora, quem será o responsável pelo massacre e quem serão as vítimas é algo que deixo completamente em aberto, pois se tratando de Fargo, literalmente, qualquer coisa pode acontecer.
Além de manter a principal característica da temporada, que são os diálogos muito bem escritos, o restante do aspecto técnico também colabora para fazer deste o melhor episódio deste início de temporada. A fotografia é muito bem escolhida, as transações de cena, com sobreposição de imagens e o recurso da tela dividida ajudam a enriquecer a narrativa, compondo a estética apurada da obra.
Com um episódio que faz a narrativa andar e encaminha a trama para novas possibilidades, o ritmo daqui para a frente deve ser crescente. Que os próximos episódios sejam surpreendentes, e mantenham o nível de tensão estabelecido até aqui. Fargo ainda está um pouco oscilante nesse início de temporada, mas Fear and Trembling vem para nos dar a certeza de que estamos sim diante de uma boa obra, com potencial para mais uma excelente história. E que venham muito mais episódios como este.
Em tempo 1: A bunda branca de Jesse Plemons é algo que tão cedo não sairá da minha cabeça. Pesadelos eternos.
Em tempo 2: Embora continue mantendo minha opinião sobre Patrick Wilson, devo dizer que ele até que está me surpreendendo em Fargo. Longe de merecer uma indicação ao Globo de Ouro, mas está segurando bem as pontas em suas cenas e não compromete em nada a qualidade da série.















