Cada vez mais somos imersos nos “35 ans plus tôt”. Les revenants está mantendo uma sequência narrativa de apresentação de personagens que tiveram a sua morte física na época do primeiro rompimento da barragem. Esse caminho nos coloca a frente de duas leituras: revelar as relações antigas entre as personagens, que se reconfiguram de variadas formas no presente, como também sugerir que a tragédia e os acontecimentos do passado estão, de algum modo, entrecruzando-se com o retorno dos mortos.

No episódio 4, conhecemos a história de Virgil, que obscureceu um pouco mais o que pensamos até agora sobre Milan: afinal, qual era o tipo de salvação que ele falava? Como ele escolhia as suas vítimas? Qual era o caminho certo que Virgil poderia ser levado por Milan? A cena do reencontro de Virgil com os seus pais foi muito emocionante, levando em consideração o estado de velhice e de doença de ambos. A sua casa e a sua família foram ruídas pelo tempo, e ele não tinha mais espaço ali. Ele começou a compreender a estranheza da situação quando a sua mãe falou o seu nome. É triste quando pensamos também a forma como essa família se separou: Virgil fugiu de casa para se proteger e foi brutalmente assassinado em seguida.

A trama de Adèle ainda não conseguiu me prender, pois a sua história agora com o bebê praticamente só saiu do lugar no primeiro episódio. Esperava que houvesse um confronto maior dela com Simon, e não uma reaproximação, ainda que em sonho. Penso que Nathan não assumiu um posto próprio nem uma função no enredo. A meu ver, falta uma exploração mais intensa sobre a natureza da criança, pois, afinal, ela é fruto do encontro da vida com a morte.

A volta de Lèna para a sua mãe e Camille pode ser um motivo para que esta mude um pouco o seu atual comportamento, que vai do irritante ao desnecessário. A visita a casa do médico nos mostrou que há mais revenants que vivem às sombras do medo do grupo que lidera o exílio. Provavelmente, haverá um desenvolvimento dessa subtrama nos próximos episódios, levando-nos novamente para a década de 70.

A relação de Camille com Virgil se tornou mais estreita, principalmente por este apresentá-la a um traço que constrói a figura do revenant: a capacidade de sentir e ver através da mente o passado do outro. É assim que somos apresentados ao resto do flashback de Virgil, quando vemos que ele foi estripado por Milan. Serge foi levado por seu pai para a floresta para testemunhar a cena de assassinato. Logo, é fácil deduzir que o instinto canibal de Serge brotou de sua infância, algo decorrente das violências psicológicas que sofreu. Essa cena justifica toda a raiva de Serge por Milan e a vontade de manter o pai preso. Voltando a Virgil, ele aparenta estar bem envolvido com a forma de pensar de Lucy, vendo as pessoas vivas como uma ameaça aos revenants. Esse pode ser um mote para que, futuramente, talvez, vejamos Camille contra a sua família.

Paralelamente, Julie começa uma jornada de busca por explicações sobre o passado de Victor, indo a casa do Sr. Lewansky, pai do garoto. A vizinha da cada onde  a família residia aponta para Milan numa foto, caracterizando-o como um homem de boa índole. Assim, vemos que essa personagem pode esconder muito mais coisas do que imaginávamos, visto que ele fingia ser alguém que não era. Nessa mesma cena, sabemos que a comunidade da época do rompimento da barragem tinha medo de Victor, atribuindo a ele culpa da catástrofe. As capacidades sensitivas do garoto transformaram-se em razões para acreditar no seu envolvimento com a tragédia. Isso é até compreensível se levarmos em conta que estamos falando de uma comunidade pequena, um tanto isolada, na década de 70.

Até agora, o quarto episódio da série, a meu ver, foi o mais morno. A história não avançou muito. Por outro lado, a trama de Virgil foi bem desenvolvida e agregada ao enredo principal de um modo que convidou o telespectador a torcer por ele. Vamos apostar num romance com Camille para vê-lo mais, fato que também pode deixar a essa personagem dividida entre a família e os revenants. A cena de Lucy “perdoando” Milan foi excelente, pois vimos novamente toda a ambiguidade do olhar da ex-garçonete ao reencontrar o homem que a matou. Com isso, chegamos aos comentários da metade da segunda temporada. O que vocês estão achando da série até agora? Estão curtindo as novas personagens?

I see dead people 1: O destaque de todo o episódio foi para Ernst Umhauer, ator que interpreta Virgil. Já tinha gostado muito da atuação dele no filme Dentro da casa (2012), de François Ozon. A sua adição ao elenco da série só me fez comprovar o quanto ele é bom: as suas cenas exigiram emoções diferentes e o ator deu o tom exato para cada uma delas. Das novas personagens dessa segunda temporada, Virgil já é meu favorito.

I see dead people 2: deixo um agradecimento especial  à equipe L.O.T.S. subs, que está fazendo um ótimo trabalho de tradução das legendas da série, desde a primeira temporada.

I see dead people 3: o contexto bíblico retorna a série quando o investigador diz que o lugar começou a se chamar “A mão de Deus” por conta da misericórdia da sobrevivência dos habitantes que não morreram na inundação. Por outro lado, a morte e a solidão abateram aos poucos todos àqueles que sobreviveram.

I see dead people 4: os desenhos encontrados na casa de Victor mostram que o garoto já possuía uma visão de situações do futuro que estavam ligadas à morte. Deve ter sido por isso que a população ficou amedrontada. Ele era uma espécie de “mensageiro da morte”.

I see dead people 5: a segunda temporada já encerra semana que vem, com a exibição dupla dos dois episódios finais.

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.