Partindo do horror como plataforma na qual suas personagens (e nós por consequência) são obrigadas a lidar com conflitos, situações e criaturas/pessoas que lhes despertam o medo (de si ou do outro), podemos tentar entender a engrenagem das coisas, como tudo se dá. Vamos conceituar basicamente dessa forma para que nós não precisemos ficar muito tempo definindo o “horror” porque não é o objetivo principal deste texto. Através das definições aqui propostas e das categorias criadas, conseguimos conectar nossa interpretação daquilo que vemos com as escolhas narrativas. Ou seja, se o foco se volta para a criatura e não para o humano, o que isso nos aponta?
É desse tipo de pergunta, talvez, que alcançamos reflexões, como a confusão do público ao se ver torcendo pelas personagens que não são seres humanos modelos, como o clássico exemplo de Walter White em Breaking Bad ou, mais recentemente, a charmosa Villanelle em Killing Eve. Em tempo em que as linguagens se confundem tanto que as pessoas não conseguem perceber com tanta clareza que séries como Santa Clarita Diet são séries de horror, ocupo-me a perguntar onde estão os monstros? O que eles representam ao humano como experiência existencial?
Antes de conversarmos sobre o horror como resultado final, ou seja, aquilo que nos afeta (ou não), podemos tentar entender como se dá este jogo de descobri-lo dentro das mídias que nos são apresentadas. Não é tão fácil, reconheço, e é uma tarefa que me deixa constantemente em dúvida assim que me proponho a maratonar diversas séries com a finalidade de elaborar os textos para o nosso mês de outubro por aqui. Quando os idealizadores certificam suas produções com o rótulo do “horror”, fica mais fácil; quando não, tenho a tarefa de analisar a estrutura de cada série e tentar identificar uma desculpa para apresentá-la por aqui, aos leitores do site.
Para começar este terceiro ano, decidi estabelecer uma conversa por aqui, convidando a todos para se juntarem a mim na jornada de descobrir os monstros por trás das histórias — não aquele monstro no qual o vilão mal escrito se torna, mas o monstro capaz de provocar as sensações de horror tão fortes (a si ou aos outros) que empurra a narrativa da qual faz parte para este gênero.
Como apontei no meu artigo que faz a cronologia do horror na televisão, ele está presente desde muito, em época que havia uma separação mais forte entre o monstro que era o outro e o monstro dentro de nós. Para falar da mistura atual, no entanto, vou utilizar exemplos da última década, mais próximos, e que podem ser compreendidos sem que o leitor tenha que fazer uma grande pesquisa. Este monstro perdido entre o alheio e o que há em nós não é uma invenção da televisão, mas hoje, em época de tanta produção nos mais diversos canais e serviços, podemos contar com essa pluralidade como base sem a necessidade de apontarmos poucos exemplos de antologias antigas ou séries de décadas já esquecidas.
(NÃO há spoilers das séries usadas como exemplo.)
- O monstro está oculto

Quem teve o prazer de acompanhar Lost (2004-2010) desde os primeiros episódios, sabe que a série ameaçou se tornar uma história de horror o tempo todo. Deixando os sobreviventes de um desastre presos dentro de um local, lidando com diversas questões misteriosas, entre elas uma fumaça preta seguida de um barulho alto e esquisito que lhes simbolizava o perigo, não era muito difícil associar o gênero do horror à nova produção da ABC.
Isso ocorreu porque a série criada por J. J. Abrams utilizou o mesmo recurso clássico de filmes de horror do cinema, como o Jaws de Steven Spielberg e o clássico Cat People (Jacques Tourneur) dos anos quarenta: o jogo do perigo oculto. Quando os telespectadores se colocam no lugar das personagens, porque também não estão entendendo nada e, assim como elas, tentam entender as regras dessa situação que lhes oferece risco, o medo pelo oculto é transferido para eles. Isso faz parte da experiência e intensifica o medo da criatura — não importa tanto sua aparência, mas o que sua presença representa.

O monstro que não se vê não deixa de ser monstro. A utilização deste tipo específico, além do uso acima, pode brincar com a sanidade das protagonistas da história, quando ela e público presenciam algo (ou a simulação de algo), mas os outros participantes do enredo não. Pode ser usado, além, para engrandecer o momento em que, finalmente, vemos os heróis cara a cara com os antagonistas. O confronto, então, é estabelecido no momento em que o telespectador já entende do que o monstro é capaz, qual o seu tamanho ou força.

O exemplo mais recente que temos é o da série The Terror (2018), antologia da AMC que fez sua estreia em março. Na história (sem revelar muito), temos dois navios que, após tentarem fazer uma travessia impossível, encontram-se presos no gelo. Seus tripulantes precisam lutar pela vida nos mais diversos perigos apresentados pelo lugar. Entre os perigos, temos o nosso monstro — talvez o grande fator para empurrar a série para a categoria de “horror”.
Antes de o vermos completamente, estudamos sua história, ouvimos seu nome e visualizamos algumas façanhas que desenham não só o seu tamanho físico, mas o de sua ameaça aos humanos. Quando o confronto com um deles finalmente ocorre, a maneira como assistimos tem a influência do conhecimento adquirido anteriormente, impedindo-nos de menosprezar seu potencial de perigo. Por fim, o jogo rende momentos criativos, tensos e divertidos de assistir.

Como no exemplo acima, vemos que uma hora o monstro aparece — principalmente se tratando de série, que precisa de seus momentos de confronto. Então se em The Terror uma hora vemos a tal criatura, outras séries também seguem a fórmula. Wayward Pines (2015-2016) o faz em sua primeira temporada — mais precisamente nos cinco primeiros episódios. O detetive Ethan Burke percebe que há algo fora da cidade que nomeia a série, mas somente aos poucos vamos desvendando qual é este mal contra o qual os governantes ali lutam em segredo.
A série da Fox estrelada por Matt Dillon estabelece com o telespectador a mesma dinâmica de filmes como 10 Cloverfield Lane, que veio no ano seguinte. Dirigido por Dan Trachtenberg e estrelado por Mary Elizabeth Winstead, no filme temos duas pessoas presas dentro de um abrigo. Uma delas conta uma estranha história para a outra, não permitindo que a segunda, que teria resgatado, saia para comprovar as coisas por si só. Em ambas narrativas, temos uma construção de atmosfera e desconfiança das protagonistas trocadas com o telespectador antes que revelações possam ser feitas.
- O monstro não tem rosto

Se no primeiro caso falamos sobre o monstro que chamo de “oculto”, aqui veremos aquele que é a representação de um coletivo, do mal que representa e, portanto, não nos interessa quanto indivíduo. O maior exemplo está nos zumbis. Por mais que algumas cenas os isolem e mostrem personagens fugindo de uma só mordida, o que amedronta na história é a realidade que os zumbis trazem. Não assistimos o medo sobre um, mas o comportamento de desespero e desesperança ao se perceber que aquele ser faz parte de uma “espécie” proliferada. Não se combate um monstro, mas seu grupo.
Para ficar mais claro, usemos o maior fenômeno do gênero nos últimos anos: The Walking Dead. A produção da AMC, pelo menos no começo, aborda a luta de pessoas comuns contra mortos vivos que ameaçam lhes devorar. É uma ameaça, ao que parece, mundial e espalhada por todos os cantos, dos quais estes seres aparecem sem que percebamos. O resultado disso, no contexto desta série, especificamente, é que há uma desesperança sobre a vitória contra tal perigo. Ou seja, não importa aonde vão ou os planos que elaborem, os zumbis estão em toda a parte.

No caso da série, eu sei, os monstros não são só os zumbis e as ameaças não se configuram apenas na presença deles. Há outros, e estes são caracterizados de outras formas. Neste tópico, no entanto, me refiro aos caminhantes. Sua onipresença serve para caracterizar o cansaço das personagens que vão se entregando a medidas desesperadas ao mesmo tempo em que se desconhecem conforme o tal cansaço muda suas personalidades — algo comum neste subgênero do horror. Outro ponto é que esta ubiquidade fortalece o quão grave é a ameaça. Há poucas regras dentro da narrativa que garantam a sobrevivência das personagens — diferente de outras histórias ligadas a monstros nas quais estando acordado, estando fora da floresta ou estando dentro de casa os protagonistas estão protegidos.
A mesma mitologia se espalha para a série da Syfy que faz sua interpretação do mundo apocalíptico. No ar desde 2014, Z Nation tira sarro do perigo e da aflição causados neste universo. A série também esbarra em outra categoria de monstro sobre a qual falarei adiante, mas quero destacar a pouca importância que têm os zumbis que não se relacionam diretamente às circunstâncias das protagonistas. São apenas figurantes que, bem caracterizados, rendem uma ameaça constante dentro do contexto da série ou uma ameaça momentânea para a cena de ação em algum episódio específico. No máximo (no caso de The Walking Dead) são uma mostra do bom trabalho artístico que rende prêmios à série — e momentos bizarros e nojentos aos telespectadores.

Em algumas produções, encontramos seres humanos comuns e que às vezes tem contato com as personagens que acompanhamos. No entanto, assim que eles têm algum contato com o mal, perdem suas identidades, na maioria dos casos, seus rostos e se tornam aquilo que os heróis combatem. The Strain (2014-2017) é um bom exemplo para isso. A série tem como base uma praga que se espalha e cujos infectados procuram as pessoas de seu afeto para contaminá-las/devorá-las. O enredo tem suas criaturas desfiguradas, mas, boa parte do tempo, exibe esses humanos descaracterizados. Não me refiro aos contaminados e sua luta por resgatar a própria humanidade, mas às criaturas que aparecem de fundo, sendo combatidas.
Van Helsing (2016-presente) é outro exemplo disso. Também do Syfy, a série mostra vampiros que instalam um clima apocalíptico muito parecido com o da série da AMC. Mesmo que alguns antagonistas tenham nomes e personalidades exploradas durante o desenvolvimento do enredo, a protagonista e sua turma precisam constantemente lidar com os seguidores, as pessoas infectadas.

Essa categoria de monstro, diferente da anterior, não tem tanta importância (como unidade) ao avanço da narrativa. Isto é: se a criatura de The Terror é morta logo no começo, um dos principais desafios para os tripulantes do navio foi vencido, e eles se aproximam de seu objetivo principal. Se alguns zumbis ou vampiros morrem pelo caminho, são etapas vencidas, mas isso não garante muita coisa às personagens.
- O monstro está presente

Há diversas formas de trazer o sobrenatural (e o monstro como consequência) e usá-lo para compor a história. Algumas vezes, há uma distância entre o humano e a criatura que precisa ser combatida ou que ganhará destaque em algum momento. Outras vezes, no entanto, o sobrenatural se torna coadjuvante dentro da história com um peso maior do que na categoria anterior. Isto é, se falamos que The Walking Dead, na verdade, fala sobre a condição humana e os limites da ética e da moral em um mundo cuja sobrevivência passa a ser o mais importante, aqui não temos isso. Aqui, neste terceiro caso, é do sobrenatural que estamos falando, é dele que partimos.
O exemplo mais famoso que posso dar é da premiada série de Ryan Murphy, que se não teve uma jornada tão empolgante, trouxe o prestígio e o reconhecimento que o horror precisa. American Horror Story (2011-presente) mostra-se como parte desta categoria desde o início. Explico: há um reconhecimento da existência do horror dentro da história americana — algo bem presente na primeira temporada, que flerta com o que acontecera fora da tela para ilustrar a situação das pessoas ali. Em seu primeiro ano, intitulado Murder House após seu desfecho, vemos pessoas comuns convivendo com presenças e personagens que trazem a monstruosidade de alguma forma. A diferença do monstro sem rosto é que neste, que eu chamo de monstro presente, é que há uma criação individual para cada um dos membros deste sobrenatural.

Como esbarrei em uma antologia para falar sobre essa categoria, tenho outro exemplo do mesmo gênero: Channel Zero (2016-presente), que estreará sua quarta temporada no final deste mês, é uma das melhores séries do Syfy dos últimos anos — e provavelmente a melhor antologia de horror atual. Em suas três temporadas, tivemos pessoas comuns em contato com os mais variados tipos de elementos de horror e fantasia. Desde o mistério envolvendo um programa de tevê infantil, passando por uma casa que prende seus convidados e uma família canibal, temos a composição de imagens e enredos feitas por estes seres.
Se há uma possibilidade, por mais que soe meio ridícula, de que The Walking Dead faça uma temporada (ou episódios seguidos) sem mostrar zumbis, voltando-se aos sobreviventes em suas relações de comunidade, isso é impossível de se fazer com as duas séries citadas. O monstro como integrante é parte essencial não só visualmente, mas como um constante diálogo trocado entre o humano e o que não é considerado humano. Forma-se, portanto, um novo jogo entre essas duas partes. Na versão mais clássica do jogo, o lado que representa o humano tenta sobreviver às investidas do mal — um jogo de sobrevivência. Em outra versão desta dinâmica, os dois lados se misturam; às vezes para que ambos possam se entender, tentar identificar os limites que os separam.

Temos exemplo na também premiada Stranger Things (2016-presente), que nunca coloca o protagonismo para seus monstros, mas precisa deles para movimentar os conflitos de suas histórias. A série The Exorcist (2016-2017) é inimaginável sem esses dois lados em constante conversa. O que vemos dentro dessas narrativas é o modo como a cidade e sua população (a primeira) ou os seus heróis (a segunda) lidam com o sobrenatural, enfrentam-no, tornando a saga deles uma desculpa para falar sobre amizade, coragem ou para requentar a velha batalha do bem contra o mal — bem mais difícil quando tiramos o sobrenatural da história.
- O monstro protagoniza

Se há muitos exemplos das outras categorias e percebemos que elas se misturam bastante, neste não costuma haver variação. Isso porque o monstro que protagoniza dificilmente é substituído, já que a estrutura de sua série é baseada nisto. Explico: Lucifer (2016-presente), que retrata a vinda do ser que a nomeia para nossa sociedade, não pode fugir disso. O mesmo se dá para iZombie (2015-presente), sobre um zumbi com poderes sobrenaturais que ajuda um detetive a solucionar crimes. Arrasto o fator zumbi para a (também) divertida Santa Clarita Diet (2017-presente), que mostra uma corretora de imóveis que de repente se encontra na condição de estar morta (e viva), tendo que cuidar dos filhos e da família enquanto procura alimentos.
O melhor exemplo, no entanto, está na melhor série de horror desta década. Contando sua história em três temporadas e vinte e sete episódios, Penny Dreadful (2014-2016) colocou um dos monstros mais clássicos de histórias do gênero como protagonista: uma bruxa. Na verdade, Vanessa Ives é uma médium, mas flerta o suficiente com o sobrenatural para que entendamos a protagonista como parte do não-humano — ou o não-humano dela é o que protagoniza a história, por assim dizer: seus poderes, seu contato com o mal. Entendemos melhor se olharmos as outras protagonistas da história. Temos a criatura de Frankenstein, Dorian Grey, que é um humano que não envelhece, e Lily — que às vezes rouba o posto de melhor personagem e melhor atriz do elenco.

Falando em séries de qualidade, temos outro membro da categoria na francesa Les Revenants (2012-2015). A série retrata as histórias de zumbi de um modo atípico: algumas pessoas, sem uma explicação muito clara, retornam à vida e voltam à pequena cidade onde moravam. Voltam, aparentemente, inteiros e com pouca memória, mas ainda como as pessoas que foram. Há, no entanto, uma diferença muito grande nos outros humanos e nestes, algo que vai se evidenciando na nossa maratona. Os não-mortos aqui são as grandes protagonistas, são os destinos que mais nos interessam e representam o ponto de vista que realmente importa ao telespectador.
Exemplo final fica com Salem (2014-2017), série da WGN America que errou aqui e ali, mas nos proporcionou momentos divertidos e boas investidas no mundo da bruxaria. A começar por uma protagonista detestável (no melhor sentido da palavra), que, além de ter contato com o mal (no pior sentido da palavra), tinha como parte de si os defeitos humanos mais temidos por nós, telespectadores moralistas. Temos um flerte com assuntos interessantes e muito atuais, como a condição feminina do passado e do presente. O enredo às vezes toma quase um desprezo pelos humanos retratados, favorecendo e estudando apenas as personagens entregues ao sobrenatural, algo evidente na derradeira temporada.

O uso do monstro como foco e não apenas como forma de compor a história pode ter usos diversos. Podemos falar sobre como o humano às vezes é mais assustador do que aquilo que ele combate, desafiar os medos dos telespectadores quanto ao que veem no horror ou tomar um bom distanciamento para falar da loucura e do absurdo que é ser humano hoje. Há outros fins diversos — Santa Clarita Diet é uma grande sátira ao nosso mundo capitalista — e somente analisando cada caso para entendermos as escolhas dos roteiristas.
- O monstro somos nós

O sobrenatural, para a maioria das pessoas, já é um tema sensível. Assim, é mais fácil criar uma atmosfera de medo utilizando o que entendemos como “monstro” do que não ter este elemento em nossas histórias de horror. Mas para criar algo assustador não é preciso ir tão longe. Se há algo que The Handmaid’s Tale nos ensinou é isso. No campo do horror, mas ainda na categoria de séries impecavelmente atuadas, Bates Motel (2013-2017) é nosso ponto de partida.
A série da A&E que trouxe de volta a personagem mais marcante de Alfred Hitchcock faz de sua jornada um estudo da sanidade— do protagonista e da relação materna abordada. O roteiro brinca com o grande medo que a sociedade tem da “figura do louco”, tema que já foi abordado em diversos filmes de horror, nos quais as personagens ficam presas dentro de alguma clínica. O caminho percorrido por Norman nas cinco temporadas não se preocupa apenas em assustar o telespectador, mas colocá-lo o mais próximo possível na problemática de sua vida, exibindo o fracasso de um recomeço e fatores quase determinantes para a tragédia final.

A sétima temporada de American Horror Story, denominada Cult, deixa os monstros ligados ao sobrenatural de lado para tratar deste humano que pode assumir este posto. Temos a política como contexto, mas a verdade é que as questões ali poderiam aparecer em diversas outras situações. Assim como Ryan percebeu que não é preciso ir muito longe para encontrar o medo, Sharps Objects, mais recentemente, foi uma minissérie construída nesse seguimento. Protagonizada por Amy Adams, a história vai se tornando tão perversa e bizarra que é de tirar o fôlego o quão monstruosas se tornam suas personagens.
Vale citar a desastrosa Scream (2015-presente), que investiga nossa geração e as possíveis razões que alguém teria para cometer um assassinato. O mesmo é explorado nas duas temporadas de Slasher (2016-presente), antologia canadense que também coloca um assassino mascarado para perseguir um grupo de jovens. A segunda temporada desta, intitulada Guilty Party, deixa pistas a partir do próprio nome sobre o que pretende. Ao colocar personagens com um passado bem, bem culposo isoladas de outras pessoas, cria-se um senso de perigo e justiça ao mesmo tempo. É o que ocorre também nas minisséries que adaptaram os livros de Agatha Christie nos últimos anos, a citar And Then There Were None, sobre a qual conversamos no primeiro ano deste projeto.

Para fechar a lista, dois últimos exemplos: The Purge chega às tevês pela USA Network este ano, enquanto Mr Mercedes (2017-presente) estreou sua segunda temporada há algumas semanas pela Audience. A primeira investiga o universo criado pelos filmes, nos quais visualizamos um futuro distópico, mas não tão distante, no qual o governo decide, por um dia ao ano, fechar os olhos à sociedade, deixando-os livres para quebrar as regras que quiserem. Na segunda, baseada na trilogia do escritor Stephen King, acompanhamos um psicopata que no passado utilizou um carro para atropelar algumas pessoas e no presente atormenta o detetive aposentado que não solucionou o caso. (Existe um monstro maior do que o antagonista desta história ou o ator Harry Treadaway em suas boas cenas?).
E que monstro sou eu?
Com Stranger Things concorrendo ao maior prêmio da televisão, mesmo que nós não entendamos muito bem por que isso aconteceu, no ano em que um filme de horror concorreu a quatro categorias no Oscar, temos o reconhecimento do gênero a caminho. É interessante notar que nos dois casos as duas produções perderam para duas fantasias.
Mais interessante, ainda, é pensar em como as séries têm manipulado a estrutura do horror para falar sobre aquilo que a nós não parece de tal forma, mas talvez devesse ser considerado: algum comportamento, preconceito ou qualquer tipo de intolerância. Essas produções podem, além disso, brincar com o monstro que cada um tem dentro de si, cutucando-o, provocando-o e escancarando-o.
O texto que abre o #MêsDoHorror se pauta neste gênero, mas imagino que possamos aplicar as perguntas “onde está o monstro?”, “o que isso representa?” e “como o monstro é criado?” a todas as outras séries de todos os outros gêneros. Isso nos renderia bons debates para entendermos melhor a crueldade por trás de The Handmaid’s Tale ou as aflições das internas de Orange Is The New Black. Fico com as categorias do horror, mas sintam-se livres para experimentarem as perguntas em outros gêneros, e talvez eu volte com um texto a respeito.
——-
ps:
(1)
Começamos o Ano III do #MêsDoHorror no Série Maníacos!
Fiquem por perto que teremos muito o que conversar. O projeto abordará séries que tiveram seus episódios exibidos entre outubro do ano passado e o final de setembro deste, criando conversas que ficaram ausentes por aqui. Qual série de horror ou mistério ficou faltando? Se você tiver alguma em mente, deixe nos comentários.
(Os textos dos anos anteriores podem ser acessados navegando pelo site.)
(2)
Como nos anos anteriores, gosto de deixar os créditos do título do projeto a Tatiana Feltrin, que o carrega lá no YouTube, falando sobre livros durante este mês. Aos fãs do gênero, fica a minha recomendação.














