Justiceiro deixa toda a sutileza de lado, como se a série tivesse muita, ao tratar de Billy Russo em Cold Steel.

Toda série precisa de um vilão principal. É ele que irá mostrar até onde o herói está disposto a ir para conseguir vencer. Dentro do MCU existem vários antagonistas, indo dos mais leves e caricatos, até ao mais sombrio e perturbado. Até o momento Justiceiro empregou dois, um melhor desenvolvido, com Billy Russo e outro nem tanto, com o Rawlins. Este último, porém, surge como uma espécie de vilão saído direto da cartilha do 007, com sombras, um olho fantasma e pouca participação na história, até agora.

O mais interessante é que, até aqui, todo vilão das séries da Marvel Netflix tiveram uma oportunidade para receber aquela boa e velha dose de humanização. Sem exceção, cada personagem, de cada série da casa, conseguiu um momento, mesmo que pequeno, para ganhar cores mais complexas. Não é o mesmo caso de Russo, pelo menos não em Cold Steel. Este processo de humanização do vilão não existe da maneira esperada. Quando estamos com Billy no hospital, que ele paga, sua preocupação em ver o dente da mulher é porque ele paga para que eles sejam escovados. Não existe ternura ou carinho. Neste aspecto Justiceiro até pode sair ganhando pontos, já que nos oferece uma construção diferente para o vilão, o que é bom quando analisamos todo o panorama de produções, como Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Defensores. É diferente e isso conta como algo positivo, certo?

Sua transformação, porém, é um pouco mais do que eu estava disposto a enxergar no personagem, que saiu do amigo para o vilão, para o assassino frio e desleal, em pouquíssimo tempo e sem muita base ou história. Sim, não é preciso que todo personagem, especialmente vilão, receba um pano de fundo, mas é isso que os separa de uma construção icônica, como Wilson Fisk e Killgrave, de um Billy Russo ou Willis Striker.  Até agora Justiceiro não tem conseguido empregar um bom ritmo ao tentar contar várias histórias diferentes. Existe um pulo dentro do que estava sendo feito com Lewis, que não condiz com o caráter de urgência que a série estava tentando passar. E quanto a Curtis, que simplesmente sumiu?

A série também não é nada conservadora quando decide mostrar suas cenas de sexo. Madani e Russo transam, bastante, e tem muito espaço para dividir estes momentos pessoais. Reitero o que disse em críticas passadas, que seguir tal caminho na construção de uma manipulação é muito clichê e em alguns aspectos bem ruim. Dinah Madani é uma mulher competente, que teve seu escritório grampeado, mas que em nenhum momento pensou em desconfiar do rapaz de rosto bonito, que fazia parte do mesmo destacamento militar que causou a assassinato que ela recebeu em vídeo. Ela nem ao menos perseguiu afinco a origem do e-mail recebido.

Também não é um pouco estranho que a conexão das câmeras entre a família do Micro e ele, decidiu parar exatamente no episódio em que Frank decide, para despistar, levar flores para a mulher para se desculpar, e é logo em seguida convidado para tomar uma bebida, que ele aceita? Sim, ele foi lá a pedido do próprio Micro, mas era mesmo necessário aparecer com flores, dando a entender que seu movimento foi totalmente romântico? Um farol novo para o carro, uma chave de fenda por causa do triturador de lixo… Existiam diversas opções, mas a série escolheu trabalhar com essa, que terminou com um beijo – e muito constrangimento. Justiceiro definitivamente não é sutil e quando adentramos neste núcleo fica óbvio que não existe ao menos a tentativa.

O resultado, contudo, é uma conversa cômica entre Micro e Frank, mas sem qualquer comédia exagerada. A interação rapidamente sai do engraçado para o confronto, afinal, Frank realmente tem a guerra dentro de si e ninguém mais para voltar. Ao passo que Micro ainda tem sua família, inclusive, sua mulher está o superando ao ponto de começar a se apaixonar novamente. O tempo está correndo e estes personagens sabem.

Claro que o comum é que depois de um episódio com um pico de adrenalina mais alto, o seguinte trilhe um caminho menos conturbado, mas Justiceiro já está nesta trajetória há um bom tempo. Frank com o filho do Micro é legal porque oferece ao Justiceiro a oportunidade de agir mais uma vez como pai, mas também é um daqueles desvios desnecessários que tanto venho pontuando na cobertura da série. Existe ação, mas também a necessidade de não incluir o personagem principal dentro dela, algo que não consigo entender.

Obviamente não existe problema ou erro em não incluir o protagonista dentro da ação sempre, especialmente quando ela já existe em bom tamanho. Já que existem outros personagens a série faz bem ao utilizá-los, mas para isso a equipe criativa decidiu que manter seu Justiceiro preso a dramas familiares e conselhos paternos era a melhor saída enquanto Madani, Stein e Russo partiam para o confronto. Nem tudo dá certo. Na guerra ou na saída criada pelo texto de Justiceiro, muito deu errado.

E para Madani tudo termina pior, porque ela está se recuperando de seu trauma com o assassino de seu companheiro, enquanto ele a dá um banho. Cold Steel não é um episódio fantástico, apesar de fazer melhor uso da ação e também da tensão contida dentro da narrativa. É um típico momento para mostrar que não apenas o herói, mas algumas pessoas próximas também são capazes de molhar as mãos com sangue e crueldade, quando necessário. Neste caso, o que mais preponderou foi a ação de Billy, os problemas familiares de Micro e o lado paterno de Frank, em um caminho que nos prepara para a reta final de Justiceiro.

Easter eggs e outras informações em Cold Steel:

– O filho do Micro gosta de Wu Tang, assim como Luke Cage.

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– Mais um uso da arma de Billy Russo, a faca retrátil que não tem relação com Assassins Creed, mas sim com sua contraparte nos quadrinhos, que faz uso do mesmo tipo de arma.

Leia também as outras críticas dos episódios dessa temporada de O Justiceiro:

REVISÃO GERAL
Nota:
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