Mais do transtorno pós-traumático de sobreviventes da guerra em Justiceiro em Resupply.

Do homem que só consegue dormir em uma trincheira, com a sua arma ao lado, de tão afetado pelo ambiente em que esteve, ao próprio Frank Castle. Justiceiro está indo até onde pode para contar várias histórias complementares, com uma pegada bem particular. Esta é uma abordagem muito séria, que nenhuma outra produção da Marvel já tentou antes. Só que ela é um pouco diferente, afinal manteve seu personagem principal, e também o maior “interessado” neste quesito, longe. O que temos é um jovem conectado ao panorama geral, mas que nem ao menos chegou a trocar uma frase com Frank Castle. Em Jessica Jones também tivemos o desenvolvimento de uma história de superação, com a protagonista e sua melhor amiga, além de vários outros personagens, lutando contra as amarras psicológicas de Killgrave.

Em Justiceiro o trauma não tem um rosto e por isso é mais difícil de lidar, mas a série falha ao não colocar seu protagonista dentro da discussão. Manter Frank em outro ponto, geográfico, não é algo inteligente, porque termina colocando o tempo dedicado a lidar com o transtorno como parte de uma outra série. A relevância do assunto é gigantesca e parte da realidade de muitos veteranos, mas o que a equipe produtora da série falhou em fazer, pelo menos neste primeiro momento, foi a não união de Frank Castle, o dono da série, com este segmento.

Me chame de desconfiado, mas enquanto essa história gira em paralelo a de Frank Castle/Justiceiro, só consigo me lembrar dos desvios que Luke Cage e Demolidor cometeram, ao decidir na metade do caminho entregar outra trama para seu protagonista. Sim, entendo que Russo está tirando vantagem da situação de veteranos com estresse pós traumático, montando um time com pessoas que claramente não tem mais condições de trabalhar ao redor de armas, ou com segurança particular, mas isoladamente eles não tem força e/ou apelo para segurar um episódio.

Russo e Anvill garantem certo apelo, mas não foi por isso que escolhi assistir Justiceiro, foi por causa do Justiceiro. Em determinados momentos parece que a série se divide em outra completamente diferente, apesar da temática ser conectada com a de sua “matriz”. Sim, a crítica ao governo e a maneira que ele trata seus veteranos depois de usá-los física e mentalmente continua ali, mas sem nenhum personagem realmente interessante, sem usar o herói e apenas com uma conexão desenvolvida em um flashback e uma visita ao túmulo de Frank, o poder não é tão forte para me fazer ansiar por mais da Anvill e o que ela irá criar futuramente.

Do outro lado da história, quando voltamos a Micro, ele está observando sua família em um de seus monitores, enquanto Frank bate no Turco (Tucão) por causa de munições e reabastecimento. Frank mantém um código bem firme, que o previne de simplesmente comprar suas armas. O código, que para Micro parece engraçado, é parte fundamental do personagem. Graças a história desenvolvida através de sua participação na morte de um homem aparentemente inocente, faz sentido ver um justiceiro tão centralizado em punir apenas e estritamente quem merece.

Na realidade existe uma história paralela entre Frank e Micro que para mim não faz muito sentido. Toda a relação entre Castle e a família do Micro soa muito estranha e como um conflito de adolescentes. Frank chegar na casa da família no exato momento em que a filha tenta arrumar o triturador de lixo e o garoto decide agir como um babaca? É uma conveniência muito grande oferecer este tipo de resolução, além de bem mundano para dois homens que estão tentando parar uma conspiração governamental que causou a morte da família de Frank e o quase assassinato de Micro. Além de tudo é muito cruel acompanhar a esposa claramente lutando para criar seus dois filhos, enquanto a série a usa como peão dentro da história de Frank e David. Entendo que a série decidiu fazer este trabalho para motivar um de seus personagens ao extremo, com Micro atingindo o carro da agente Madani no final do episódio, como uma reação direta a essa provocação, mas soa muito infantil.

Madani e sua investigação, além de seu envolvimento com o parceiro, é nebuloso, para dizer pouco. Sua posição dentro do tabuleiro ainda não parece totalmente definida, apesar dos avanços. Eu consigo ver a série sinalizando a união, é possível enxergar a conexão da trama das armas com a necessidade de Frank, que novamente, soa extremamente conveniente, mas o processo é lento e este problema de ritmo precisa ser sanado o quanto antes.

Talvez tenha sido por isso que a Netflix liberou toda a temporada para a imprensa, ao invés dos usuais 8 episódios. Seu começo é tão lento, que criticar apenas meio ano não ajudaria a limpar a imagem da Marvel Netflix após o fiasco de Punho de Ferro e a morna Defensores.

Ressuply é um grande desvio, que acerta em alguns pontos, mas que demora muito para decolar em outros. É quando Frank está em sua procura por um carro, ou tentando conseguir as armas, que o episódio realmente mostra qual o potencial de Justiceiro. São momentos como a engraçada interação entre Micro e Frank, em um momento nada engraçado, que expõe a personalidade destes dois fora de um ambiente tão controlado, sem história de cachorros e violões. Justiceiro precisa ser um pouco menos organizada se quiser ser memorável.

Quando entra na parte interessante, na operação da Segurança Nacional, na tensão e na adrenalina, com uma perseguição e corrida digna de Velozes e Furiosos, Justiceiro se destaca. É diferente do que Demolidor fez, porque você tem seu herói como um advogado. Frank é um militar, traumatizado, querendo justiça através da violência. Por enquanto estou encontrando dificuldade em compreender o que a equipe criativa da série quer fazer e talvez seja por isso que tenhamos tantos desvios, por causa da falta de uma outra profissão para seu protagonista. Mas foi por causa de Frank Castle que decidi dedicar meu tempo, e quando a série se dispõe a trabalhar este personagem e sua missão, vejo que valeu a pena. Em todo o resto? Ainda preciso de um pouco mais para ser convencido.

Easter eggs e outras informações em Resupply:

– Tucão, personagem saído direto das páginas das histórias em quadrinhos, já apareceu em Demolidor (7 episódios), Luke Cage (2 episódios) e Defendores (1 episódio).

> DICAS DE SÉRIES IMPERDÍVEIS #4 | SM Play #80 [4K] 

– O adesivo do caminhão em que Micro está, tem os números 18, que é quando Frank Castle enfrenta Wilson Fisk, o Rei do Crime.

Leia também as outras críticas dos episódios dessa temporada de O Justiceiro:

REVISÃO GERAL
Nota:
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