Um episódio para deixar qualquer um extasiado.
Gente, na boa, que episódio maravilhoso foi esse? Sem sombra de dúvidas, o melhor de toda a temporada até aqui. E se o oitavo episódio já foi assim, imagina daqui pra frente? A qualidade atingida por Fargo é de encher de orgulho qualquer série maníaco que a tenha em sua watchlist. Em tempos de escassez criativa, em que adaptações e remakes (mesmo a série pertencendo, tecnicamente, à primeira categoria) imperam no meio televisivo, assistir séries como Fargo nos faz reascender a esperança de que nem tudo está perdido ainda.
Adorei a sacada genial de transformar este “Loplop” em um flashback do episódio anterior. Uma das coisas que mais estava me preocupando nesta reta final de temporada era saber como a série daria conta de nos contar os acontecimentos em Sioux Falls em três episódios dentro de um ritmo satisfatório e que não soasse arrastado. A ideia de mostrar o que acontecia com o trio Peggy-Ed-Dodd (de longe, a melhor química apresentada em tela em toda a temporada) mais Hanzee enquanto se desenrolavam os eventos do episódio anterior se mostrou uma decisão criativa mais do acertada. Está mais do que na hora da televisão aberta americana aprender que o formato “procedural” com longos vinte e tantos episódios por temporada (sendo mais da metade deles “fillers”) está mais do que defasado. Séries como Fargo nos mostra que você pode fazer uma narrativa complexa e contínua em poucos episódios, sem perder em nada o desenvolvimento da narrativa e personagens, e ainda consegue brincar de forma magistral com a linearidade da história.
Apesar de toda a tensão que cercou o episódio, como vem acontecendo na temporada como um todo, pudemos notar um alto grau de comicidade funcionando em conjunto, mesmo em cenas absolutamente obscuras, como a Peggy torturando Dodd para que ele tivesse bons modos. Essa é justamente um dos principais pontos quando falamos de Fargo: são sempre histórias com bastante violência, mas tudo é feito de forma leve, descontraída, como se tudo fosse absolutamente normal, o que reflete uma crítica mordaz à sociedade moderna. Estamos tão acostumados a um mundo violento que já estamos anestesiados, traduzido na falta de reação de Peggy ao perfurar seu prisioneiro. Ela fura, cozinha feijões e fala de sua nova vida e tudo isso com o mesmo grau de normalidade. O resultado disso é o humor negro que permeia a obra.
E eis que finalmente Hanzee teve o destaque que merecia. Eu sou fã de Zahn McClarnon desde Longmire, e lá seu personagem, apesar de sério, consegue ser um bom alívio cômico graças a sua língua afiada. Aqui o ator está consideravelmente diferente, conseguindo parecer creepy e ameaçador ao mesmo tempo. Apesar de não falar muito, sua presença sempre rouba a cena, mesmo diante de atores de mais “renome” que ele. A cena do bar foi sensacional. Eu pensei que já de ver o cuspe no copo ele já ia sacar a pistola e meter uma bala no balconista. Uma das cenas mais simbólicas envolvendo-o foi o quando ele lê a placa dizendo quantos índio tinham sido enforcados. Mesmo sem palavra pudemos sentir como isso atinge o personagem, fato importante para sua decisão nos momentos finais do episódio.
Outro personagem que também teve bastante destaque foi o já citado Dodd, e com isso Jeffrey Donovan teve uma melhor oportunidade de mostrar seu trabalho. Claro que o personagem já havia tido destaque antes, mas aqui ele pôde explorar outras facetas do Gerhardt mais velho. Ele foi o principal responsável pelo alívio cômico do episódio, e suas interações com Peggy foram simplesmente deliciosas. E sem querer soar repetitivo, a série nunca deixa de nos surpreender. Eu não imaginava que Dodd seria morto já nesse episódio, principalmente pela forma que aconteceu. Justo Hanzee, seu mais fiel escudeiro, ninguém esperava por essa. Toda a humilhação sofrida pelo índio no decorrer do episódio serviu pra justificar sua ação. Quando Dodd o chamou de “mestiço” já deu pra ver que a coisa não ia prestar. Quando falou pela segunda vez então, caixão e vela preta pra ele.
Além disso, os aspectos técnicos estavam, como sempre, irretocáveis. A trilha sonora estava impecável, conseguindo sempre contextualizar o clima das cenas. O trabalho de maquiagem também merece elogios, principalmente na hora em que Ed é enforcado pelo Dodd. Ficou muito realista, e a marca deixada no pescoço pela corda é um detalhe que muitas produções deixam escapar.
Apresentando o melhor episódio até o presente momento, Loplop eleva as expectativas ainda mais pro alto para que tenhamos uma season finale perfeita. Está quase acabando, e pela qualidade apresentada, já deixará saudades até ano que vem. Que venham mais episódios como esse e mais séries como Fargo.
Em tempo 1: Pra mim Kirsten Dunst está merecendo indicação ao Globo de Ouro e tudo mais. Atuação impecável da moça.
Em tempo 2: Continuando com as auto referências, não faltou “ok then” no episódio. E a referência a ufos se deu no rádio que estava sendo ouvido na mercearia. Além disso, temos mais um filme de Ronald Reagan passando. É aquele que ele cita para o Lou em um banheiro.
Em tempo 3: Acho muito interessante a forma de construção da personagem de Peggy. Uma das principais características é que ela só fala, simplesmente não ouve. Isso fica claro na cena em que ela está no carro com Ed, mas também quando ela oferece feijão ao Dodd. Ele diz que não quer e ela dá mesmo assim. Aí ela se lembra que ele não queria, ele fala que não faz mal porque os feijões estão bom, e ela para de dar.
Em tempo 4: O episódio conseguiu amarrar todas as pontas soltas. E apesar de ser bastante providencial ter um jornal com a informação sobre o Mike Milligan na cabine do orelhão, o máximo que podemos acusar a série é de apresentar uma saída fácil, mas não de furo de roteiro.















