A metalinguagem de uma série irregular.

Parece brincadeira de mau gosto falar de imperfeição em um roteiro tão imperfeito quanto o de Eye Candy, mas a decisão de se levar a sério da série elimina essa possibilidade. Atraídas para o centro de um dos conceitos mais vazios da sociedade atual, as personagens lidam com o perigo e a melancolia que um termo tão estranho ganhou a partir de sua etimologia. O tema é trazido de maneira duvidosa, mas abordado com o tato que merece — nada muito profundo, porque a produção da MTV carrega para si apenas aquilo que acredita ter capacidade de lidar. “Perfeição não existe, e é doentio achar que sim”, nas palavras da protagonista (o único discurso seu que eu salvo). Mesmo tendo de contornar linhas já borradas e dar voltas no óbvio para que a história finalmente chegue a algum lugar, a trama caminhou. Passos lentos, afinal, se ninguém é perfeito, por que produções seriam?

Ainda parafraseando um diálogo do roteiro, reflito sobre como a modernidade está diretamente ligada à cobrança que fazemos, conosco e com o mundo, a respeito de nossas falhas, uma vez que a internet é o lugar onde você pode criar uma ilusão, mostrar às pessoas tudo o que você quer que elas vejam. Beleza é o novo preto básico — talvez sempre tenha sido, para falar a verdade. A possibilidade de criar um perfil para manipular sua aparência é um problema moderno, mas sua base é muito antiga, seu defeito é quase instintivo. Todos têm algo a esconder, então não vejo problema nessa característica tão humana. O condenável é quando nos tornamos obcecados com isso, quando nos perdemos dentro da pessoa imaginária criada por nós mesmos, ou quando a pressão de ser perfeito fala mais alto que a vontade de ser livre. Eye Candy abraça uma geração que se preocupa muito com o olhar alheio (por mais que o olhar alheio esteja cada vez mais distante, cada vez mais escondido atrás de objetos e dispositivos), muito com ser inteligente, ser experiente, ter a aparência ideal, estar com as pessoas certas. Culpa da mídia? Culpa da cultura criada por nossa vontade de celebrar ideais mitológicos? Independente da resposta, no fim das contas, somos todos vítimas do mesmo parâmetro injusto com o qual lidamos todos os dias.

É assustador imaginar alguém que possa nos punir por aquilo que não mostramos na internet, aquilo que guardamos por vergonha, medo ou desconforto. Eu, por exemplo, que há certo tempo me recuso a postar fotos que mostrem meu rosto em perfis sociais, talvez tivesse minha cabeça arrancada. É isso? Não sei se consigo (brindemos a isso) entrar na cabeça do serial-killer mais artístico da televisão, mas não posso deixar de pensar nisso. Aliás, por mais interessante e bem contextualizada que seja a forma com a qual o assassino em série seleciona as pessoas, os sentimentos contraditórios por ele continuam. Não sei se é mais difícil imaginar alguém com paciência para tantos trabalhos com colagem ou que de fato ache Lindy perfeita. Temo que quando ele descobrir que sua maior imperfeição é não pensar com coerência, arranque-lhe o cérebro e essa sim seja uma cena para ser lembrada. Se o motivo me fez sair da posição na cadeira, os passos dados pelo criminoso de Nova Iorque ainda flertam com o meu fechar de olhos e as minhas idas ao banheiro. Encontrar quem tenha saído com todas as quatro vítimas não parece tarefa difícil, muito menos em uma época que está se adequando aos poucos aos crimes cibernéticos — e tendo uma hacker como protagonista. Entrar na conta dos usuários e dar uma verificada não solucionaria esse mistério em uma hora? Talvez seja apenas minha inexperiência com esses aplicativos de paqueração para telefones móveis ou minha vontade de encontrar furos em toda parte (não que seja tarefa difícil, sejamos honestos).

O episódio da semana passada me impulsionou a elogiar a química entre o trio de amigos da série, mas este me fez reconsiderar. A briga entre Connor e Lindy não é só tomar o caminho mais fácil, como desinteressante também. Coloquem Tommy (o detetive que acredita ser coerente levar a possível futura vítima de um assassino para uma possível futura cena de crime — e desarmada) na categoria. Coloquem Sophia e sua maravilhosa ideia de dar uma festa de aniversário surpresa enquanto está na mira de um assediador. Às vezes me passa pela cabeça que a ideia aqui é realmente não fazer sentido algum. Jake é suspeito, Jake é vítima, Jake é suspeito, Jake é vítima é cansativo. A série recorre a muitas coincidências para que ele se torne um suspeito ou um não-suspeito e nenhuma delas é satisfatória. O rapto no meio da festa não foi realizado da melhor forma, mesmo com dezenas de possibilidades para se explorar ali. Todo sentido razoável é abandonado para que a Candy Girl veja de perto mais um corte no elenco. Isso me lembra que a direção do episódio mudou, mas as irregularidades nesse quesito continuam a mesma. Não condeno esse fator indefinidamente porque é fácil de resolver, uma vez que entreguem o cargo a alguém que possa ambientar de forma criativa e concisa mesmo a mais absurda história.

Ao fim da terceira semana, lidamos com uma série imatura falando sobre temas maduros; uma série imperfeita (às vezes imperfeita demais), falando sobre imperfeição. Atuações imperfeitas (a única atuação que me deixou com um esboço de empatia veio de uma convidada), roteiro imperfeito e direção imperfeita. Algumas reclamações minhas foram interceptadas e o texto soube lidar com defeitos já apontados anteriormente, como a freada em Tommy O Impulsivo e o acréscimo de George de forma realmente representativa, que não foi feito da melhor forma e não funciona como alívio cômico, eu sei, mas vamos dar tempo ao tempo. Vou fingir que, em contrapartida, não ganhamos mais personagens que não contribuirão em nada. Por enquanto, lidemos com as possibilidades abertas e o surgimento de potencial onde não havia muito.

HBTU é mais um episódio regular para adicionar à pilha. Não consegue equilibrar de forma aceitável a complexidade de seus temas com o desenvolvimento de seu enredo, mas dá a entender que a série está trilhando um caminho que desconhecemos. Para muitas pessoas uma planície de certezas é melhor que uma montanha de possibilidades, e eu não as culpo, pois sei que, no fim do dia, não queremos uma série perfeita, mas uma série boa. Aceitamos a impossibilidade da perfeição na televisão (mesmo a recordista de aclamação não é), então o bom está bom. Pelo menos nesse nosso fantasioso universo maníaco, o bom nunca ofendeu ninguém.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.