Um final decepcionante para uma temporada morna.

Chegamos à derradeira semana da temporada de estreia de Eye Candy e nós, cada um com sua métrica, já podemos dar um veredicto final para essa primeira mostra do seriado americano. Esse capítulo final não aproveitou toda a adrenalina bem trabalhada do anterior e se despediu de forma fraca e preguiçosa. Diferente do que vimos na segunda passada, a tensão não foi bem trabalhada e a incoerência narrativa e os furos acumularam uma vergonhosa tentativa de dar um final misterioso ao enredo. Ao contrário do que temíamos, ao menos, o roteiro não deu muitas voltas para solucionar de vez a trama do assassino do Flirtual. Isso é bom porque não nos deixará na mão caso a série seja cancelada em um futuro infeliz. Além disso, mostra que ela não permanecerá na zona de conforto, explorando essa personagem psicótica e mal construída. Mas, devo dizer, o mesmo não se aplica a história de Sara. Poderíamos ter dado um passo bem mais largo, recebido pistas bem mais interessantes e indícios mais satisfatórios de algo bem planejado à frente. Temo que o destino da irmã de Lindy seja a carta que os produtores esconderão atrás da manga até jogar na hora certa — seguindo o longínquo conceito de “hora certa” deles.

Não só vou retomar os principais momentos dessa última hora da série, como pretendo, e convido-vos, a analisar a trajetória pela dezena de episódios apresentados. É difícil tentar pontuar todas as qualidades e defeitos de uma temporada quando ela começou há semanas, mas farei um esforço e, caso me esqueça de algum, lembrem-me nos comentários. A conclusão que eu chego é que o potencial dessa série tão bem produzida não foi explorado como deveria. Em época de cinema independente (e até série, como as criadas através do YouTube) é difícil não ficar chateado com aquelas que conseguem um bom orçamento de sua emissora, mas não entregam um material digno. Independente da emissora, o que viso sempre é o resultado. Não acredito que mentes inteligentes e esforçadas sejam condicionadas à HBO. Penso também que toda emissora é sim capaz de criar um conteúdo muito bom mesmo com um histórico duvidoso, ou o contrário — AMC está aí para provar com seu mérito de conseguir emplacar uma série no Guinness Book por conta de sua qualidade e sustentar recordes de outra que nem sequer deveria ter metade do prestígio mundial que ganhou. Mas essas são palavras minhas. O meu ponto é: se pessoas com orçamento zerado são capazes de criar tramas fantásticas, não é frustrante que aqueles que têm salário, uma condição de trabalho mais privilegiada, um escritório e uma equipe para ajudá-los não consigam o mesmo resultado? Somente por isso, apoiado com teimosia nesse argumento, é que não, eu não perdoo nada. Sim, é da MTV. Sim, MTV tem conteúdo jovem e proposta que diverge das outras emissoras, mas não, isso não é desculpa. É o mesmo que afirmar que animações não precisam se preocupar com a qualidade, apenas divertir os pequenos.

Eye Candy passou sua temporada apoiada em poucas personagens, mas nenhuma delas nos despertou interesse a ponto de nos preocupar com seu destino. Da protagonista fraca até os recorrentes dispensáveis, não posso afirmar que aí resida uma qualidade do seriado. As atuações também se comprometeram muitas vezes, mas chega de bater nessa tecla, certo? Em compensação, ganhamos muitas tramas inteligentes e bem desenvolvidas, nos já tão manjados casos da semana. A série soube usar muito bem essa fórmula ao seu favor e o meu episódio favorito se apoiou totalmente nisso. É gratificante reparar que, percebendo o que o fazia bem, deram espaço para o desenvolvimento desses casos de resolução rápida, mas satisfatória. Os diversos ambientes e temas contribuíram para despertar nossa empatia, mesmo que temporariamente. Pegou-nos de surpresa e nos deixou, em diversos momentos, bem realizados com seus finais.

O que sinto em alguns momentos, entretanto, enquanto assisto, é que muito tempo é gasto com cenas que não são tão importantes. Mas essa é uma reclamação antiga e isso já vem sendo modificado há certo tempo. A4U, seguindo o exemplo do anterior, preocupou-se em dar um foco para cada uma de suas personagens e não deixar ninguém sem uma pequena participação ou uma real importância. Todos foram empregados de maneira satisfatória nas situações, por mais mirabolantes que elas fossem. Esse é sempre um bom caminho para uma narrativa inteligente e bem articulada.

Falando do episódio em si, achei-o decepcionante em diversos aspectos. A história que inventaram para explicar o passado de Jake e seu comportamento presente não é muito criativa, ficando presa na zona de conforto da qual muito escritor utiliza quando pretende falar sobre psicopatas. O confronto com Lindy não teve o impacto que o momento pedia, e os diálogos foram bem fracos, para não dizer incoerentes. Além disso, a história carecia de explicações mais aceitáveis para conseguir nos fazer admitir como Jake conseguiu toda a façanha de matar Tessa, sequestrar Sophia, levá-la a ilha e ainda retornar ao hotel. Houve um flerte com um cúmplice, mas nada que justificasse os furos tão nítidos que percebemos.

O episódio final ousou dar a Tommy uma eficácia e utilidade que ele não teve a temporada inteira. Saúdo isso, por mais que não faça muito sentido porque o que ele mais fez até aqui foi palhaçada. Fico aliviado por não terem apressado uma aproximação com Lindy, mesmo que já tenham deixado bem claras as intenções do rapaz. A cena do aeroporto foi bem bobinha e como desfecho para uma história tão supostamente complexa ficou devendo muito.

Com Jake e a trama instalada por sua personagem para trás, Eye Candy tem a chance de recomeçar e reformular toda sua série para o próximo ano. Novos mistérios, novos casos da semana intrigantes, novas personagens… Com essa possibilidade em mãos, caso tenhamos a chance de assistir a uma nova temporada, resta a esperança da correção para os erros mais superficiais e uma revisão para aqueles que estão aparentemente intrincados às características de seu texto. Não vejo nenhum erro como permanente ou absurdamente irritante. Nada tão sério que impulsione o abandono da série. Fico, torço e aguardo o retorno. Todos nós, espero.

ps: Essa é a primeira temporada que cubro fazendo parte do grupo Serie Maníacos. Essa primeira experiência foi um privilégio para mim, e me sinto muito feliz pela chance de poder dividir um pouco da minha opinião com os leitores do site. Gostaria de agradecer de coração a todos que leram as reviews (mesmo aqueles que chegaram com muito esforço ao final porque discordavam de tudo), a cada um dos comentários dos dez textos, ao pessoal da equipe do site que me acolheu muito bem e, principalmente, ao Michel pela paciência e ajuda sempre disponíveis para mim. Obrigado mesmo.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.