Não, Tessa, eu que agradeço.

Mesmo assim, eu não tenho nada contra a vida / Mas o suicídio tem uma linguagem especial.” Toda opinião sobre o suicídio é, em sua raiz, preconceituosa e sem fundamento. Todas as pessoas que criticam aquela presente necessidade de desejar a morte não têm embasamento suficiente para construir um argumento que equilibre sentimento e teoria nessa balança imaginária de moral e bons costumes que tanto pregamos. Para entender o suicídio, é preciso de empatia. Esta, por sua vez, só aparece com prática. Suicídio só é entendível com prática. Ninguém está preparado para entender as mentes que nasceram para nadar contra a corrente; essas mentes, abandonadas de si mesmas, inquietas, que não fazem sentido algum, porque, para falar a verdade, fazer sentido seria juntar os pedaços que consertariam, aparentemente, seu problema. Algumas pessoas só funcionam se despedaçadas, e nem tudo, nem todos, podem ser consertados. Certo é que toda opinião que condena, que tenta vestir a capa do outro para simular seus problemas e toda voz doce que desliza por um “eu entendo” nada mais são que preconceito vazio. Sim, preconceito que não se assume, dissimulado. Assume-se, na verdade, em opinião. Aquele velho discurso que declaramos em voz alta como opinião só para não nos constrangermos. É que estar errado nos constrange…  Seria o suicídio, realmente, um ato covarde? Seria, por outro lado, a maior prova de coragem que o homem já inventou? Coragem é assumir suas guerras ou saber quando abandonar a arena? Suicídio é um tiro no escuro? Suicídio é um tiro no escuro.

Pegando emprestado os versos de Sexton, reflito sobre um dos temas principais do episódio. Reflito porque gosto de cavar no raso, e a série só me apresentou o raso. Não por sutiliza, pois, convenhamos, a produção não é boa em sutileza. Aquilo que não vemos, que não é desenvolvido ou trabalhado, apresenta-se apenas pela falta, muitas vezes, de competência para elaborar uma estrutura mais firme e adequada para o assunto. Aqui, entretanto, sou benevolente com os erros e reflito, como já disse, sobre o pano de fundo, as intenções, o fim. O fim justificou os meios. O fim quase poético, mas não fantasioso, dramático, mas não exagerado, regou com uma boa resolução uma trama que, até então, eu considerava sem pé nem cabeça. O suicídio pedido, implorado, desenvolveu-se com uma desenvoltura tão estranhamente familiar e uniforme que me surpreendi elogiando os rumos que ele tomou. Não poderia começar de outra forma, inclino-me a confessar. Ainda embalado por essas obscuras cenas de uma série que nunca ameaçou tocar em feridas e despertar filosofias, entrego-me, ao menos nesse texto, aos pontos mais negativos e cruciais da existência humana. Tessa, tão repudiada por mim por tantos episódios (por metade deste, até), fez-me pensar. Fez-me pensar que a vida só tem significado enquanto ainda temos escolhas. Parece estranha sua atitude, mas, se pensarmos bem, outros filmes e pessoas decidem pelo mesmo caminho. Não decidem, entretanto, por nada tão radical, apenas parando os tratamentos, deixando de ir às sessões, entregando-se às doenças de corpo aberto e fechando a alma para si nessa eterna espera pelo último dia. Não só criativa, essa história de perseguir alguém que possa dar-lhe fim é de uma sagacidade espantosa. Sim, sendo Eye Candy, é espantosa.

Começo o texto tão grato porque me sinto grato à série. Finalmente um episódio para se elogiar sem tentar ser comedido. Finalmente um episódio para nos fazer vibrar, além de manipular nossas emoções, coisa tão difícil na história do seriado. Talvez eu, mais que todos, não tenha previsto todas essas reviravoltas porque meu tato para thriller esteja meio enferrujado. Sejamos francos, sempre foi enferrujado. A série não só dedicou-se inteiramente ao seu enredo principal, como soube, aos poucos, regar-nos com boas cenas e montar a base para seu encerramento. Reconheço com alegria o esforço feito aqui para que todas as personagens se encaixassem. Ninguém que apareceu no episódio ficou de fora, tendo seu momento e sua importância. É isso que torna um roteiro bom, se vocês querem mesmo que eu diga. Saber interligar as personagens secundárias para assim chegar ao objetivo central, ou, ao menos, utilizá-las de modo que saibamos da relevância de suas presenças pontuam muito na minha escala — na da maioria, acredito.

FYEO começa com uma sequência de cenas que facilmente nos lembram filmes independentes de terror. Ou até de grandes produções, pois elas estão dando mancada desde os anos noventa. Toda a montagem com a perseguição da detetive chefe (que foi bem óbvia, eu sei, e que teve referência ao meu filme de terror favorito) soou bem boba, mas estava lá por um motivo e, ao final do episódio, entendemos onde queriam chegar. Foi uma forma de fechar o círculo para a season finale, vejam só. Esses dois últimos capítulos, ao que parecem, foram bem pensados.

Senti falta do caso da semana. Não que isso tenha tornado o episódio menos bacana do que ele foi, mas eu me acostumei tanto às tramas cibernéticas que senti o vazio da vaga que não foi ocupada dessa vez. No lugar, Lindy dedicou seu tempo às pistas sobre a irmã. Toda a narrativa que seguiu esses momentos foram bem utilizadas, servindo, inclusive, para nos levar de mãos dadas para um fim de episódio que não desconfiamos durante todo o caminho. Digo, eu não desconfiei. O destino de Sara, que pode ser a heroína da próxima segunda, está sendo revelado aos poucos e surgiu para ser retomado na hora certa. Não creio que ela seja a garota enterrada, mas não faço apostas.

Aborreci-me com o tempo que Tessa estava ganhando em tela, mas, assim que anunciado a sua obsessão por encontrar um assassino em série, interessei-me pela história com ares desconfiado. Não sabia que chegaria aonde seu cume a levou, mas gostei do trajeto e o final recompensou tantos episódios entregues às suas participações. Desviando da série só por duas frases, revelo a vocês que não sei se teria peito para enfrentar a doença. Não tenho peito para tanta coisa. Tommy e Connor passaram boa parte do tempo dando voltas, mas, reiterando o que disse antes, o esforço do texto em lhes dar importância e uma das chaves para solucionar o mistério é primoroso. Chegaram, com seus tropeços e burrices, ao ponto certo.

Jake! Pois é. Há cúmplices, afinal, ele não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, não é? Eu deveria ter desconfiado assim que seu romance com a Candy Girl começou a se consolidar. Tanto filmes que eu assisti que exploraram isso e, mesmo assim, não fui capaz de adivinhar as intenções por trás dos beijos. Tanto falo da senhorita Sampson e, ainda assim, sou tão inocente e induzido quanto ela. Acredito que a série poderia ter flertado mais com a possibilidade dele ser ou não o assassino, mas não a condeno por deixar esse gancho tão chamativo para sua derradeira semana. Foi a primeira vez que, aos fins dos quarenta minutos, senti-me estremecer de ansiedade.

Lindy, que não é Anne Sexton ou Tessa, não tem desejo algum pela morte. Arrisca-se, dança com ela, envolve-a sensualmente ao redor de seus braços para valsar à beira de precipícios. Nossa protagonista finge-se de cega, finge que dança no escuro. Sabe, sabemos, que procura pela faca tanto quanto esta lhe procurou alcançar até aqui. Quanto a nós, espectadores debochados, ficamos nessa segura distância para torcer a favor ou contra, tão deliciados, tão envoltos pela psicopatia dos outros. Enquanto assistimos a essa reta final, agradecemos a recompensa. Esse episódio nos brindou como premiação pelos outros. Fez o mínimo que toda e qualquer forma de arte se propõe: despertou-nos.

PS: o poema citado no começo do texto chama-se “Wanting to Die” da poetiza suicida Anne Sexton. Há disponível, no YouTube, um vídeo com a autora lendo-o. Mais uma alma encantadoramente perturbada que deu um tiro no escuro.

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.