Capítulos chamados de “especiais” estão chegando, mas será que Vale Tudo arrumou a casa antes da festa? 

Existe uma coisa em dramaturgia que representa exatamente o que queremos dizer quando nos referimos aos problemas de construção do remake de Vale Tudo. Essa coisa se chama Carpintaria textual e diz respeito não só à estrutura de um roteiro, mas a tudo que um autor planeja para que seu universo se comunique de maneira harmoniosa com seu interlocutor. A carpintaria está na forma e no conteúdo, não limitando-se somente aos tópicos que constroem um roteiro físico. 

Um exemplo que gosto de dar para entender bem o que é carpintaria está na novela Por Amor, de Manoel Carlos. Ele precisava que mãe e filha engravidassem ao mesmo tempo e tivessem filhos no mesmo dia, para que a troca de bebês fosse possível. Então, ele fez com que a gravidez de uma para outra fosse separada por pouco tempo; o suficiente para que elas quisessem a experiência de terem filhos juntas. Providenciou um quarto de hospital duplo, uma viagem de trabalho para o pai da criança dias antes, uma bolsa rompendo de surpresa e uma tempestade colossal no Rio de Janeiro, para garantir que elas não estivessem com mais ninguém nos leitos. 

Mas, não é só isso. Para que a troca fizesse sentido, ele começou logo cedo a mostrar que Eduarda era frágil, insegura e muito conservadora. Ele a fez ter um aborto espontâneo logo depois do casamento; para que seu corpo sinalizasse cuidados e para que sua relação parecesse sob ameaça. Já Helena, desde o começo protegia demais a filha e com a ajuda de um médico que se formou bancado por ela, tomaria a decisão de fazer a troca por acreditar que isso resolveria os problemas de Eduarda. Do capítulo 1 ao capítulo em que a loucura toda aconteceu, tudo foi se arrumando para que o extremo da troca fizesse sentido. 

No sábado passado, logo após o final do capítulo de Vale Tudo, vimos um trailer que prometia “capítulos especiais”; que são, enfim, apenas capítulos que antecedem a passagem de tempo que mostrará as mudanças derradeiras para a segunda fase da novela. Fátima e Raquel se enfrentarão; Solange e Fátima se enfrentarão; Fátima vai se casar e partir… e uma série de reverberações preparariam o público para os capítulos finais. Público de novela adora um acerto de contas. 

Mas, será mesmo que essa semana de “capítulos especiais” pode ser chamada assim depois de antecedentes tão rasteiros? 

As “resoluções” começaram antes da semana que está por vir; com Aldeíde enfrentando Marco Aurélio antes de pedir demissão da TCA. Esse é um ótimo exemplo do que costuma acontecer nesse novo universo proposto por Manuela Dias. Além de uma carência de cenas em que Aldeíde rivalizasse concretamente com Marco Aurélio, o pouco tempo em que a personagem e ele se encontravam era deslocado para um tom cômico, geralmente ligado ao figurino monocromático da secretária. Soma-se a isso o esvaziamento da antipatia do vilão, que nas últimas semanas foi mais marido apaixonado, tio apaixonado e coadjuvante engraçado do que vilão realmente. 

Na primeira versão, Marco Aurélio era brutal com Aldeíde; e sua maldade estava em todos os aspectos de sua personalidade. Havia mais atenção a essa dinâmica; o que fez com que a revolta de Aldeíde tivesse mais escopo e mais impacto. A surpresa de todos era a mesma do chefe, que teve até uma resposta física, semelhante aos sintomas de um ataque, diante da insolência da secretária. Dessa vez, é como se a “explosão” tivesse sido bombeada de lugar nenhum. Nem Marco Aurélio parece tão mau e nem Aldeíde parece tão afrontosa. As coisas entre eles foram mornas, quase frias. Não houve nem mesmo uma tentativa de “pensamento modernizador” básico, como ao invés de mostrar Aldeíde enfrentando o chefe com palavras, que ela enfrentasse ele com um processo por assédio moral. 

Outra “bomba” prometida para a próxima semana foi o embate entre Raquel X Fátima e Fátima X Solange. Em ambos os casos a situação é a mesma: Manuela Dias deixou de lado a construção das tensões. Entre Fátima e Raquel essas tensões foram se perdendo porque o investimento da autora na química entre Ivan e Raquel foi quase nenhum. A consequência acaba sendo a indiferença do público diante da separação do casal. Pouco importa o que Fátima teria feito para separá-los, porque de fato essa separação não foi lamentada nem sentida. 

Com Solange a situação é ainda pior. Nos primórdios da teledramaturgia, era comum que autores fizessem cenas em que um personagem pensava no outro, com uma canção de fundo e memórias sendo reprisadas. Era o jeito que eles encontravam de lembrar ao espectador que aquele casal era muito importante para a trama; e que não importava o que acontecesse, eles iriam terminar juntos. Com o tempo, essa prática foi sendo enfraquecida – provavelmente por representar um traço forte demais da novela como ela era no passado –  mas autores cautelosos encontraram outras maneiras de manter a chama viva. 

Desde que se separou de Afonso, Solange engatou um romance com Renato e passou vários capítulos sem dar nem um sinal de que aquela relação com o herdeiro Roitman importava para ela. Do outro lado, Afonso agia da mesma maneira. Além disso, Manuela Dias preferiu tirar Solange de cena para enfraquecer o relacionamento; e até uma traição cometida pela diretora de conteúdo ela criou. Na primeira versão, Fátima armou várias situações para fazer Solange parecer infiel. Dessa vez, a autora preferiu que ela fosse infiel mesmo. O papel de Fátima na separação foi quase nenhum (ela só estava ali, disponível) e de fato, Solange nem mesmo teria o direito de invadir o casamento para tirar satisfações. 

Como em um passe de mágica, depois de semanas em um romance “tórrido” com Renato, Solange passa 1 capítulo falando de Afonso; e isso será o suficiente para que se ache preterida na situação. Enganado mesmo foi Afonso; culpada mesmo da saída de cena de Solange foi Odete; no final das contas, Solange tem muito pouco para cobrar de Fátima, porque a autora eliminou a construção de eventos que culminariam no ódio justificado entre elas. 

E enfim, a gente se pergunta: capítulos especiais? Sem que a carpintaria seja cuidadosa, nenhum embate tem impacto real, nenhuma virada é dramática o suficiente… Manuela Dias fez uma “lobotomia” criativa e textual em Vale Tudo. Semana que vem estaremos aqui para comentar. Mas, até agora, só o que presenciei foi apatia. 

Odete reclamando com a Fátima das redes sociais dela foi bem engraçado. A vilã (que não é vilã mesmo) tem os textos mais inspirados do remake. Parece que a vontade de escrever para ela é a única soberana nessa equipe. 

Um salve para o talento de Karine Teles. Poderia ter ganhado um monólogo muito maior, mas fez bonito com o que tinha. 

A Tomorrow virou um elefante branco na novela. Mudaram para Agência de Conteúdo para garantir mais publis; mas todo o núcleo virou uma chacota tão grande depois que Solange e Renato viraram os maiores hipócritas do horário nobre, que os patrocinadores estão preferindo fazer a Odete experimentar produtos do Boticário do que anunciar com eles. 

 

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