Novo título da franquia não oferece nada de novo, mas está longe de merecer extinção. 

A chegada do novo Jurassic World aos cinemas foi mais cedo do que se esperava. Depois de passar três filmes inserindo os dinossauros na civilização, os produtores desse universo pareciam dispostos a olhar para ele com o apuro de antes; e levar de volta o homem para onde ele nunca deveria ter estado (o que era a premissa da primeira trilogia). Jurassic World Domínio foi uma das piores coisas que Hollywood produziu em sua história; e se havia interesse em manter essas criaturas vivas, um olhar realmente dedicado precisava pousar sobre elas. 

A solução foi voltar às origens. David Koepp, roteirista do primeiro filme, foi convocado. Mas, só aceitou o trabalho depois de ter certeza que Steven Spielberg estaria de volta no envolvimento direto com o filme. O enredo de Recomeço foi decidido pelos dois; desenvolvido em parceria e levado ao resultado final por Koepp, que fez questão de apoiar sua trama em pesquisas que teorizavam o DNA dinossauro como um ponto de reconstrução para a raça humana, e não como rival de coexistência. O esforço em transformar esse filme numa peça de nostalgia calculada foi tão verdadeiro que até cenas cortadas do roteiro do primeiro filme e que estavam no livro de Michael Crichton foram reaproveitadas. 

Era praticamente uma “clonagem” de Jurassic Park; em forma e em personagens. O especialista Henry Loomis emulando Alan Grant, Ellie e Ian; uma família perdida na selva e uma criança assustada protagonizando momentos de força e fragilidade; um empresário desumano levando a ambição até às últimas consequências… e dinossauros quietinhos, dando de cara com intrusos que iriam se arrepender da própria chegada. Koepp fez o possível para se afastar da trama, mas fez o possível para se aproximar na essência. 

E está tudo ali… Assim como fizeram no primeiro filme, Koepp e Spielberg dividiram a ação em núcleos; um entrando no meio do perigo por acaso e outro porque subestimou a força das criaturas. Cada um desses núcleos com tempo de desenvolvimento, com personagens motivados e com baixas necessárias no meio do caminho. Dessa maneira, Koepp resolveu um grande problema dos filmes anteriores da era World: aqueles são personagens com quem é possível se importar. 

Há pelo menos duas sensacionais sequências de ação: aquela que faz com que todos os personagens cheguem na ilha – depois de um eletrizante jogo de gato e rato no oceano; e a sequência retirada do livro de Crichton, em que a família tenta escapar do T-Rex em um bote inflável. São duas sequências muito bem dirigidas por Gareth Edwards, um diretor profundamente consciente da influência de Spielberg em si; o que fez com que abraçasse maneirismos do ídolo sem nenhuma vergonha. Assim como Spielberg fazia – e em nome de uma catarse quase infantil – Edwards abusa do deux ex machina, salvando personagens de situações impossíveis com soluções e interferências quase sempre movidas pela salvação no último instante. 

As lições também estão lá… O patriarca Reuben Delgado precisa aceitar o namoro da filha Teresa com um folgado; e precisa lidar com as travas amedrontadas da outra filha, a pequena e adorável Bella. Do outro lado, a valentona vivida por Scarlett Johansson vai precisar lidar com a própria ganância; enquanto o capitão Duncan vai perceber que a presença de uma criança no meio do grupo vai trazer de volta as dores da perda do próprio filho. Está tudo ali.  Seguindo a cartilha de Spielberg, a gente já sabe que conforme o filme avança, esses conflitos vão sendo explorados e resolvidos. 

É uma estrutura muito óbvia, mas profundamente eficiente. Cada grupo precisa ir resolvendo problemas para avançar; e sabemos que a cada novo estágio, um novo confronto com as criaturas vai acontecer. Dessa vez, contudo, voltamos ao mundo em que dinossauros agem como animais que são, reagindo apenas à presença de estranhos no próprio território. Ainda que sejam híbridos, eles respeitam suas características principais, mantendo-se sempre dispostos à caça, mas igualmente suscetíveis ao raciocínio humano que os distrai com luzes ou obstáculos. 

Mais do que propor um verdadeiro “recomeço”, o que Spielberg e Koepp querem é trazer uma sensação de familiaridade. O papel de levar os dinossauros para outras direções já foi feito pela trilogia estrelada por Chris Pratt; e Koepp fez questão de deixar isso claro ao mostrar que nem mesmo um dinossauro “encalhado” no meio de um ponto turístico do Brooklin despertava o interesse das pessoas. Voltar às raízes parecia a solução mais viável para recuperar o coração das pessoas e dar a elas uma experiência divertida e aventuresca novamente. 

Então, não… O CGI não é sempre imperceptível, mas é ótimo. Os personagens escapam de muita coisa, mas essa é a premissa de um adventure movie. Tudo é muito óbvio, porque essa é a máxima de um blockbuster que se preze (o óbvio não é inimigo da catarse).

Jurassic World Recomeço não tem nada de novo para te oferecer, mas é aí que reside justamente a sua força. 

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