Depois do grande sucesso de crítica de Três Graças, nova trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto tem nas mãos a responsabilidade de não nivelar por baixo. 

 

Não é seguro tomar as redes sociais como base primordial de avaliação a respeito do sucesso de qualquer coisa. Na maioria das vezes, as bolhas são valiosas ferramentas de compreensão sobre o que funciona entre os que compartilham da mesma paixão. Mas, a popularidade nas redes e a popularidade nas ruas não são necessariamente a mesma coisa. No ar para o deleite da bolha noveleira, Três Graças não é popular como os últimos sucessos do horário nobre da Globo. Mas, é extremamente superior quando falamos de texto, direção e enredo.

Já fazia bastante tempo que o público não se deparava com uma novela das nove que conseguia se organizar tão bem. A soberania artística da obra de Aguinaldo Silva foi vista pelos amantes do gênero como um retorno aos tempos em que a prioridade de uma trama era seu enredo e não a quantidade de propaganda e a quantidade de memes que podia gerar. A eterna confusão entre popular e simplório não atingiu a equipe de Aguinaldo.

Walcyr Carrasco chegou ao horário das 21 em Amor à Vida; e com Félix e Valdirene na linha de frente de apelo popular, alcançou resultados impressionantes. As duas novelas seguintes conseguiram o mesmo desempenho (O Outro Lado do Paraíso, A Dona do Pedaço). Já Terra e Paixão amargou o cansaço do formato caótico do autor; mas graças ao casal Kelmiro ainda chegou categoricamente “na boca do povo”. Mesmo conseguindo furar as bolhas, as tramas de Walcyr sempre foram rechaçadas pela crítica e pelos espectadores mais exigentes.

Quando o título Quem Ama Cuida foi divulgado, a pergunta de todos nós era: será mesmo que vão cuidar do nosso agora cicatrizado horário das nove?

Na trama, Letícia Colin vai viver Adriana; uma mulher sofrida – obviamente – que depois de perder o marido numa enchente (que dominará as atenções nessa estreia) vai trabalhar na casa de um milionário vivido por Antonio Fagundes. Os dois vão se afeiçoar e cansado de ver a família brigando pela herança, o milionário resolve se casar com Adriana para que tudo fique para ela. O problema é que no dia do casamento ele aparece morto e Adriana é presa acusada do crime. Seis anos depois ela volta para se vingar e provar sua inocência.

Os elementos “carrasquianos” estão todos aí; e com a adição do mistério em torno desse crime, a novela promete movimentar-se por todo seu tempo no ar. De todas as suas tramas das 21, a que tem mais presença no imaginário coletivo é O Outro Lado do Paraíso (por conta da volta da mocinha depois de anos dada como morta). Provavelmente, a intenção é usar o tema clássico da vingança para tentar repetir o apelo que esse enredo provocou lá em OLDP; e em algumas vezes no horário.

Dessa vez, Walcyr volta ao horário dividindo autoria com Claudia Souto. Resta saber, contudo, se ela vai aparecer no resultado final ou se a mão de Walcyr vai pesar e manter o produto com sua identidade descontrolada. Depois de meses acompanhando Três Graças e sua segurança narrativa, seria uma pena ver uma obra dar vários passos para trás, mais uma vez refém da pequenez criativa de quem acha que o “fácil” é o burro.

Se quem ama cuida mesmo, cuidem.

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