Depois de mais de 3 anos de problemas e adiamentos, a HBO Max finalmente apresentou o primeiro capítulo de sua produção para imprensa e convidados.

 

Diante do telão em que o primeiro capítulo de Dona Beja seria exibido, o autor Daniel Berlinsky tomou a palavra para explicar a essência do trabalho que todos estavam ali esperando para ver. Ele falou sobre as impressões de um amigo, que havia assistido à primeira versão e afirmado que só conseguia ver a protagonista como objeto de desejo. Segundo esse amigo, a troca da grafia BEIJA por BEJA havia feito a palavra deixar de ser um verbo para ser um nome, e ele – o amigo – pela primeira vez passara a ver a protagonista como uma pessoa inteira.

Corta para a exibição do primeiro capítulo e ele não vai na direção oposta ao que se espera da personagem. Beja (mesmo sem a letra i) continua nua no banho da cachoeira e continua sendo objetificada. Todo o enredo que leva até o sequestro que termina por desonrá-la perante a sociedade mineira se baseia na força de sua beleza e apelo sexual… não há como fugir disso, mas há como contornar isso. Contudo, a impressão deixada é de que há uma discrepância notória entre o que a produção pretende e o que ela alcança. 

A começar pela ótica essencialmente branca e masculina que envolve o trabalho. Daniel Berlinsky divide a autoria com Antonio Barrera. O diretor geral é Hugo de Sousa. Homens e brancos, responsáveis por levar adiante uma história dominada por mulheres e negros. É bem verdade que Dona Beja foi criada originalmente (mesmo que inspirada em uma figura real)  seguindo os códigos de uma época; mas, se eles insistem que a proposta não é um remake e sim uma releitura, aspectos sensíveis daquele universo e de como a criatividade lida com eles, precisam ser considerados. 

A história da deslumbrante órfã que é sequestrada às vésperas do casamento por um Ouvidor do Rei e volta anos depois como dona de um bordel de luxo, ainda está ali. O plot central da protagonista é o mesmo; e até a reprodução da abertura com Beja em frente a uma penteadeira, parece emular o clássico fielmente. As mudanças estão nos entornos; quando a inspiração soa muito menos Beja e muito mais Bridgerton. E não há aqui nenhum juízo de valor e sim a constatação de uma tendência, que muitas vezes a novela da HBO não parece ter certeza se vai seguir ou não. 

Embora a trama se passe em 1821, a direção da novela optou por uma releitura também da escravidão naquele específico ponto da história. David Júnior e André Luiz Miranda foram escalados para viverem os interesses românticos de Beja (Antonio e João); papeis que ficaram com Gracindo Junior e Marcelo Picchi na versão original, ambos brancos. Parte desses personagens em posições de poder na sociedade agora são vividos por atores pretos; o que leva a identificação do espectador direto para o mundo de Bridgerton. Contudo, o texto de Dona Beja não conseguiu – pelo menos no primeiro capítulo – explicar as contradições entre isso e os horrores vividos pela personagem de Erika Januza, por exemplo.

Ao ver a personagem de Erika sendo humilhada em praça pública, a irmã de Antonio, Maria (vivida por Indira Nascimento), espragueja a favor dessa humilhação. Uma mulher preta comemorando o subjugo da outra; num efeito colateral desconfortável dessa decisão criativa, que parece se aplicar melhor em um universo criado do nada do que numa reconstituição do Brasil colonial. Entendemos que ter atores pretos vivendo escravos se tornou um tópico delicado na produção de teledramaturgia; e que ninguém mais quer continuar vendo isso. Mas, Dona Beja parece estar no meio do caminho, a dois passos de acabar promovendo desserviço, inserindo dentro das nossas referências históricas uma involuntária contestação delas mesmas. 

Com uma edição rápida e texto expositivo; o primeiro capítulo dessa releitura reforçou a grandiosidade de Grazi Massafera em cena; além do carisma de David Junior e das presenças ilustres de Deborah Evelyn, Thalma de Freitas, Bianca Bin, e muitos outros. O elenco é acertado, o figurino é deslumbrante e as cenas externas foram dirigidas com bom gosto. É cedo para uma definição, mas as primeiras impressões da novela são de que seus problemas de bastidores resultaram em produto que agora soa ligeiramente genérico. A novela vai precisar de muito mais que suas intenções para funcionar dentro de suas ambições provocativas. 

Ao final voltaremos aqui para confirmar ou refutar o quanto o mundo re-idealizado de Beja funcionou (sem o i).

 

“Dona Beja” é uma novela produzida pela Floresta e licenciada pela Warner Bros. Discovery. Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira com colaboração de Maria Clara Mattos, Cecília Giannetti, Clara Anastácia e Ceci Alves. Direção geral de Hugo de Sousa e direção de Bia Coelho, João Boltshauser, Rogerio Sagui, Thiago Teitelroit e Ana Angel. Por parte da Floresta, a produção executiva é de de Adriana Silva (Dida), Roberta Guzzon, Tayane Saad. A produção é baseada na sinopse desenvolvida por Renata Jhin, António Barreira e Daniel Berlinsky, em releitura da obra original criada por Wilson Aguiar Filho. Por parte da Warner Bros. Discovery, a produção conta com supervisão de Mariano César e Anouk Aaron. A estreia será dia 02 de Fevereiro. 

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