Depois de quatro episódios já é perceptível que estamos diante de uma temporada infinitamente superior à primeira.
A exibição da primeira temporada da Drag Race Brasil não foi exatamente como esperávamos. Embora a vontade da maioria fosse a de que o programa estourasse, ele manteve sua relevância baseado unicamente na força do material humano. Grag Queen, seus jurados e participantes tiraram leite de pedra; mataram um leão por semana; e enfrentaram as péssimas condições de produção como gladiadores numa batalha.
Co-produzida pela Paramount, a primeira temporada da corrida amargou uma edição maluca e um investimento quase nulo em tudo que faria com que a produção dos episódios parecesse minimamente próxima do que a marca Drag Race representava no mundo. Na época, muitas das críticas ao resultado capenga da temporada foram interpretados como hate, quando, na verdade, havia um interesse geral de que a franquia brasileira fosse tratada com o respeito que merecia.
Meses depois do fim da exibição, em janeiro de 2024, a Paramount finalmente admitiu uma crise financeira generalizada, que se confirmou com o cancelamento não só da Drag Race, mas de todos os realities da plataforma. As franquias do México e da Alemanha (que também eram filmadas na Colômbia) também foram afetadas. O bem sucedido RioShore, sucesso da plataforma, foi cancelado mesmo com a temporada vigente toda finalizada e em processo de edição. Foi para o limbo, junto com todas as temporadas dessas franquias.
A Paramount saiu de cena, mas levou a primeira temporada consigo (ela desapareceu mesmo). A World of Wonder tomou as rédeas da produção um ano depois e as melhorias foram percebidas imediatamente. Bastou o episódio de estreia e não só tínhamos um ateliê melhor e um palco principal melhor, como também uma edição e finalização que finalmente respeitavam a estrutura e ritmo de um episódio da Drag Race. Foi maravilhoso sentir que, enfim, tivemos como retribuição à nossa paixão uma produção verdadeiramente bem cuidada.

Grag Queen voltou com um time de 10 participantes e com os dois jurados da temporada anterior. Grag sempre foi competente na apresentação, mas com a ajuda das melhorias de produção e edição, soa ainda mais forte e carismática que antes. Dudu Bertholini e Bruna Braga ainda têm dificuldade para fazer apontamentos que vão além dos adjetivos e superlativos, mas é notório que a edição tem selecionado melhor os trechos que tornam os julgamentos mais personalizados. Bruna, inclusive, já falou até dentro do episódio 4 sobre a onda de hate que sofreu desde a temporada passada, Contudo, seu desempenho na bancada ainda não reflete a eloquência de seu discurso sobre o que pensam de seu desempenho nela.
As participantes foram um grande acerto de escalação. Essa crítica foi feita logo após a exibição do episódio 4, quando rivalidades e narrativas já são parte do enredo da temporada. Os episódios 1 e 2 já foram bons, mas foi durante a exibição do episódio 3 que a franquia encontrou sua primeira grande catarse. A rivalidade entre Desiree Beck e Melina Bley depois de uma queda fatídica no meio de um número de dança, já fulgura entre os melhores momentos da corrida como um todo. Isso sem falar no bafônico número das Afrontosas; uma ode ao que se fez de melhor nos desafios de girl groups do formato.
E a lista é respeitável: a eliminação de Chanel por causa de um papel higiênico na bunda; o humor sem autocrítica de Poseidon; as emoções à flor da pele de Mellody e Paola… O episódio 4 terminou de estabelecer a força dessa segunda temporada com um lipsync de “Brasil” da Gal Costa que será lembrado para sempre no mural das dublagens icônicas do nosso precioso Runiverse. Assisti a esse episódio numa Watch Party com a presença de Grag, e o double shantay que salvou Mellody e Desiree foi celebrado como gol da Copa do Mundo. Lá pelo fim do episódio, Grag parecia muito aliviada com o crescente sucesso da franquia a cada episódio.
Todo reality show que se preze precisa ter alguns elementos principais que convergem para que uma boa temporada aconteça. Precisa ter uma boa produção de desafios; precisa ter uma edição que saiba montar narrativas; precisa ter participantes dispostos a jogar com o programa; precisa ter drama e conflito; precisa ter humor e precisa da própria “mitologia”. A Drag Race Brasil parece estar finalmente encontrando esse caminho, o que é bom para todos os envolvidos; para quem faz o programa; para quem assiste o programa e para quem fala sobre ele.
Nem tudo é hate no mundo dos espectadores; e realizadores precisam exercer autocrítica.















