Lindamente apresentado por Deborah Secco, reality do Globoplay tem como ponto alto a descoberta das barreiras para a formação de um trisal.

Realities de relacionamento fazem parte da cultura vigente há bastante tempo. Se nos primórdios da televisão tudo se baseava em games de um episódio só em que estranhos “se conheciam” através de perguntas e respostas, com a chegada do streaming a coisa toda alcançou novos patamares. Um dos apelos mais fortes da Netflix – por exemplo – é seu extenso número de títulos que envolvem o gênero. Tem reality para formar casais, para trocar casais, para testar casais e até para separar casais. As variações são impressionantes. 

Contudo, aqui no Brasil e ao redor do mundo, a grande maioria desses formatos são essencialmente heteronormativos. Quando muito, casais de mulheres ou casais bissexuais (em que apenas a mulher é bissexual) aparecem em um ou outro título, porque, seguindo a lógica comercial, é mais provável encontrar entraves monogâmicos nessas configurações, garantindo que a fluidez não será absoluta e que ao menos alguém vai ajudar os produtores com crises de possessividade. 

Nesses tempos em que Casamento às Cegas reina na formação de relacionamentos tradicionais (por um meio não-convencional), a chegada de Terceira Metade no Globoplay foi uma surpresa. O reality reúne num retiro quatro casais dispostos a formar um trisal. Lá, eles vão conhecer solteiros dispostos a viver esse poliamor; e ao final de algum tempo, cada casal escolhe o terceiro travesseiro que quer levar para casa. Se a convivência der certo, sai todo mundo junto da experiência. Se der errado, as pessoas podem sair cada uma para o seu lado. 

É uma fórmula interessante… As semelhanças com programas como “De Férias com o Ex” são notórias, porque, de fato, ali está um grupo de jovens extremamente atraentes, que regados de álcool e liberdade, vão viver intensamente as possibilidades eróticas do convívio. A diferença maior está na busca pelo equilíbrio entre a exposição sexual e a elegância dessa iniciativa, que apesar de querer atrair os interessados em conteúdo adulto, também não quer ser reconhecido apenas por isso. Terceira Metade também tem uma intenção emocional; e se esforça para não perdê-la de vista. 

Outro fator positivo muito importante é que diante da não-convencionalidade do formato, o elenco de participantes escapa quase totalmente da toxicidade heteronormativa presente nos outros formatos. A maioria dos homens e mulheres é bissexual; e quase todos já tiveram experiências a três antes. Enquanto nos outros formatos os problemas surgem das traições habituais, em Terceira Metade transar ou beijar outra pessoa não é o problema e os conflitos, então, revelam camadas mais inesperadas e complexas. O ciúme e a insegurança partem de um lugar quase melancólico, que não entende bem como expressar desejo sem sentir-se emocionalmente ameaçado. 

Os casais escolhidos não deixaram a desejar. Dentre eles, Yago e Dhara eram os mais “bem resolvidos”. Aqui fora eles já trabalhavam com parcerias de conteúdo adulto e pareciam levar a experiência de maneira mais leve. Além disso, eles imediatamente se conectaram com outra moça e isso facilitou a passagem deles pela experiência. Já entre Ana e Mauro (o mais desejado pelos participantes e espectadores), a leveza partia apenas dele. Ana estava claramente insegura e assustada na maioria do tempo; e considerava qualquer proximidade afetiva como uma possibilidade de abandono. 

Entre Jhessica e Marlon o problema era o machismo estrutural dele. Jhessica era bissexual e aceitava transar com mulheres, mas Marlon era hetero e tinha ciúmes de vê-la com outros homens. Apesar de preocupar-se em “melhorar”, Marlon só ficava à vontade se uma mulher estivesse entre eles. Contudo, os dois não foram o casal que enfrentou mais problemas, já que Bia e Liah passaram por turbulências desde o primeiro dia. Os problemas entre elas eram tantos, que a produção precisou intervir antes que a permanência delas destruísse permanentemente o que sentiam uma pela outra. 

Essas intervenções foram outro ponto alto do programa. A presença da psicanalista Regina Navarro levou a apontamentos importantes, sobretudo quando Bia e Liah começaram a perder o controle. Mas, sem dúvida, foi a apresentação emocional de Deborah Secco que fez a verdadeira diferença. Fã do gênero, Deborah não perdeu a perspectiva apaixonada de um espectador e se envolveu o máximo possível nas dinâmicas do programa. Sua presença divertida e empática ajudou o reality a parecer mais verdadeiro, mesmo quando ele sofria um pouco com questões de autenticidade. 

Foi, aliás, na metade final do programa, que esses problemas ficaram mais visíveis. A direção optou pelo modelo Casamento Às Cegas e colocou os participantes para viver num mesmo edifício, em apartamentos já preparados para eles. Contudo, a naturalidade da convivência foi por água abaixo e embora houvesse questões reais acontecendo (como a insegurança de Rafael), a edição não conseguiu tornar essa fase do programa mais fluída. Em 90% do tempo, as situações pareciam ensaiadas (mesmo que elas não fossem). 

Enfim, Terceira Metade fez uma primeira temporada muito competente; cheia de entretenimento e boas surpresas. O reality foi bem cuidado pelo Globoplay e vamos torcer para que consiga um novo ciclo. A missão de criar trisais foi cumprida, mas a mensagem de “amor livre” terminou comprometida pelas próprias circunstâncias. No final das contas, as relações a três se mostraram frágeis onde qualquer relação monogâmica também se enfraquece: na confiança. Os acordos de fidelidade ainda estavam lá; os incômodos e a possessividade também. O mito do relacionamento aberto como alternativa para evitar as convenções da mononormatividade se desmascara na prática. O que sustenta relações, sejam elas quais forem, é o compromisso.

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