Assim como acontece numa grande corrida, o segundo ano da versão brasileira da Drag Race deixou o ritmo cair logo antes do fim da linha. 

 

E temos uma nova drag superstar brasileira. 

Mas, Organzza, a vencedora da primeira temporada da corrida, não estava lá para passar a faixa. A primeira temporada do reality foi festejada em uníssono pela comunidade LGBTQIA+ do país inteiro; mas diante de uma produção capenga e uma edição indesculpável, a empolgação diminuiu consideravelmente, e entrou em seu lugar uma certa indignação por não estarmos recebendo o tratamento adequado. A ausência de Organzza foi uma dessas indignações… e as eliminadas… e cadê a Miss Simpatia? 

Como já tinha sido mencionado num texto anterior aqui no site, com a renúncia da Paramount em continuar a produção, o World of Wonder tomou a frente e garantiu a segunda temporada. E essa segunda temporada veio melhor, claramente. Nas primeiras semanas deste novo ciclo de episódios, era evidente o cuidado maior com cenários, produção e edição. Contudo, a ausência de Organzza na passagem da coroa; e das eliminadas na passarela final, sinalizou que o Brasil continua sofrendo com o excesso de “gambiarras econômicas” que atrapalham a experiência completa do show. 

Mas foi, sem dúvida, uma experiência melhor que a anterior. No episódio 3, por exemplo, tivemos a primeira boa canção criada para um desafio de girl groups. No episódio 4, veio o que talvez podemos considerar o auge, com um ótimo conjunto de desafios-passarela-lipsync; e “Brasil” de Gal Costa dirigindo uma dublagem para nenhuma versão da franquia botar defeito. Além disso, as interpretações da cultura nacional feitas pelas queens na passarela foram – na maioria das vezes – muitíssimo interessantes. 

Esse ano tivemos uma mínima “mitologia referencial”, com momentos que podem acabar ficando nas memórias dos fãs e que podem se tornar pontos de comparação positivos para o futuro. Tivemos uma bancada de jurados mais disposta a fazer mais que elogios; tivemos Grag ainda mais amadurecida e tivemos até um pit crew decente. Contudo, apesar de terem costurado a estrutura do formato do jeito certo na maioria do tempo, a impressão é de que na reta final da temporada, todo mundo por trás das câmeras já estava cansado e ligou o piloto automático. 

O ritmo caiu consideravelmente no episódio do Snatch Game, onde algumas decisões dos jurados já pareciam um pouco esquisitas, privilegiando performances apenas porque achavam que precisavam fazer alguém vencedor. Depois disso, uma sucessão de desafios regulares, que culminaram no terrível episódio do Roast, que não teve nenhuma graça e ainda entregou um vexaminoso double shantay – não porque as queen merecessem, mas porque no episódio seguinte teríamos o makeover e a produção precisava de 5 queens para compor as duplas. A dublagem desse episódio do makeover acabou sendo muito melhor e a eliminação de Belchi feriu a integridade da temporada. 

O elenco, aliás, apesar de mais apurado na passarela, ainda parece sofrer daqueles mesmos problemas de autenticidade diante das câmeras. Ainda não conseguimos ver drags com pontos de vista realmente marcantes; com declarações e posicionamentos desapegados do medo do cancelamento. Falta shade real; falta sagacidade; falta uma edição que estabeleça narrativas – e para que a edição encontre essas narrativas, o elenco tem que se dispor a entregar tudo que for necessário. 

Quando chegamos ao Top 4, o quadro de participantes era até bem comum ao formato. Melina como a que nunca ganhou um desafio mais foi empurrada até ali; Mellody como a participante com a história de vida mais dramática; Poseidon como a drag “cômica” e Ruby como a favorita. Mas, a produção foi tão negligente com a final, que aquilo nem parecia uma final e sim um episódio aleatório qualquer. E se a questão orçamentária for mesmo um problema, que eles lutem para compensar com criatividade. 

Desapegar-se de coisas que não dão certo também é importante. Nessa temporada, Bruna Braga falou sobre o imenso hate que sofreu durante a primeira. O hate é desnecessário e errado, mas ele não deve eclipsar completamente ponderamentos válidos sobre desempenhos que estão passíveis de ajuste. Bruna é uma mulher incrível, tem talento, mas seu humor não se encaixa no formato. A bancada padece um pouco da falta de incisividade. Dudu e Bruna agem sempre como “fofinhos”, e acaba ficando para Grag – na maioria das vezes – os apontamentos mais severos. 

Com um elenco deslumbrado querendo sempre cumprir um protocolo de exposição; e com a bancada sempre preocupada demais em não ir direto ao ponto, o resultado é um pouco insípido, esterilizado demais. Você vê, de fora, os jurados reagindo ao medíocre como se ele fosse maravilhoso e acaba se perguntando se estamos mesmo diante de uma “olimpíada de talento” ou se estamos apenas assistindo a uma competição onde o contingente pouco importa, desde que alguém sempre ganhe e alguém sempre vá embora (se o desafio seguinte deixar). 

Mas, enfim… A segunda foi melhor e sabemos que provavelmente a cada novo ano as arestas serão aparadas e a corrida vai encontrar seu ritmo e seu tom. Tenho fé que vamos chegar ao orçamento ideal e ao casting dos sonhos (em algum momento). Por hora, vamos parabenizar e celebrar a vitória de Ruby Nox com tudo que ela merece. Grande pessoa, talentosa e serviu nos looks. 

Que venha a Season 3. Que fique claro que não importam as críticas; a gente quer mais Drag Race Brasil. Sim, porque mesmo que cambaleando pelo caminho, não vamos desistir de seguir nessa maratona. 

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